Rafael Courtoisie: “A poesia não deve ser um ornamento, mas sim parte integral da educação do ser humano”

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O poeta uruguaio Rafael Courtoisie foi um dos convidados da Semana da Poesia Ibero-americana, organizada pela Casa da América Latina no âmbito da Capital Ibero-americana da Cultura 2017. No início do mês de março tinha já participado na Semana do Uruguai em Portugal, dando uma conferência sobre os cruzamentos entre a poesia portuguesa e uruguaia do século XX na sua abordagem às vanguardas.

Rafael Courtoisie é poeta, narrador e ensaísta, membro da Academia Nacional de Letras e membro correspondente da Real Academia Espanhola. Foi professor de Literatura Ibero-americana e de Teoria Literária, tendo sido também professor convidado nos Estados Unidos, Inglaterra e Colômbia. É autor de numerosos trabalhos críticos e de investigação sobre a literatura latino-americana e europeia.

A sua base académica é em Química, não tendo nunca exercido, e foi também professor de Matemática. Considera que estas áreas têm reflexo na sua poesia?

A minha formação inicial foi em Matemática e Física e Química, em particular em Engenharia Química, e lecionei Matemática durante muito tempo. Depois nasceu o interesse pela Literatura e por outro tipo de estudos, mas sempre de olhos postos na linguagem imaginativa. A Matemática, como dizia o “nosso” Ernesto Sabato (pintor argentino com o qual me correspondi na adolescência), está muito próxima da poesia, não apenas devido à precisão de cada signo, mas também à simetria, ao conteúdo estético. Acredito que a poesia é uma ciência como a Matemática, um património comum, um modo de trabalhar a língua no qual existe uma prossecução, uma busca do conhecimento e da verdade.

É isso que sente quando escreve? Ou seja: existe uma inspiração movida pela busca do conhecimento?

Penso que, mais do que uma inspiração, há uma palavra de origem latina que se usa em várias línguas que é: epistemophilia. A philia (gosto/ busca) pelo saber. Há mais do que uma criação, existe o ímpeto por conhecer. Todo o conhecimento é de origem poético-metafórica, incluindo o conhecimento científico. Acho que, quando alguém se sente inspirado, sente que a língua (seja ela o português, o francês ou o espanhol) está a atuar através de si, busca os seus limites de conhecimento. Isto não ocorre todos os dias nem de uma forma completamente voluntária, e não se dá sob o signo do racionalismo da modernidade do século XXI. Ocorre quando alguém o busca por meio da beleza. Eu prefiro pensar que esta busca pela verdade e pelo saber é o que põe os poetas num estado de transe, e não a inspiração no sentido de transcendência do humano. O poeta trabalha numa zona consciente e numa zona inconsciente, dentro do património coletivo que é a língua.

No caso do jornalismo, que também exerce, trata-se de uma procura por um outro tipo de verdade?

O jornalismo é diferente porque se trabalha com uma intenção única e imediata. Quando alguém faz jornalismo não segue as regras da poesia, da narrativa ou do ensaio, mas segue o objetivo de comunicar imediatamente através de um jornal ou ecrã, ou da leitura instantânea na Internet (nesse sentido, muitíssimo mais ágil). Há uma maior velocidade na comunicação jornalística. Ainda assim, se o jornalismo e a comunicação jornalística fossem feitos de maneira adequada teriam de ter o mesmo rigor que se reserva à composição de um ensaio ou poema.

Como começou a escrever poesia? Que autores tiveram um papel importante nesse início?

Eu interessei-me pela poesia devido à sua parte sonora, a herança espanhola, o renascimento, os sonetos de Petrarca, de Dante, Shakespeare… No entanto, a minha iniciação teve mais a ver com a ficção no sentido narrativo. Com 10, 11 anos comecei a ler os livros de aventura de Júlio Verne, Emílio Salgari, enfim, uma série de autores que havia herdado do meu pai. Quando comecei a ler romances um pouco maiores, Vinte Mil Léguas Submarinas, por exemplo, senti que havia uma realidade que expandia a minha experiência como ser humano. Senti que estava no submarino Nautilus, que lutávamos contra uma lula gigante, que estava nas profundezas, ao lado de um capitão que era um pouco louco, e todas essas possibilidades da ficção narrativa deram-me conta de que existe um sentido poético em criar um mundo do nada. Não se pode ler Crime e Castigo (li-o um pouco depois, aos 13 ou 14 anos) sem saber o que sentiu um assassino. Ao ler Madame Bovary de Flaubert qualquer pessoa pode sentir o que sentiram algumas mulheres no passado. Essa experiência de enriquecimento do humano na narrativa ligou-me imediatamente à poesia, porque esta última representa uma experiência de essencialidade, tem um sentido mais concentrado, é uma leitura mais despojada do quotidiano e leva-nos a algo muito interior. A palavra poesia vem de poēsis, e esta etimologia grega significa o “criar a partir do nada” – acredito que a literatura abre esta possibilidade em todos os géneros, no ensaio, na narrativa, mas em especial na poesia.

Com que idade enveredou então pela escrita poética?

Comecei a escrever poesia aos 12 ou 13 anos, e, como todos os adolescentes, tinha uma grande fome de comunicação e conhecimento, mas também de conquista. Não somente no sentido de conquistar uma colega ou surpreender os amigos, mas também para comunicar coisas que na língua comum, na linguagem quotidiana, não se comunica. Soube que através da poesia poderia chegar a uma pessoa em três ou quatro linhas, numa precisão que é quase impossível alcançar na linguagem quotidiana.

É uma época comum a vários escritores e poetas para começar a escrever. Acha que existe uma razão para tal?

Há uma necessidade que tem a ver com a inquietude de descobrir o mundo. Quando temos 12, 13 anos é difícil sair da casa, entrar num navio ou avião. Por oposição, é muito fácil ir à biblioteca e pegar num livro e conhecer, viajar, expandir-se e ter a sensação de uma aventura real. Na adolescência e na primeira juventude, a poesia, e a literatura em geral, rodeiam-nos de vivências que têm, inclusivamente, um efeito orgânico. Ler um poema de Edgar Allan Poe é ter uma descarga de adrenalina, medo e terror, ler um poema de Jorge Luis Borges é sentir que em duas linhas se disse uma verdade intransferível. Borges tem um poema chamado Arrependimento de Heráclito que diz: “eu que tantos homens fui, não fui nunca/ aquele em cujos braços desfalecia Matilde Urbach”. É um poema brevíssimo, e não se sabe quem é Matilde Urbach, mas que adolescente não sentiu já em algum momento esta impossibilidade de ser muitos e, porém, não ser aquele objeto de desejo? Parece-me que, no século XXI, a poesia não deve ser um ornamento, mas sim uma parte integral da educação do ser humano.

Nota-se que os jovens se afastam da poesia. Uma hipótese pode ser ela não estar hoje associada a movimentos de vanguarda ou a uma quebra ideológica que marcou correntes como o Modernismo. Qual é o papel da poesia nos nossos tempos e como pode cativar mais os jovens?

O século XX foi o século das vanguardas, e estas marcaram uma época não só no que toca à literatura mas também aos aspetos que regimentam a vida humana na sua totalidade. Quando refletimos uma vanguarda como o Futurismo, o Surrealismo, o Dadaísmo ou o Ultraísmo, vemos que são fatores vitais não só na literatura, na pintura ou no cinema, mas na forma como se encara a vida na sua totalidade. Nos finais do século XX, creio que a partir da década de 80 até 2000, existiu uma enorme abertura. A rigidez da vanguarda e a necessidade de ter uma verdade absoluta, total e totalitária, através da escrita, não continuou, iniciando-se um panorama de ecletismo, de heterodoxia.

No século XXI não existe uma figuração das vanguardas como protagonistas, como verdade estética vital, mas existe uma funcionalidade da criação poética nos seus idiomas amplos da criação literária, e, nessa medida, de amplificar e humanizar a relação do Homem com o que o rodeia. Vivemos num século de meios massivos de comunicação, no terceiro milénio da hiper-conectividade e da ligação ininterrupta. Mas esta hiper-conexão não significa necessariamente uma hiper-comunicação. O grande desafio da leitura e da criação poética e literária é gerar uma comunicação a nível profundo. Estou de acordo com Zygmunt Bauman quando falava da modernidade líquida e aplicava este adjetivo ao amor, para explicar que vivemos um amor instável, líquido, tal como as relações profissionais o são.

A rigidez de outros tempos foi perdida, mas, dentro desta ausência, existe a possibilidade de nos descobrirmos no plano humano através da criação literária. Não importa o meio. Pode ser um e-book, pode ser um ecrã de computador, a Internet ou um livro tradicional (porque os livros são também máquinas da realidade virtual, tal como eram há dois ou três mil anos). Este é o século da enorme liberdade criativa. Já não há uma vanguarda, mas sim uma espécie de ética, que assegura que cada autor se encontra a si mesmo no seu contexto. Existe uma necessidade de cada criador se afastar da estética de superfície, esta espécie de mundo líquido, para se aprofundar a si mesmo, ao que o rodeia, e a isto que nos tocou viver que é a aldeia global de McLuhan.

Explicou, na conferência que deu na Casa da América Latina, as proximidades que existem entre Portugal e Uruguai no que respeita à abordagem às vanguardas do século XX. Ou seja, a re-significação feita pelos poetas às influências externas que lhes chegavam – pode explicar esta posição?

No século XX houve uma série de vanguardas de origem europeia que tomaram o pódio dos manifestos como uma verdade absoluta e revelada, quase ortodoxa, em que quem não compartilhasse da mesma posição era identificado como herege – um pervertido. A América Latina no geral, e alguns países da Europa, retiraram algo das vanguarda, mas com uma distância onde entra o lúdico, o “jogo”, o humor e um ponto de vista heterodoxo. No Uruguai em particular, o Futurismo foi recebido como algo feio, absoluto na tecnologia imediata, extremamente passageiro (porque o que hoje é moderno e imediato, o último artefacto dispositivo, vai deixar de o ser em dois meses), portanto, com muito humor. Foram acatados os rasgos de velocidade da vanguarda, o conceito do Homem que vive a civilização da máquina, no entanto, com ironia. Creio que isto aconteceu também em Portugal. Se olharmos com atenção para alguns dos heterónimos de Pessoa, damo-nos conta que existe um Futurismo, mas numa distância e heterodoxia que dá a possibilidade a que haja outro heterónimo que não seja futurista. Neste sentido, acredito que existe uma união entre países.

A América Latina introduziu algo fundamental às vanguardas – o humor. Para que o que se faz não surja como verdade revelada, mas sim como exercício de uma criação espontânea e real do ser humano e das suas circunstâncias. Tivemos vanguardas específicas, como o Criacionismo de Vicente Huidobro (poeta chileno, primeiro candidato ao prémio Nobel, acabando por não o obter), que deu lugar, no Chile, a uma grande poesia. É uma vanguarda que introduz a variável de liberdade num sentido muito menos ortodoxo que o Surrealismo e ou o Ultraísmo. Houve uma vanguarda na Colômbia, uma das últimas latino-americanas, que se chama o Nadaísmo, que nada tem a ver com o Dadaísmo, mas sim com o “nada”, no sentido que não há vanguarda, não há manifesto – cada um deve saber entender o que sente no momento: se o que sente tem a ver com uma anti-solenidade/ a rutura com as formas, “bem-vindo sejas”; se o que quer é trabalhar as formas, também. Acho que este ponto de vista humorístico das vanguardas, no sentido do “jogo”, é mais livre do que algumas manifestações europeias.

Na América Latina do século XXI existe uma manifestação massiva da poesia. Não se vendem milhões de livros de poesia, vendem-se milhares, mas existem diversos festivais de poesia, lê-se poesia, cria-se poesia na blogosfera. Creio que isto tem a ver com um olhar mais amplo e livre relativo às vanguardas. No Uruguai, em particular, estamos a viver um momento de heterodoxias, de convivência saudável entre distintas correntes, uma luta em que não existe a intenção de tomar o poder cultural. Nos termos de Pierre Bourdieu, existem lutas pelo poder simbólico através da literatura e da criação, no entanto, creio que existe uma amplitude para que não se confundam certas decisões estilísticas e trabalho livre no âmbito da criação, com tomadas de poder simbólico.

Que poetas uruguaios e da América Latina destaca e tem acompanhado?

Posso falar do Uruguai, mas a América Latina, sem eufemismos, é também um grande país com muitas diversidades. Quando se vai desde o Uruguai ao México, encontramos um novo lugar, mas também se mantém uma mesma identidade que não é estabelecida somente pelo idioma espanhol. Quando um português vai ao Brasil não sente necessariamente que faz parte da sua identidade latino-americana. Quando vamos ao México e ouvimos falar zapoteco sentimos uma comunidade de espírito, e isto faz da América Latina um grande país. Nesse sentido, teria de referir César Valleja, peruano, que renovou a língua espanhola de forma radical e que transcendeu essa mesma renovação; Neruda é inevitável, por ser um outro polo: onde Valleja semeia a essencialidade, Neruda semeia uma espécie de expansão – são como duas peças diferentes que criam um equilíbrio poético. Estas são referências fundamentais que se mantêm neste século XXI.

Mais recentemente, temos o argentino Juan Gelman, que admiro muito. Existem ainda mulheres poetas que durante o século XX me parecem insuperáveis – a chilena Gabriela Mistral (o primeiro Nobel latino-americano para uma mulher), uma poeta completíssima, com muitos estratos, capas; Joana de Ibarbourou (Uruguai); e poetas como Ida Vitale, Amanda Berenguer, Idea Vilariño (que foi uma poeta do amor e do desamor, muito apaixonada e muito niilista), Marosa di Giorgio, e Mario Benedetti também (apesar de a sua popularidade não convencer alguns intelectuais europeus e americanos. Com ele podemos aprender a enorme lição da comunicação. Benedetti foi um poeta e escritor que comunicou a muitos de forma imediata. É uma referência que não se pode desdenhar. Para que exista um Paul Celan, ou para chegar às zonas mais difíceis de Pessoa, tem de se passar por Mario Benedetti). O mesmo se passa com Juan Gelman. Poderia seguir enumerando, mas refiro apenas uma outra poeta peruana chamada Blanca Varela.

E a nível pessoal, e da sua obra, que influências teve?

Eu tenho um avô literário: Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont), que é um poeta uruguaio nascido em França, e viveu no final do século XIX, em plena Guerra Civil no Uruguai. Escreveu em francês, mas, como dizia o próprio Pablo Neruda, era evidentemente latino-americano. Nós, que escrevemos no século XXI, temos este avô no sentido literário, referência de uma enorme liberdade na poesia e prosa, de abordar temas que vão desde a estética mais tradicional até ao Feísmo, até aos objetos obscuros, zonas subconscientes, turbulentas.

Estando em Portugal, tenho de enumerar também Pessoa. Ele demonstrou que o “eu” se fragmenta em dezenas de pedaços que se expressam numa estética da individualidade criativa, na sua unicidade. O escritor é um conjunto múltiplo. Pessoa foi citado pelo crítico norte-americano Harold Bloom no Cânone Ocidental como o poeta mais relevante do século XX, junto com Neruda. Penso que ele não se engana. Pessoa é insuperável, na medida em que deu uma enorme liberdade a esta fragmentação da pulsão criativa que em nós existe.

Num outro sentido, destaco o poeta Paul Celan, que escreve em alemão, e mostra outra cara do século XX e XXI – o silenciamento – a redução da palavra à sua máxima possibilidade e à sua mínima expressão. Podemos dizer que é um silenciamento expressivo. Junto a correntes barrocas e expansivas, esta é a ideia essencial – o silenciamento num presente em que há tantas palavras.

É responsável por traduções de Emily Dickinson, Sylvia Plath, Mario Luti e Valerio Magrelli. Existe uma identificação especial com estes escritores?

Sim, sem dúvida. Sylvia Plath é uma autora drástica, mas absolutamente contemporânea. O seu olhar e o seu modo de fazer poesia vai muito além da sua função sensível, romântica, é uma poesia em carne viva, dolorosa, onde a dor está, porém, expressa na sua esteticidade. Por outro lado, Emily Dickinson, que sempre se diz ser a grande mãe da poesia norte-americana, e eu creio ser, em grande parte, mãe da poesia ocidental, é uma referência por ter visto nela o mistério. De cada vez que me deparo com um poema dela em inglês, para o traduzir para o espanhol ou português, francês, encontro o desafio de fazer nascer novamente um mistério, que vai surgir para nos desafiar de um outro modo, através de um novo enigma.

Já que estamos a falar de mulheres, Wislawa Szymborska, que é polaca, parece-me uma outra referência importantíssima. Uma mulher que gera este desafio à tradução. A leitura de Szymborska iluminou-me de um mesmo modo que o russo Joseph Brodsky, que é muito diferente, existindo, porém, uma continuidade entre ambos.

Falou já da grande proliferação da poesia no feminino no Uruguai. Acha que existe alguma razão para que esse fenómeno se tenha dado? Talvez uma razão política?

Em toda a América Latina houve grandes e importantes poetas, porém, no Uruguai, a grande proliferação e legitimação de discursos femininos poéticos tem a ver com este ter sido o primeiro país da América em que se consagrou o divórcio por exclusiva vontade voluntária da mulher e de modo muito apaziguado. Foi um dos primeiros países latino-americanos em que se consagrou o voto feminino, e, nesse sentido, existe uma série de elementos de âmbito social (político também, mas de forma secundária), que dão à mulher a possibilidade de usar da palavra. Michel Foucault dizia que não há poder fora do discurso, ou seja, a formulação do discurso equivale à construção do poder. Criaram-se condições no pequeno país do Uruguai (que está num continente muito machista) para que a mulher, muito naturalmente, começasse, a partir do século XX, a adquirir muitos direitos – e aí começou também a sua capacidade de se legitimar na literatura, fundamentalmente dentro do género lírico.

Outra razão pode ter a ver com o Uruguai ser um país laico, onde existe uma demarcada separação da igreja e do Estado. Se o compararmos a outros países da América Latina, estes tardaram 20 ou 30 anos, no século XX, a fazer esta separação. Estas condições permitiram à mulher se apoderar da palavra no discurso criativo. Existiram mulheres criadoras em toda a América Latina, mas sem as condições necessárias para se legitimar. Se pensarmos no México colonial, temos Juana Inés de la Cruz, uma intelectual extraordinária que teve de se fazer monge para se tornar livre (e que mesmo assim lutou muito para desenvolver uma aura poética). Não podemos cair no erro, no entanto, de em defesa da literatura feminina, segregar. Na realidade, a poesia é só uma.

Foi professor de Narrativa e Guião Cinematográfico na Universidade Católica do Uruguai e na Escola de Cinema do Uruguai. O Cinema tem influência na criação literária?

Sem dúvida que o visual tem uma influência importantíssima na minha obra, tanto poética como narrativa. O cinematográfico é algo de que somos “filhos”. Eu nasci no século XX, sou da cultura da imagem. Nasci com a televisão, no sentido que os meios visuais de comunicação são referências (e não apenas o tipográfico). A ficção de tipo audiovisual foi uma parte integral da minha formação, e isso influenciou-me muito na narrativa e, em parte, na poesia. Não só porque trabalho a poesia visual, mas porque existe um desafio ao criador através da palavra, enquanto se está imerso numa cultura audiovisual – o desafio de dizer o que só se pode dizer com a palavra, algo inerente a ela, ao mesmo tempo que se sente limitado pelo icónico. A minha narrativa está muito influenciada pelo cinema e a minha poesia está marcada pelo impacto de certos elementos visuais. Jackson Pollock, por exemplo, artista norte-americano vibracionista, teve grande impacto na minha poesia, com o seu modo de trabalhar a linha e a cor, e, num sentido muito distinto, o catalão Antoni Tàpies.

Já ganhou vários prémios de poesia (Prémio Fundación Loewe de Poesia, Prémio Plural, Prémio de Poesia do Ministério da Cultura, Prémio Internacional Jaime Sabines), está traduzido em seis línguas (francês, inglês, uzbeque, bósnio, português e turco), o que vê como um desafio para o futuro?

O desafio é começar de novo todos os dias. Respeito quem acredita ter construído uma carreira literária como se fosse uma pista de obstáculos até chegar à meta. Na arte sabemos a nossa trajetória e o que temos vindo a trabalhar mantém sempre o desafio de o fazer de outro modo, de alterar algo para dizer a mensagem de uma nova forma. O meu desafio é continuar a escrever poesia, núcleo central da minha obra. Mas tenho feito poesia sempre em termos tipográficos, e quero abordar agora uma narrativa que abarque o poético e o introspetivo (acredito que existe lugar para uma zona de ficção onde confluam os dois géneros).

O ano passado publiquei no Uruguai o romance La Novela del Cuerpo, em que o protagonista é o corpo humano, com os seus órgãos – é qualquer um de nós, desde que tenha um corpo, e também aqueles que já morreram e qualquer um dos que vão nascer. Esta novela tinha a intenção de funcionar como narrativa, mas também com a abordagem poética que busca explorar a realidade de viver no nosso próprio corpo. Tem muito humor e, inclusive, um mercado do corpo que vende órgãos produzidos em impressoras 3D e aos quais qualquer um pode ir e encomendar um pâncreas, por exemplo. Esta aparente ficção e humor espelha uma realidade que já está a acontecer hoje em dia. Começaram a enviar-me cartas e emails a dizer que a minha ficção já estava a ser feita. Falar do corpo é também falar do que é o ser humano. Somos um corpo e alma juntos. Ao abordar isso de um ponto narrativo, tenho de recorrer à poesia para falar da boca, dos olhos… Tudo isto é revisitado num novo género que permite trabalhar, inclusive, o teatral. Este é um dos projetos que me tem ocupado agora.

Mas mantenho a publicação de poesia. Acabo de publicar no México o Diário de un Clavo, e aqui falamos de uma espécie de diário onde está personificado o cravo, desde aquele que sustentava as mãos de Cristo na cruz até ao que usamos na parede. É um olhar sobre o seu aspeto fálico, material oxidante, que também se dobra, é débil, e não significa nada sem a parede que o sustém. O livro busca a resignificação do masculino e do feminino. Essa ideia de trabalhar o quotidiano, redefinindo-o usando o humor, foi outro dos projetos que, este ano, tive possibilidade de concretizar.