Otty Patiño, ex-guerrilheiro do M-19, chefe da delegação do governo colombiano nos diálogos com o Ejército de Liberación Nacional (ELN) e, desde novembro de 2023, Alto Comissário para a Paz Total na Colômbia, foi o protagonista de uma conversa acolhida pela Casa da América Latina e Embaixada da Colômbia, a 27 de abril de 2026, moderada por Leonídio Ferreira, diretor adjunto do jornal Diário de Notícias. Tratou-se de encontro dedicado ao processo de “Paz Total” na Colômbia, participado por diplomatas, académicos, responsáveis políticos e comunidade colombiana residente em Portugal, num momento particularmente sensível para o país sul-americano.
A iniciativa procurou refletir sobre os desafios concretos da chamada “Paz Total”, um conceito que ultrapassa os acordos tradicionais com guerrilhas e inclui também o combate às raízes sociais e económicas da violência. Nesse sentido, o debate destacou que a paz não pode ser entendida apenas como ausência de conflito armado, mas como a construção de condições duradouras de inclusão, desenvolvimento e presença efetiva do Estado nos territórios mais vulneráveis.
Essa perspetiva foi reforçada por Otty Patiño numa entrevista concedida a Leonídio Ferreira no Diário de Notícias, publicada poucos dias depois. Nela, o responsável colombiano reconhece, de forma clara, os limites dos processos anteriores: “Do ponto de vista político, as FARC, mesmo as que participaram no processo de paz, não tiveram sucesso.” A afirmação evidencia uma leitura crítica sobre os resultados do acordo de paz de 2016 e aponta para a necessidade de novas abordagens.
Otty Patiño, referiu situações críticas, como a suspensão de mesas de diálogo após ataques, exigindo clareza e compromisso, inclusive em situações envolvendo drones. Patiño define o ato de sequestro por grupos armados, mesmo durante o cessar-fogo, como um “crime de guerra”. Ao mesmo tempo, Patiño insiste que a “Paz Total” não é apenas um objetivo político circunstancial, mas “uma necessidade histórica da Colômbia”. Este conceito traduz a ambição de ir além de negociações fragmentadas, procurando integrar diferentes atores armados, num mesmo horizonte de desmobilização, ao mesmo tempo que se enfrentam desigualdades estruturais e economias ilícitas que sustentam a violência.
Tanto na conversa na CAL em Lisboa, como na entrevista, destaca-se uma ideia central: negociar é indispensável, mas insuficiente. A consolidação da paz exige uma presença efetiva do Estado, políticas públicas consistentes e alternativas económicas para populações historicamente marginalizadas. Como sublinhou Patiño, o processo está “longe de estar concluído”, o que reforça a perceção de que a Colômbia vive ainda uma transição complexa e incerta.
O debate na Casa da América Latina acabou, assim, por espelhar essa tensão entre ambição e realidade. Se por um lado há um reconhecimento internacional da originalidade da estratégia colombiana, por outro permanece evidente que o sucesso da “Paz Total” dependerá menos dos acordos assinados e mais da capacidade de transformar, de forma concreta, as condições que historicamente alimentaram o conflito.
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Publicado: Maio, 2026.







