Rigoberta Menchú: “Não sei o que se passou com a academia mas a maior parte dos corruptos mais ilustres do nosso tempo tem doutoramentos.”

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A Nobel da Paz Rigoberta Menchú Tum foi uma das convidadas das Conferências do Estoril. Falou num painel dedicado à pobreza global e deixou recados para a academia, para quem toma decisões de carater local e mundial, e para a juventude. 

Foi Prémio Nobel da Paz em 1992, é ativista dos direitos humanos, e falou sobre a pobreza no mundo lembrando, mais do que números, as pessoas que estão por detrás da estatística: “Mais de 60% da humanidade vive em extrema pobreza. Se falamos de números, falamos de mais de 4 mil milhões de pessoas. E cada pessoa tem sentimentos, cada pessoa tem sonhos, cada pessoa come todos os dias, cada pessoa quer uma vida digna.”

Foi com estas palavras e este tom que Rigoberta Menchú Tum deu início à conferência onde falou ao longo de 15 minutos sobre um fenómeno que afeta várias dimensões da condição humana mundo fora: “quando falamos de pobreza, falamos de várias doenças, falamos da falta de oportunidade para ter casa, falamos de abandonos totais em lugares inóspitos. Há zonas do planeta onde não existe energia elétrica, onde não existe água potável, onde ainda não chegaram as vacinas.”

A corrupção, “um mal que está em toda a parte”, é outro dos problemas globais a que a ativista dos direitos humanos aponta o dedo. Rigoberta Menchú Tum lembra que “se falamos de pobreza não podemos deixar de falar de impunidade, porque os tribunais existem, as normas existem, mas a aplicação das normas não está a ser feita como deve ser.” E dá o exemplo da Guatemala, o país onde nasceu: “Em alguns países pode-se quantificar o número de hospitais que se deixaram de construir por causa da corrupção de uma administração. No nosso caso, na Guatemala e numa administração passada, só a vice-presidente deixou de construir 11 hospitais com o dinheiro público.” Dá também o exemplo dos Maias, grupo a que pertence: “aprendemos com a nossa própria história. Passámos pela tortura, pelo desaparecimento forçado, não esquecemos os nossos defuntos.” Ainda no que à corrupção diz respeito deixa no ar uma dúvida que é também um recado: “não sei o que se passou com a academia mas a maior parte dos corruptos mais ilustres do nosso tempo tem doutoramento.”

Há também, na opinião da Nobel da Paz, a chamada pobreza humana que permanece até aos nossos dias, “a pobreza do ser humano como tal.” Refere-se ao racismo, à discriminação, às intolerâncias para com a diferença, e acredita que um dos motores da mudança pode ser a juventude. “Não acredito na juventude se a juventude não está a participar. No processo eleitoral da Guatemala eu vejo mais jovens a participar, que querem ser deputados, que estão a difundir a consciência da cidadania, a fiscalizar os municípios para que não haja corrupção, e lutam para que haja transparência na administração pública. A esses jovens eu felicito.”         

Não deixou de falar das mulheres, a quem rendeu homenagem, pela batalha que têm feito para alcançar lugares de destaque público e político, interferindo nas decisões que dizem respeito à comunidade. É, de resto, através dessa intervenção que Rigoberta Menchú Tum acredita que é possível mudar o atual estado das coisas, lembrando a necessidade de começar por algum lado e com a plena noção do que é possível fazer: “eu digo sempre à juventude que o tamanho do meu sonho é o tamanho do meu orçamento. Posso sonhar mudar o mundo mas se não tenho passagem para ir a uma cidade não posso mudar esse mundo. É preciso ser mais realista.” E ser realista, considera a ativista, passa por fazer o que está ao alcance de cada um, que não é pouco: “Eu digo à juventude que se podem mudar a sua família de certeza que podem mudar a comunidade. E se mudam a comunidade podem mudar algo no seu país. E se mudam no seu país podem mudar alguma coisa no mundo. Há que começar pela família.

Texto por Raquel Marinho