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“A América Latina face à doutrina Donroe” foi o tema da quinta edição das Lisbon Talks dedicadas à América Latina, promovida pela Casa da América Latina e pelo Clube de Lisboa, no dia 23 de fevereiro de 2026, em Lisboa. O encontro reuniu académicos e especialistas para analisar os impactos económicos e políticos da reconfiguração geopolítica global e das novas estratégias de poder que marcam a relação entre os Estados Unidos e a América Latina.

Intervieram como oradores Nancy Gomes, professora da Universidade Autónoma de Lisboa, e José Roberto Afonso, investigador associado ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e ao Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, em Brasília e a moderação ficou a cargo de Patricia Villegas, Embaixadora da República Dominicana em Portugal.

O debate ocorreu num momento de transformação estrutural do sistema internacional. Mais do que uma crise económica ou geopolítica pontual, os oradores apontaram para uma mudança de época, em que as dimensões política, diplomática, comercial, produtiva e tecnológica se reorganizam simultaneamente. Cadeias globais de valor estão a ser redefinidas sob critérios de segurança estratégica, alianças são reavaliadas e a geopolítica regressa ao centro das decisões económicas, com a disputa por lideranças tecnológicas a condicionar estratégias nacionais.

Neste processo, o primeiro quarto do século XXI revelou-se decisivo. A ascensão acelerada da China alterou fluxos comerciais e padrões produtivos globais. A procura crescente por recursos naturais transformou a especialização de muitas economias emergentes e ampliou a presença chinesa em setores estratégicos. Paralelamente, o avanço tecnológico do país em áreas como telecomunicações, energia limpa, baterias e inteligência artificial aproximou-o da fronteira da inovação, colocou em causa a hegemonia económica e tecnológica dos Estados Unidos, consolidada ao longo do século XX.

É neste contexto que se deve interpretar a chamada “doutrina Donroe”, que de doutrina pouco tem, assim designada pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Muito diferente da histórica Doutrina Monroe, anunciada em 1823 pelo presidente James Monroe, num período de expansão do poder norte-americano, quando os britânicos eram a potência dominante, esta nova abordagem surge num cenário de disputa da liderança global dos Estados Unidos. A estratégia procura reafirmar a primazia norte-americana através de instrumentos, como taxas aduaneiras, sanções financeiras, restrições tecnológicas e pressão diplomática e militar. Neste quadro, a América Latina volta a assumir um papel estratégico na política externa de Washington. Contudo, a região apresenta uma realidade diversa. Países como o México mantêm forte integração nas cadeias produtivas norte-americanas, enquanto economias como o Brasil, o Chile e o Peru têm reforçado a sua ligação comercial à China, sobretudo através da exportação de matérias-primas minerais, energéticas e agrícolas. A coexistência dessas dependências cria uma gestão complexa para os países que mantêm vínculos financeiros com os Estados Unidos, enquanto aprofundam relações de investimento e financiamento com Pequim, particularmente em projetos de infraestruturas.

Os oradores alertaram para o facto de um cenário de rivalidade sistémica entre grandes potências, poder transformar a região num palco de disputas indiretas. A pressão por alinhamentos geopolíticos tende a reduzir a autonomia estratégica dos países latino-americanos, enquanto reforça padrões de especialização económica, baseados em exportações de baixo valor acrescentado. No plano tecnológico, alertaram ainda para a forte dependência dos países latino-americanos de infraestruturas digitais e plataformas desenvolvidas nos Estados Unidos, o que levanta desafios regulatórios em áreas como a proteção de dados, concorrência, tributação e segurança cibernética. Esta assimetria pode ampliar a influência externa sobre fluxos de informação e sobre o próprio funcionamento das democracias.

Contudo, e apesar dos riscos, as dinâmicas de reorganização da economia mundial oferecem oportunidades para a América Latina. A crescente procura por esses recursos cria potencial de negociação com potências tecnológicas como os Estados Unidos e a China, podendo reduzir vulnerabilidades. A região detém recursos minerais essenciais para a transição energética e digital, não só terras raras, mas também lítio e cobre (respetivamente 60% e 40% da produção mundial). O mesmo acontece com África, onde também existem reservas substanciais de minerais críticos. A cooperação entre ambas as regiões, América Latina e África, criaria um enorme potencial de negociação, com potências tecnológicas como os Estados Unidos e a China.

Mas o desafio também está em transformar essas riquezas naturais em capacidades produtivas e tecnológicas, investindo em processamento local, inovação e qualificação de capital humano. Em contextos de competição global, a América Latina pode usar a rivalidade entre potências como instrumento de diversificação e fortalecimento estratégico, convertendo a atual crise geopolítica em oportunidades de desenvolvimento sustentável. O investimento em capacidades locais poderia surgir também como “alternativa laboral” à que oferece o narcotráfico. Tal deveria traduzir-se no aumento de ações coordenadas entre os países da região e a União Europeia, diminuindo, assim, a dependência do “vizinho norte-americano”.

Historicamente, a integração regional tem sido difícil. No final do século XX, a Organização de Estados Ibero-Americanos chegou a propor a criação de uma união aduaneira entre países latino-americanos, mas a falta de consenso e preocupações de soberania, impediram a sua concretização. Hoje, uma união da América Latina, integrando o Canadá, poderia ser a verdadeira oportunidade da região para enfrentar as incertezas globais e transformar recursos estratégicos, em desenvolvimento duradouro.

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Publicado: Março, 2026.