“Lisboa com Afeto”: Entrevista com a escritora Izabel Mendonça

Etiquetas: , ,
___________________________________________________________________________________

Lançamento
Dia: 3 de março
Hora: 18h30
Local: Casa da América Latina
Editora: Pedregulho

O romance “Lisboa com Afeto” é o livro de estreia da escritora brasileira Izabel Mendonça. Nele a jornalista relata o seu quotidiano através das palavras de Gabriela, a personagem imigrante em Portugal. O livro tem por base o blogue pessoal da autora e a sua experiência de vida em Lisboa, as oportunidades, os desgostos e as alegrias.

O que a impulsionou a começar a escrever o blog que deu origem a este livro?

Sempre tive vontade de escrever um livro. Enquanto profissional da comunicação – e já lá vão quase 17 anos, sempre trabalhei na editoria de Política. Eu tinha uma coluna numa revista brasileira, a Revista Sim, onde, além de dar opiniões sobre os temas relacionados à área, entrevistava políticos e pessoas do meio.

Nas eleições para presidente em 2010 eu estava em Portugal, e resolvi ir ver de perto como ocorriam as eleições aqui. Lá conversei com o então Embaixador Renan Paes Leite, e também entrevistei duas brasileiras que tinham acabado de votar. Foi um momento marcante para mim. Já em minha casa, passei para o blogue o que havia percebido das eleições e ilustrei com fotos dos meus entrevistados. Foi quando me deu um “start”, e resolvi criar o Lisbon Click, que era um outro blogue, direcionado a tratar dos assuntos do meu dia a dia em Lisboa. Quando voltei para o Brasil, ao rever os ‘posts’ e lembrar os momentos tão especiais que havia passado aqui, resolvi compilar e transformar no livro “Lisboa com Afeto”.

Gabriela é Izabel? O objetivo foi criar algum distanciamento dos episódios vividos por si?

Exato. O objetivo foi este porque eu não me sentia muito à vontade para relatar alguns episódios na primeira pessoa. Então criei a Gabriela, que tem pontos em comum com a autora. Ela também é jornalista, alegre, extrovertida, gosta da vida, de se arriscar , penso que somos bem parecidas sim… (risos)

A experiência no jornalismo contribuiu ou são processos diferentes?

O jornalismo contribuiu muito, principalmente porque ele é a minha vida, meu “ganha pão”. Tenho um pacto com a profissão, casei-me com ela, e não pretendo me separar tão cedo. É mesmo uma eleição pessoal, um desafio e também uma ilusão. Uma eleição pessoal, porque é preciso amor pela profissão, vocação, paixão, é algo pessoal, que sai de nós mesmos. Um desafio, porque há imensos jornalistas devido à massificação do acesso à informação com os novos meios, porque não há tempo para aprofundar, pela responsabilidade que os jornalistas têm com a sociedade, falamos da vida de pessoas, de feitos que têm de ser demonstrados, porque com a banalização da notícia é necessário humanizarmos a informação. Uma ilusão, porque a vida de jornalista é sempre uma vida diferente, qualquer coisa pode acontecer, porque não existem rotinas e cada trabalho, cada entrevista, cada novo tema surpreende, ensina, ajuda a compreender o mundo em que vivemos, e que infelizmente desconhecemos. O jornalismo me levou a ter certeza de que era uma boa altura para escrever um livro.

Em tempos de crise, os brasileiros procuram muitas vezes Portugal, mas este é também um país em crise, que por sua vez sofre de uma acentuada “fuga de cérebros” neste momento… Vale realmente a pena vir para cá?

Essa é a parte que eu mais gosto de responder, porque eu já fui e voltei três vezes. Penso que vale a pena sim vir para cá, principalmente porque eu vivo bem aqui. Portugal tem mais qualidade de vida do que o Brasil, mais segurança, a mobilidade urbana funciona, ou seja, aqui é muito bom para se viver/morar. Em relação ao financeiro, digo que quando vou ao supermercado aqui, lembro que eu gastava muito mais lá no Brasil do que gasto aqui. Custo de vida é um conceito e, como tal, define-se pela soma dos preços pagos pelos diversos bens e serviços que são consumidos pelas pessoas. E, hoje em dia, isso tudo é bastante relativo porque envolve, também, as crenças e os valores dos “consumidores”. Por exemplo, há quem não se importe em comprar uma roupa usada numa feira de rua, mas existem pessoas que dão valor e só compram roupas com etiquetas de marcas famosas. E pergunto: Portugal está em crise ou a crise está na cabeça das pessoas?

Diz no livro que tem “ciuminho” da sua Lisboa apinhada de turistas. É preciso ter uma proximidade quotidiana para compreender a cidade?

Eu percebi a imensidão do meu querer bem por Lisboa no primeiro momento que desembarquei do avião. Mas a pergunta mais difícil é: como sabemos o dia em que uma cidade chegou até nós? Onde está o carimbo, a impressão, o registo? Como sabemos que ela se tornou tão nossa, seus cheiros, sons, cores e gentes? Eu consegui entender isso, já no primeiro dia. Lisboa para mim é um estado de alma. Tenho ciumes sim, porque fico triste e dececionada quando vejo turistas querendo fazer fotos as pressas, quando vejo portugueses falando mal de sua terra.

Eu acredito que é preciso dar um tempo a esta cidade. (Re)descobri-la, (re)visitar os lugares. Os meus prazeres são simples: gosto de sentar num quiosque saborear o “café cheio”, olhar as pessoas a minha volta, gosto de andar no metro, imaginar o que cada uma dessas pessoas está a pensar, fico encantada com as estações tão bem marcadas, gosto dos cheiros das castanhas, da sardinha assada nas festas da cidade, gosto de olhar a luz de Lisboa, e acho até que Lisboa deveria ser chamada de “cidade Luz” e não Paris. Lisboa é isso tudo junto, é o amor, o Chiado, o vinho verde, o pão alentejano, o bacalhau, Lisboa é culta, cheia de jovens de todas as partes do mundo, é o cigarro aceso. Cada vez que saio para passear em Lisboa, seja de dia ou à noite, mesmo que vá para os sítios onde já conheço, sempre me é uma surpresa agradável, um novo encantamento, porque os dias se renovam e com ele se renova o meu amor por esta cidade que me acolheu tão bem.

Espera que o livro tenha mais impacto quando lido por um “estrangeiro”, por um português, ou algo no intermédio?

Eu gostava de que o livro “Lisboa com Afeto” fosse lido por todos. Não quero um público específico porque o imigrante que ler vai se encaixar na história, vendo as dificuldades e vitórias da personagem. O português por sua vez, vai poder perceber o que sente de facto um imigrante quando vem para “tentar a sorte” aqui em Portugal. Vai ler críticas ao seu comportamento, a sua maneira de ser e de agir, e também vai ler elogios. Vai poder entender como um estrangeiro vê o seu país, sob outra ótica, outro olhar.

O que guarda com mais saudade? Tem intenções de voltar a viver cá?

Eu guardo cada minuto (os bons e os maus). Todos eles me fizeram crescer, me tornaram a pessoa que sou hoje, mais resistente, mais cheia de vida, mais esperançosa. Termino esta entrevista dizendo que: Lisboa me abraça e, dentro de mim, Portugal é puro poema. Desde que vivi aqui a primeira vez, tive os momentos mais felizes e abençoados. Amo Lisboa. Se tenho intenções? Todas elas. Não penso em ir embora daqui tão cedo.