Martha Barros: “Sonhava expor em Portugal”

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A pintora Martha Barros inaugurou no dia 7 de Novembro, na Galeria das Salgadeiras, e inaugura no dia 12 do mesmo mês, na Casa da América Latina,a sua exposição Silêncio e Alvoroço, após cinco anos de pausa. A autora regressa com uma mostra do seu trabalho, estreando-se em Portugal. Assinalando a presença de Martha Barros em Lisboa, a Casa da América Latina falou com a pintora sobre o seu percurso artístico, a sua infância e as suas expectativas para esta primeira exposição em Portugal.

Quando começou a pintar?
Eu não sei dizer a altura, mas sei que sempre gostei de pintar. Assumi a pintura como trabalho já um pouco tarde na minha vida, porque tinha a preocupação de ganhar dinheiro. Eu achava que como artista era difícil sustentar-me e por isso tirei o curso de Biblioteconomia. Mas fui sempre fazendo cursos de desenho e pintura na escola de Belas Artes, por gosto. Assumi a pintura aos 24 anos, já estava casada, quando um dia recebi a visita de um marchand. Ele ficou apaixonado pelo meu trabalho e comprou vários quadros. Foi nessa altura que percebi que podia fazer as duas coisas: fazer o trabalho de que gostava e ainda ser remunerada.

Recorda-se da sua primeira exposição?
Foi pelo Banco ITAÚ em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, aos 27 anos. Enviei vários currículos e fui seleccionada, foi assim que fiz a minha primeira exposição individual.

Qual é que é a sua maior inspiração?
É a natureza. Eu tenho raízes pantaneiras, do lado do meu pai são índios nómadas. Tive uma infância muito marcada pelo Pantanal, a brincar na rua e a subir às árvores. Mais tarde quando me mudei para a cidade ia sempre para lá nas férias. Esta experiência foi de tal forma marcante que quando fui morar para o Rio de Janeiro, e comecei a pintar, percebi que a minha fonte de inspiração vinha da infância e da minha relação com a natureza.

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«Tive uma infância que foi muito forte, muito marcada pela natureza e pela beleza dessa inocência»

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A Martha fala da sua infância com um brilho nos olhos, como é que a descreve? Visto que a sua obra apela um pouco à criança que há dentro de nós.
Para mim o mais importante da infância é a inocência que nós guardamos, é esse o lado bonito. E é esse lado, sem ser de uma forma pensada, que aparece no meu trabalho. Pelo menos é o que dizem as pessoas que o vêem. Quando pintamos não fazemos exactamente o que queremos, há um lado racional, e há também um lado do artista que é intuitivo e flui. As pessoas observam isso no meu trabalho e actualmente já reconheço que tive uma infância que foi muito forte, muito marcada pela natureza e pela beleza dessa inocência.

Qual é a influência do seu pai no seu trabalho?
Fiz várias capas e ilustrações para a sua obra. Quando me apaixonei pela obra do meu pai, não porque fosse meu pai, mas porque me apaixonei mesmo pela obra dele, o editor dele convidou-me para ilustrar o seu primeiro trabalho. O meu pai tinha visto nos meus trabalhos a imagem de um pré-sapo e achou que era o ideal para o seu livro Pré-Coisas. Foi a partir daí que comecei a ilustrar os seus trabalhos: nós temos a mesma fonte de inspiração, era fácil ilustrar os seus poemas.

Como descreve a obra que vai expor em Portugal?
Para mim foi um desafio fazer esta exposição nas Salgadeiras, porque eu nunca tinha trabalhado com um tema, normalmente eu trabalho a cor. A galeria deu-me como tema o silêncio, mas eu sou totalmente alvoroço, daí o título ser o silêncio e o alvoroço. Espero ter conseguido cumprir.

A Martha diz que habitualmente não trabalha com um tema, então qual é o fio condutor que utiliza nas suas exposições?
Através da minha linguagem, sempre me encaixo no tipo de galeria.

Se lhe pedisse para escolher um quadro da exposição Silêncio e Alvoroço qual escolheria?
Algazarra. Porque acho que tem a ver com a minha vida. Algazarra que é no fundo o alvoroço, porque a minha vida é muito movimentada: tenho filhos e tenho netos.

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«Tinha um sonho, que era expor a minha obra em Portugal. O meu sonho está prestes a realizar-se»

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Como surgiu então o nome final da exposição? Já falou que o Silêncio veio das Salgadeiras; e o Alvoroço?
A Galeria propôs-me o tema, e a CAL deixou-me à vontade para fazer o meu trabalho. Por isso propus o alvoroço, pois o meu trabalho é mais colorido e dinâmico. Sinceramente fiquei perplexa em pensar se iria conseguir fazer o silêncio. Entrei no silêncio, estudei o silêncio, fiquei no silêncio, mas uma coisa é entender o silêncio e a outra coisa é transmitir o silêncio e isso não sei, espero que tenha conseguido. Foi um desafio para mim, uma experiência muito importante, muito boa, pois saí do que faço normalmente. Não sei se consegui sair muito de mim, porque só entendemos verdadeiramente o trabalho depois de o expormos. A exposição é exactamente isso, o artista pelo olhar do outro.

É a primeira vez que expõe em Portugal. Quais são as suas expectativas?
Eu estou muito feliz. Esta é a terceira vez que visito Portugal. Na segunda vez que estive em Portugal, falei com a Maria Xavier (Coordenadora da Programação Científica e Cultural da CAL) e disse que tinha um sonho, que era expor a minha obra em Portugal. O meu sonho está prestes a realizar-se. Tudo o que o artista quer é comunicar, passar o seu trabalho, porque é um trabalho muito solitário. Eu trabalho muito sozinha e gosto dessa solidão, mas há um momento em que há necessidade de comunicar com o exterior. É isso que quero, comunicar com o público, quero sentir o que os portugueses pensam.

A Martha esteve cinco anos sem expor as suas obras. Porquê Portugal para o regresso?
Eu tive outros convites, mas estava à espera de um momento melhor. Esta pareceu-me uma boa oportunidade. Para mais a obra do meu pai está editada em Portugal e é bastante conhecida. Então achei que seria muito bom para mim: a obra do meu pai é editada aqui, os portugueses são apaixonados pela obra dele, então eu pensei “porque não?”

Quer deixar algumas palavras aos portugueses para virem ver a sua obra?
Gostaria muito que viessem, ficaria muito feliz em que conhecessem o meu trabalho, vou ter um grande prazer em recebê-los. Este trabalho não foi simples, foi um desafio novo.

Já tem outras exposições agendadas?
(risos) Ah, vamos ver! Eu tenho promessas, mas ainda não quero falar.