Horácio Costa: “Eu sou melhor a desajustar do que a ajustar”

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A conversa aconteceu numa tarde de Sábado, num café histórico da Praça do Rossio. Horácio Costa estava de visita a Lisboa para participar na Jornada dedicada a Sor Juana Inés de La Cruz, organizada pela Casa da América Latina e pelo Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.

Crítico, ensaísta, professor universitário, Horácio Costa (n. 1954) conversou connosco na condição de poeta. 

Dizia-me há pouco que não é especialista em nada.

Eu não sou especialista em nada e defendo muito não sê-lo, entre outras razões porque os poetas não o são. Os poetas não são especialistas e não são especialistas em poesia. Os poetas escrevem poesia. A poesia vem como uma não especialidade, ela vem como uma necessidade expressiva, ou como um tipo de discurso, ou como uma linguagem específica. Porém, não como uma especialidade de mercado para quem quer que seja.

Quem é que é especialista na poesia? Os críticos? Os académicos?

Os académicos são especialistas e vivem disso. Os poetas raramente vivem de poesia e boa parte dos poetas escrevem poesia porque não podem não escrever poesia.

É o seu caso?

É o meu caso.

Há quem diga que a poesia deve ser escrita apenas quando é um imperativo e que não deve obedecer a quaisquer expectativas de agradar a quem quer que seja ou ter qualquer outro objetivo. Que só se deve escrever poesia quando não se pode não escrever. Concorda com esta ideia?

Concordo com essa ideia, posso subscrevê-la, e foi assim que aconteceu comigo. Eu sou arquiteto e urbanista de formação, e como comecei a escrever poesia relativamente cedo e depois mantive essa opção de escrita mesmo quando era aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a um dado momento, e junto com um escritor brasileiro naquele momento que era meu colega de classe, decidimos, o Milton Hatum e eu, a partir daquele momento privilegiar a nossa opção pela literatura, ele pela prosa e eu pela poesia. E foi assim que aconteceu. E eu passei a estudar literatura porque na verdade eu tinha necessidade de entender mais o que me acontecia enquanto poeta. E deixei a arquitetura de lado, fiz pouca arquitetura de criação, isto é de projeto, mas a partir de um certo momento eu solicitei bolsas para sair do Brasil e estudar literatura. E foi assim que eu fui parar nos Estados Unidos, e foi assim depois que eu fui parar no México, e foi assim depois que eu voltei a parar nos Estados Unidos, e foi assim que eu vim para Portugal para pesquisar sobre literatura. Porque eu cheguei à conclusão que eu queria ter um PHD e queria viver disso, e foi assim até agora. Mas, para mim, a opção básica e a que me justifica como sujeito é a poesia.

Mas quando diz que foi estudar literatura para entender-se enquanto poeta, isso significa o quê?

Não, eu não precisava me entender enquanto poeta, eu queria entender a escrita. Eu não queria entender a minha sensação de poesia nem a forma como eu escrevia, eu queria entender melhor como era escrever poesia. Qual era a história dentro da língua portuguesa da poesia. Não esquecer que eu tinha estudado literatura, e mesmo que tenha tido boa educação nos colégios brasileiros, eu queria saber mais. E esse caminho me foi vetado na universidade na qual eu dou aulas hoje. Eu quando quis fazer pós-graduação em Letras eles me vetaram e falaram que eu precisava fazer toda a graduação novamente. Então eu falei, “bom, não vou fazer mais 5 anos de graduação se eu posso fazer uma pós-graduação”, e concorri para os Estados Unidos, fui aceite como estudante, e então lá fui estudar.

E encontrou as respostas que procurava?

Eu encontrei o texto, né? Encontrei o texto de poesia sistematizado através da memória literária, isso eu encontrei. Agora, as respostas eu acho que, na verdade, eu já tinha antes. Você escreve poesia porque não pode não escrever poesia. E se você vai continuar a escrever poesia, trate de preservar essa impossibilidade de fazer qualquer outra coisa num determinado momento em que você tem que escrever poesia. E eu creio que eu preservei, apesar de ser professor, de ter feito carreira universitária, tanto nos Estados Unidos, depois no México, e agora há quase 20 anos no Brasil. Regressei ao Brasil já adulto e não deixei de escrever poesia, e não deixo de sentir essa conexão forte com a escrita de poesia. Foi uma batalha e creio que o espírito académico funciona muito em neutralizar esse tipo de personalidade dos poetas na academia. Pelo menos eu me sinto cerceado e pouco respeitado na Universidade de São Paulo, que é uma universidade de bastante qualidade. Ela tem vários pontos positivos porém há muito poucos poetas, historicamente há muito poucos poetas, e há pouco lugar para a poesia no contexto do ensino na Universidade de São Paulo. Eu acho ridículo e batalho contra isso.

E porque é que acha que isso acontece?

A Universidade de São Paulo não é uma universidade antiga, ela foi criada nos anos 30. Não esquecer que a universidade brasileira é do século XX, não temos universidades nem barrocas, nem medievais, entendeu?, e nem no século XIX havia instituições de ensino superior. Portanto, a questão da universidade se cria no Brasil em 1930, a ideia de uma universidade moderna, etc. Então a Universidade de São Paulo vem suprir a falta de reflexão que havia nos campos das ciências humanas e o que se cria nesse momento é um espírito académico à la française, com boa presença de pessoas que estudaram em França. E o modelo original é um modelo francês, as questões da poesia na universidade francesa tão pouco são muito permeáveis à presença da poesia como criação, apenas como análise. E se nós acrescentarmos a isso o facto de que a profissão de letrado no Brasil é necessária e representa um nicho de mercado muito bom, criam-se professores e críticos para o mercado. E os que dão aulas pensam nesse universo específico. Eu acho que inclusive essa perceção do ensino no qual a criação está ausente já não corresponde mais à própria realidade do mercado brasileiro, nem à do mercado na pós modernidade em qualquer lugar. Porque eu acho que os letrados agora podem fazer muitas coisas que não faziam antes, além de darem aulas de literatura ou teoria literária, ou fazerem as suas pesquisas sobre temas académicos, e viverem na ideia de repetir infinitamente as autoridades que falaram sobre certo tópico, e citar exaustivamente e fazer o state of the art de todo o mundo que escreveu sobre um determinado tópico, para depois desenvolver milimetricamente algum pensamento próprio. Eu acho que há no mercado dos letrados hoje muitas mais possibilidades. Por exemplo a que você está fazendo agora, ou seja, um letrado pode ser um comunicador. Portanto, eu acho que a questão da criação na academia devia ser revista, particularmente na universidade em que eu dou aulas, e ser implantada de uma maneira geral em todos os cursos de letras.

Disse que escreve poesia porque não pode não o fazer. Começou assim?

Começou assim.

Que idade tinha?

12 anos. Os primeiros poemas que eu escrevi foram sobre a guerra do Biafra no ano de 1967.

Porquê o Biafra?

Porque pela primeira vez na minha vida vi fotos de extrema pobreza publicados nos jornais de São Paulo.

Mostrou a quem?

Primeiro à minha mãe, e minha mãe me pegou pela mão e me levou para a Academia Paulista de Letras para conversar com poetas estabelecidos. E foi assim que pela primeira vez eu entrei na Academia; eu acho que foi a única ou uma das duas na minha vida. E daí conversei com alguns poetas que tinham conhecido o meu avô, e um deles que é o Paulo Bonfim me perguntou se eu pretendia seguir escrevendo poesia e eu falei que sim. Daí ele me disse: “quando escrever me traga poemas.” Nunca escrevi, nunca levei, mas fui tratado com seriedade e minha mãe ficou toda chorosa num canto. A minha mãe vem de uma família diferente da família do meu pai. A família da minha mãe é uma família, digamos, de classe média intelectualizada. Meu bisavô materno foi o criador do Colégio de Ciências e Letras de São Paulo, ainda durante o império brasileiro no final do século XIX, então é uma família relativamente ilustrada, digamos assim. Muito conservadora porém ilustrada. E a família do meu pai não, é uma família de terra-tenentes, plantadores de café, desses açorianos que foram mandados para o Brasil no século XVIII para criar Porto Alegre, o Porto dos Casais. Daí através do sistema das tropas de Muares para as Minas Gerais, no final do século XVIII, essa família açoriana foi subindo na geografia brasileira até se situar no sul de Minas em Itajubá. A família da minha mãe não. Ela é uma família também de origem ibérica, na verdade, de cristãos novos de Sevilha, andaluzes, que foram para São Paulo. Desses sim eu tenho a data, 1581. Então é uma família de cristãos novos que foram para São Paulo porque era uma cidade, talvez aqui em Portugal não se saiba, uma cidade com muita presença de cristãos novos na colónia. Foi um porto seguro para o judaísmo no Brasil colonial, o que explica inclusive a grande acumulação de dinheiro na São Paulo colonial através das bandeiras, dos bandeirantes, etc. E pronto, essa é a origem da família da minha mãe.

Diz que quando lhe perguntaram aos 12 anos se queria continuar a escrever poesia o Horácio disse que sim. Como é que já sabia isso aos 12 anos?

Eu não sabia mas, talvez, como eu estava com um poeta estabelecido, não iria dizer não. Mas de facto eu continuei a escrever poesia.

Para quem não conhece a sua poesia aqui em Portugal, como é que falaria dela?

São 13 livros de poesia, então não é 1 nem 2. Eu escrevi muito fora. Creio que nos meus primeiros livros, não considerando o primeiro, eu escrevi um pouco on the road. Escrevi aqui em Portugal mas principalmente no México onde morei muitos anos, e quando morei nos Estados Unidos. Então é uma poesia de um brasileiro no mundo, marcado inclusive por uma experiência poliglota, certo? E a partir do momento em que eu, aos 46 anos, voltei a viver no Brasil a minha poesia simplificou-se e eu trato de, talvez com a maturidade também, tópicos mais amplos e menos de exposição experimental. Trabalho uma prosódia que tem a ver com a prosa, mas não é prosa. Desde o princípio pesquisei sobre a questão da proximidade entre escrita de poesia e escrita de prosa, porém livros como os que eu tive na década de 80 foram substituídos por poemas que tratam mais da realidade ou da memória, mais extensos, e que eu tenho escrito de há uns anos para cá. Outra característica é que, depois de voltar para o Brasil, eu deixei de montar os livros de poesia. Eu cheguei à conclusão que a minha obra ganharia se eu escrevesse e publicasse sequencialmente os poemas. Entre outras razões, para explicitar para os poetas mais jovens que o impulso de poesia é tão anárquico, ou pelo menos para mim o é, que há uma variedade temática entre poemas escritos proximamente, sequencialmente no tempo, que se perde quando você monta manuscritos de poesia com focos temáticos, e portanto neutraliza essa questão da pluralidade, o impulso poético para a escrita. Eu posso escrever um poema muito condensado hoje e, digamos, com um tópico completamente diferente daquilo que eu escrevo amanhã. E eu acho interessante que o leitor leia, perceba, essa variedade do impulso poético. Porque a partir do momento em que eu faço a montagem por focos temáticos eles facilitam a leitura mas distanciam do fenómeno da poesia em si.

Da criação.

E da criação. Eu posso escrever um poema sobre sacanagem e no dia seguinte sobre política, e têm registos muito diferentes e talvez leitores muitos diferentes. E como o poeta é o seu primeiro leitor, eu posso não ser a mesma pessoa, aquele que fala de sacanagem e aquele que fala de política, mas os poemas vêm em sucessão, e eu acho importante que isso passe para o leitor de poesia hoje.       

Como é que avalia a poesia que se faz hoje no Brasil?

Ah, a poesia brasileira é literalmente inclassificável. O que acontece no Brasil como noutros países é que a questão da literatura no mundo da facilidade eletrónica, digamos assim, é que propicia uma espécie de irreflexão e uma superexposição de tudo o que se escreve. Eu não sei se sou contra ou a favor, mas não é assim que eu faço. Mesmo publicando sequencialmente os poemas eu deixo que eles descansem uns 2 anos antes de publicar. Eu não reescrevo mas eu seleciono.

Porquê esperar 2 anos?

Porque é o tempo que para mim leva até publicar. Tenho publicado com 3,4 anos de afastamento.

Tem muita coisa na gaveta, neste momento?

Tenho. Tenho muita coisa na gaveta. Mas há exceções a esta espera. Por exemplo, agora vai sair uma série de poemas traduzidos para francês sobre o governo Bolsonaro. Então são uma série de poemas que eu escrevi no último ano, digamos, na crise brasileira mais recente. Então, esses fazem parte de uma publicação que tem uma curadora, portanto pediu poemas. Agora em livro eu não publico, vai esperar mais tempo.    

Conhece e acompanha a poesia portuguesa?

Sim. E a questão com a literatura portuguesa é que eu não sinto que é outra literatura. Assim como nós estávamos falando há pouco, não acho que Portugal seja completamente outro. Não é um país outro, é um país mesmo, é outro país mesmo. E a literatura portuguesa é outra literatura mesma, e a história de Portugal é outra história mesma. Então, eu sinto de facto uma grande familiaridade, não só porque os meus antepassados vieram daqui ou dessa zona, mas porque … não acho estranho, entende?  

Deve saber vários versos de cor. Diga-me um.

Nada, não sei. Não guardo nada de memória.

Não digo seus. De alguém, um poeta de que goste…

Sim. “As armas e os barões assinalados”, pronto. (risos) Não vai muito além disto.

Camões não está mal, está ótimo.

Sim, mas é assim: não sei muita coisa de memória, nunca trabalhei a memória. Eu sou melhor a desajustar do que a ajustar. Me sinto mais feliz desajustando do que ajustando.

É ensaísta, professor, crítico, poeta, faz várias coisas. Onde é mais o Horácio Costa? Em qual delas é que é mais o Horácio?

(pausa) Com o meu marido e os meus cachorros.

Entrevista realizada por: Raquel Marinho