Martha Tomé: “Vejo-me como defensora da cozinha tradicional mexicana”

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Muito mais que tacos e burritos: a comida mexicana de verdade explicada por Martha Tomé. Na antevisão do mercado da América Latina, a CAL entrevistou a cozinheira mexicana que aterrou em Portugal há seis anos e, desde então, não voltou a sair.

Alguém escreveu, na sua página de Facebook, que Portugal é um país com padrões de exigência elevados no que se refere a gastronomia. Fale-nos um pouco do porquê de ter elegido Lisboa como cidade para viver e de como está a correr a experiência no catering de comida mexicana.

Vim para Portugal por amor: há nove anos conheci o meu marido, que é português, e volvidos três anos casámo-nos e vim de forma definitiva para Lisboa. Comecei por experimentar a gastronomia portuguesa – o polvo à lagareiro e o bacalhau assado são os meus pratos favoritos – e adorei, desde a simplicidade da apresentação ao ressaltar dos sabores. Entretanto, as saudades do México começaram a apertar e fui-me perguntando onde conseguiria encontrar em Lisboa os ingredientes necessários para cozinhar os pratos mexicanos a que estava habituada. Até que um dia dei de caras com uma senhora na rua vestida com um traje típico da Índia e pensei que talvez ela soubesse onde havia chili e outras coisas. Perguntei-lhe e a senhora mandou-me a umas lojas, onde comecei a investigar; nesta altura, a minha mãe também começou a mandar-me coisas do México.

A comida mexicana sempre foi a minha paixão e aprendi a cozinhar com as minhas avós, com as minhas tias e com a minha mãe. Além disto, tive a sorte de viver em várias partes da República Mexicana, nas quais dei conta de que cada região tem uma gastronomia característica. Falar da cozinha mexicana é falar de um vasto universo de aromas e sabores. Algo que é importante destacar são os ingredientes que unem esta gastronomia: o milho, o frijol (feijão) e o chili, que podem ser encontrados em todo o território nacional mas preparados de maneira diferente, dando origem a diferentes receitas e apresentações.

Da parte dos portugueses, noto uma grande abertura para descobrir novos sabores. Há muita gente que ainda não conhece o México e que acha que a comida é muito picante mas quando se atrevem a provar gostam! Um dos pratos que dei conta de que os portugueses gostam muito são os tamales!

Ainda nas redes sociais, foi descrita como uma digna representante da comida mexicana. Sente-se uma embaixadora do seu país no estrangeiro?

Sinto-me bastante lisonjeada com essa distinção mas, acima de tudo, vejo-me como uma defensora da cozinha tradicional mexicana, na medida em que posso mostrá-la como é: sem adornos, honesta, sensível e viva. Mais do que embaixadora, sinto-me defensora e difusora: gosto de partilhá-la, de praticá-la, de observar as pessoas saboreá-la e a sorrir. Não só aqui como em muitos outros países, a gastronomia mexicana encontra muita aceitação porque também há muita curiosidade: em tempos, pensava-se que a comida mexicana eram só os burritos, os nachos e o chili com carne; agora o que está na moda são os tacos. Mas antes destes já existia uma extensa gastronomia que os habitantes da Mesoamérica conseguiram através do aproveitamento da extensa flora e fauna de cada região – a chamada comida pré-hispânica – tais como a nixtamalização do milho, os moles, os tamales, entre outros.

A simplicidade na apresentação dos pratos é um traço característico da Martha. Considera que este elemento é fulcral para a ideia de comida tradicional que quer transmitir?

Exatamente! É uma forma muito caseira de apresentá-los: muito honesta, muito sensível, sem adereços. Acho que é importante não perder a essência de servir como te servem em tua casa. Sinto que é essencial transmitir nos meus pratos o carinho e o conforto do lar.

Os portugueses são bons apreciadores da gastronomia latino-americana?

Muito! São muito interessados e muito receptivos a experimentar. Já tive oportunidade de participar em vários festivais onde a gastronomia mexicana também esteve presente e a maioria das pessoas que vêm ao nosso encontro são portuguesas!

Os seus pratos têm absorvido influências da gastronomia portuguesa?

Os meus pratos respeitam, essencialmente, a gastronomia mexicana. Porém, há uma receita que o meu esposo gosta muito e que tem um produto tipicamente português, o “Bacalhau a la Viscaína” ou à “Veracruzana”. Esta receita data da altura da colonização e é considerado um prato de festas, que é consumido, essencialmente, no Natal e no Ano Novo. O que chamou a atenção do meu marido foi ter adicionado tomate: a fusão destes ingredientes resultou num prato fantástico! As pessoas não sabem mas o tomate é nativo do México! A comida mexicana, à imagem da portuguesa, é tão rica que misturada com outra perde a sua essência. Mas podemos sempre experimentar!

Para além da comida mexicana, que outro tipo de gastronomia aprecia?

A cozinha italiana: não só de comer mas também gosto de preparar pratos italianos. A tailandesa e a indiana também me seduzem. Aliás, em relação a estas últimas, encontro muitas similitudes com a cozinha mexicana, pois pese embora os ingredientes sejam diferentes, os elementos são os mesmos: a tortilha, o guisado, o arroz e o molho. A gastronomia peruana, brasileira e colombiana também são bastante ricas!

Se algum dos nos nossos leitores quiser provar um dos seus pratos, qual seria a melhor forma de chegar até si?

Podem contactar-me directamente através do meu número de telemóvel (963045638), das redes sociais (https://www.facebook.com/martha.lotfe) ou por email (martha.cocina.mexicana@gmail.com). Atualmente, estou a ultimar a minha webpage que estará disponível brevemente.

As colaborações entre a Casa da América Latina e a Martha têm sido uma constante e sinónimo de sucesso. O que espera encontrar de diferente no Mercado da América Latina?

Colaborar com a Casa da América Latina tem sido sempre uma grande experiência. Aproveito para agradecer pessoalmente o apoio prestado no Fuerza Mexico!, evento no qual eu e a Adriana Núnez estivemos à frente, com o intuito de recolher fundos para ajudar as vítimas do terramoto na Cidade do México em setembro passado.

No que respeita ao Mercado da América Latina, espero mais difusão, essencialmente. Espero ver elementos culturais – desde a gastronomia ao artesanato, passando pela música e pela dança – não só do México mas de todos os países da América Latina. Acredito que vá reunir muita gente, não só os latino-americanos como também os portugueses que, como já disse, sinto que estão muito interessados em conhecer mais da América Latina. É um encontro, uma grande iniciativa, tanto para os que participam, como para os visitantes.

Recentemente, teve uma pequena participação na telenovela A Herdeira, ao lado de atores como a Alexandra Lencastre e o Pedro Lima. A cozinha e a representação podem vir a andar de mãos dadas?

Não creio, foi só uma experiência. Contactaram-me via Facebook, perguntaram-se se estaria interessada em participar e disse-lhes que sim. Após o casting, que correu muito bem, fui escolhida para aquele papel e acabei por divertir-me imenso. Era um ambiente muito festivo e relaxado e ainda bem, porque sou muito tímida diante das câmaras. Mas tudo pode acontecer…