Skip to main content

O Foro La Toja regressou a Lisboa no passado dia 29 de abril, reunindo líderes políticos e especialistas internacionais na Fundação Calouste Gulbenkian para discutir os grandes desafios geopolíticos e económicos do espaço atlântico. Sob o tema central das relações entre os dois lados do Atlântico e o futuro da Europa, o encontro destacou a importância de reforçar alianças estratégicas num contexto global marcado pela competição entre blocos económicos e políticos.

Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, abriu o Foro La Toja explicando o porquê de Portugal continuar ao lado dos Estados Unidos da América, numa relação “perene”, em contraste com dois oradores que se seguiram, ambos responsáveis, no passado, pela mesma pasta governamental, Paulo Portas e Augusto Santos Silva. O primeiro assumiu não confiar nos EUA para defender a Europa, e equiparou o Presidente Donald Trump ao Presidente Putin; o segundo pediu “uma reação mais dura” às ações norte-americanas, e manifestou a sua falta de confiança em Mark Rutte, secretário-geral da NATO. O Ministro dos Negócios Estrangeiros português, acrescentou que o vínculo atlântico não se deve limitar aos EUA e que é preciso olhar para a América Central e do Sul, para o Sahel e a para a costa africana. “A Europa não deve olhar para África apenas com as lentes do Mediterrâneo”, disse, lembrando que a costa atlântica africana “são os nossos vizinhos do andar de baixo”.

Embora o programa não tenha dedicado um painel exclusivo à América Latina, o conceito de “novo vínculo atlântico” esteve presente em várias intervenções, abrangendo implicitamente o espaço ibero-americano. Nesse enquadramento, a América Latina foi referida como parte relevante das relações históricas e culturais entre Europa e o continente americano.

Também o Mercosul surgiu associado a discussões sobre comércio internacional e à necessidade de a União Europeia diversificar parcerias económicas. O eventual reforço do acordo UE–Mercosul foi apontado como um dos dossiês estratégicos em análise no contexto mais amplo da autonomia económica europeia e salientado pelo Presidente da República de Portugal, António José Seguro que reflete sobre “uma América Latina que oscila entre a tentação do isolamento e a sedução de parcerias que nem sempre respeitam a sua soberania. A Europa deve oferecer uma alternativa genuína, não uma relação paternalista, herdeira de equívocos do coloniais, mas uma parceria de desenvolvimento, de investimento, de transferência tecnológica, assente no respeito mútuo e na visão de longo prazo”. Referiu como exemplo disso a entrada em vigor do Acordo UE-Mercosul “a relação transatlântica do século XXI não é um eixo bilateral, é uma rede”, estando Portugal numa posição privilegiada para ajudar a Europa a tecer essa rede, defendeu.

O evento, promovido pelo Grupo Hotusa e liderado pelo empresário espanhol Amancio López, reforçou assim o papel de Lisboa como ponto de encontro para o debate atlântico e ibero-americano, num momento de redefinição das relações globais.

Publicado: Maio, 2026.