Patrícia Lopes toca os poemas de Fernando Pessoa para expressar o “ feminino que existe em todos nós”

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Patrícia Lopes é uma pianista e compositora brasileira. Iniciou os estudos em piano em Londres – cidade onde nasceu. Entre as suas mais recentes composições contam-se “O Feminino em Pessoa”, que apresentou na Casa da América Latina a 4 de novembro. Entre a música erudita e a popular brasileira, Patrícia Lopes compõe sobre os poemas pessoanos, e a sua faceta “feminina”.

A Patrícia começou muito cedo a tocar piano. Aos seis anos de idade…

Eu lembro-me do dia da minha primeira aula de música. Quando cheguei a casa desenhei logo o pentagrama, com a clave de Sol, como se se tivesse dado um reencontro com um instrumento, com o piano. E desde então que não tive nenhuma dúvida de que queria seguir a carreira de pianista. A música sempre foi um lugar seguro, como uma meditação. É um refúgio, uma viagem introspetiva. Acredito neste “olhar para dentro” introspetivo. Acredito que é característico dos artistas, e é também o que retiro do que eu já li de Fernando Pessoa.

Eu nasci na Inglaterra, apesar de ser filha de brasileiros, e comecei com a música erudita clássica. O meu pai levava-me todas as semanas a ver os concertos da filarmónica de Londres e era maravilhoso. Na minha adolescência comecei a estudar e a tocar música popular. A minha prática profissional acabou por se centrar na área da música popular, apesar de a minha formação académica ser erudita – acaba por ser uma mistura das duas coisas. E eu tenho muita influência da minha raiz brasileira. Tenho como mestres Tom Jobim, Milton Nascimento, Ivan Lins – que foi o que eu vivi na minha infância, na década de 70 e que eu considero muito rica na Música Popular Brasileira (MPB). Como morámos muito tempo no exterior, o meu pai, com a intenção que tanto eu como a minha irmã resgatássemos as raízes brasileiras, mostrava-nos muita desta música, que acabou por ser muito bom. Foi onde eu firmei as minhas raízes.

Este disco também revela essas influências?

Este disco, na verdade, faz parte dessa “viagem para dentro” de que falava – aqui dentro, essas influências estão sempre presentes. Tem muita coisa ligada à MPB, apesar de a instrumentação ser violoncelo, viola, arca, viola, clarone, clarinete, saxofone, contrabaixo, flauta… [aponta para o folheto do disco] Como se pode ver, muitos músicos.

Muita gente envolvida neste projeto, algumas dessas pessoas provavelmente foi conhecendo ao longo do seu percurso…

Exatamente, muitos deles são amigos.

Como surgiu a ideia de criar em torno de Fernando Pessoa?

Eu fiz o mestrado em Composição Musical no Rio de Janeiro e a professora Mariza Resende, na época sugeriu que eu escrevesse também para voz (canções), porque eu tenho muita música experimental. Ela disse-me para eu escolher um poeta – nessa altura li alguns poetas e apaixonei-me por Fernando Pessoa – e foi daí que surgiu a ideia, em 1998 ou 1999. Escrevi três canções nessa altura, que fazem parte do disco, e depois retomei o projeto em 2015, e escrevi as 14 canções.

E foi agora gravado em 2017…

Exatamente. A ideia do “feminino” é recente. Escolhi poemas em que Pessoa fala “dela” e também outros textos em que ele não usa necessariamente essa referência, mas nos quais existe uma figura feminina presente, a partir da minha interpretação pessoal – do que eu julgo ser feminino. E quando falo do feminino, não falo só da mulher, mas sim do feminino que existe em todos nós, e inclusive nos homens.

E esse aspeto também se pode encontrar na heteronímia, no poder ser várias coisas…

É isso, exatamente.

As composições são inspiradas na obra de Fernando Pessoa – mas de que forma é que aqueles que assistem ao espetáculo “ouvem” essa influência?

Essa combinação do texto com a música é um processo muito intuitivo. Acredito que o som influencia muito a parte emotiva. Não sei explicar racionalmente o que é, no sentido de ser mesmo um processo emocional. Eu atualmente sinto-me muito livre para me poder expressar artisticamente, e me libertar dessa bagagem da academia e do estudo. O texto ajuda muito porque me sugere um caminho.

E essa liberdade chega facilmente, ou é difícil o afastamento da vertente mais académica?

Eu acho que isso é um exercício, uma prática, é à medida que vou tentando, vai ficando mais fácil. Quando me sento no piano é como se abrisse uma torneirinha, e o processo criativo vem, e está muito solto. É um treino. Chega-se ao processo criativo pela prática. Em épocas em que preciso de escrever mais e nas quais imponho um prazo, no exercício disso, as coisas tornam-se mais soltas. Tenho essa liberdade e agilidade.

Não é a primeira vez que vem a Portugal…

Não. Já vim três vezes. É a primeira em que venho tocar, mas já estive cá. Por exemplo, da última vez, vim a um congresso realizado na Casa da Música, falar de um texto meu, do mestrado, sobre Improvisação.

Afinal também se pode falar muito sobre improvisação, não é só emotivo…

[risos] É verdade, sim.

Quais são as reações de quem vai assistir a este concerto na Casa da América Latina?

O que eu vejo é que, normalmente, quem vem ver este concerto fica muito emocionado. E o que me agrada é ter essa resposta do público, ver que as pessoas ficam tocadas – esse é o melhor retorno que posso ter.

E tocar em Portugal, sobre um escritor português, tem certamente um impacto ainda maior…

Exatamente. Estou também a ter um grande apoio da Casa Fernando Pessoa nesse sentido. Tocar sobre um escritor português tem para mim um valor emocional acrescido, porque eu sou neta de portugueses. Traz-me uma memória muito afetiva dos meus avós, para além de todo o valor intelectual e académico que este autor engloba. Para mim é ainda mais especial por esse motivo.