Rita Joana: “Tenho a expectativa de que o público se enamore.”

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Por ocasião da 9ª edição da Mostra de Cinema da América Latina, a sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, vai receber a apresentação do disco El Cine, de Rita Joana Pinheiro Maia. Às 23h do dia 14 de dezembro, a cantora conimbricense sobe ao palco para interpretar um repertório composto por 12 das canções que mais a marcaram da Idade de Ouro do cinema mexicano.

Mandam as regras da boa educação começar esta entrevista por perguntar-lhe como está, ao que vai responder-me “à espera do inevitável”. O inevitável era este disco?

[Risos] Penso que sim, que também seria este disco. Costumo dizer que dizer que estou à espera do inevitável porque é uma parte genética que tenho: uma certa melancolia, uma certa nostalgia, tanto relativamente ao passado, como à ideia de que somos finitos. Penso que esta genética, esta forma de ver a vida, teve um grande peso quando me enamorei da sonoridade de que estamos a falar.

No vídeo de apresentação do disco à imprensa, assume que, por ter nascido no dia das mentiras, ficou marcada pela descrença alheia. O cinema mexicano foi o veículo que encontrou para contornar essa sensação?

Essa falta de fé começa muito em nós, quando temos a perceção de que vivemos numa sociedade onde não é bem encarado sentir e que, quando sentimos com grande intensidade, aprendemos rapidamente a controlar essas demonstrações. O cinema mexicano e a música mexicana, pela menos nesta época [Idade de Ouro], é muito intenso, muito apaixonado, até as próprias comédias – muitas delas acabei por ver por causa do Jorge Negrete – são intensas; a história pode ser sempre a mesma, pode ter sempre o mesmo final, mas tem uma intensidade muito grande. Com as músicas acaba por acontecer o mesmo, até porque a parte da produção, naquela altura, era muito histriónica, muito ruidosa, e acho que foi isso que acabou por me encantar.

O “excesso de paixão” e a “ardência dolorosa” que fazem do seu corpo sua casa foram surgindo à medida que absorvia estes filmes ou já nasceu consigo?

Sim. Por um lado, fiquei mais sossegada porque não estava sozinha nesta “maluquice”, por outro lado, claro que alimentou! À medida que fui crescendo e amadurecendo, aprendi a ter um universo paralelo em que não permito que ninguém interfira e este universo foi crescendo com aquelas personagens, aquela imagética, aquela estética… Mas também é genético por causa da minha história familiar que é muito engraçada! Sempre houve uma intensidade muito grande de acontecimentos à minha volta.

El Cine é a banda sonora de “tus amores”. Para além do cinema mexicano, que outras paixões tem uma conimbricense que na infância tinha como melhores amigos uma pastora alemã e um carneiro?

Literatura do final do século XIX. Às vezes, até tenho uma forma de me expressar um bocadinho rocambolesca, porque acabei por absorver a linguagem utilizada nas leituras que fazia. Gosto muito de Jane Austen, das Irmãs Brontë… Dos portugueses, sempre tive uma grande paixão pelo Aquilino Ribeiro, apesar de que, ainda hoje, para lê-lo, tenho de parar 30 vezes e andar para trás, porque já não estava a perceber o que é que ele estava a dizer. Este tipo de literatura encontro-a também, agora, no Mário Zambujal, mas é muito difícil encontrar uma prosa que nos arrebata. Gostando eu de música mexicana não me apetece ler algo que não me provoque emoções!

A Rita estará acompanhada por diversos músicos no concerto e no álbum. Qual a relação destes com um estilo musical tão particular?

Comecei este trabalho em 2015 com um músico extraordinário, chamado Gabriel Godoi. Entretanto, por motivos pessoais, a parte inicial do projeto acabou por ser mais demorada e o Gabriel tinha outros trabalhos pendentes, que impossibilitaram a sua continuidade neste disco. Entretanto, a Luanda Cozetti, convidada especial que faz “A Vingança de Sara Montiel”, o único original do álbum, apresentou-me uma pessoa maravilhosa, a quem agora chamo “irmão de luz”, o Nilson Dourado. O Nilson começou como guitarrista neste projeto mas rapidamente lhe pedi para ser o produtor musical, porque é uma pessoa que escuta, qualidade rara por estes dias. Percebeu exatamente o que é que eu queria fazer: eu não queria alterar a estrutura musical para convencer as pessoas a gostarem; queria, isso sim, fazer com que aquelas canções ainda fossem mais dramáticas como, por exemplo, a música que cantamos com a Susana Travassos: tive imensa dificuldade em ouvi-la sem desfazer-me em lágrimas! O Nilson conhecia bastante bem o Duque (trompete e flauta transversal) e o Quintino (contrabaixo e baixo elétrico) e chamou-os para o projeto. São profissionais inacreditáveis que perceberam rapidamente qual era o conceito: eu só queria adoçar e dramatizar, mas sem aquela estridência que é tantas vezes confundida com a cultura mexicana.

Celina da Piedade em “Pouquita Fé”, Miguel Calhaz em “Malagueña Salerosa” e Luanda Cozetti em “A Vingança de Sara Montiel” são algumas das parecerias deste álbum. O que acrescentam estes convidados a um álbum tão pessoal?

A Luanda era a pessoa que eu ouvia a cantar “A Vingança de Sarita Montiel”. Eu cantei-a e pensava “que desgraça!” e a Luanda fez exactamente aquilo que eu precisava e foi maravilhoso. A Susana tem uma obra incrível e uma voz indecente. O Miguel Calhaz tem uma forma de tocar e abraçar o instrumento muito própria e queria-o comigo e a “Malagueña Salerosa” é a única canção do disco que foi gravada em direto: isto é, não houve faixas; ensaiámos três vezes e logo a seguir gravámos. O Mira é maravilhoso e conta já com uma extensíssima lista de colaborações e a Celina é a alegria na voz.

Quais as expectativas que tem em relação à receção do público a este trabalho?

Sem querer, apanhei uma fase muito engraçada da estética mexicana: de repente, as pessoas aperceberam-se dos problemas de emigração, de que há cultura e, consequentemente, música no México. Até a música moderna mexicana tem pérolas inacreditáveis que nós pura e simplesmente não conhecemos porque ou somos mais anglófonos, ou então ficamos um bocadinho perdidos com esta quantidade de informação que há hoje. Penso que, se houver uma boa estrutura de difusão, estas músicas, como quaisquer outras, serão bem recebidas. O álbum está feito com muito cuidado e isso nota-se nas sonoridades. Estas sonoridades acabam também por abranger muitos géneros e tenho a expectativa de que o público se enamore.