Prémio Mário Quartin Graça distingue tese de Aziz Pedrosa sobre talha joanina em Minas Gerais

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Aziz José de Oliveira Pedrosa, de nacionalidade brasileira, destacou-se na categoria de Ciências Sociais e Humanas do Prémio Mário Quartin Graça, com a tese de douramento “A produção da talha joanina na Capitania de Minas Gerais – retábulos, entalhadores e oficinas”, realizada na Universidade Federal de Minas Gerais. O investigador estudou retábulos existentes nas cidades de Caeté, Ouro Preto, Mariana, S. José Del Rei, Tiradentes, Ouro Branco e Santa Bárbara, e também os entalhadores de maior destaque no período de 1730 a 1760.

Como surgiu a oportunidade de estudar a talha joanina em Minas Gerais?

Em 2008, quando comecei a estudar História da Arte, percebi que existia um enorme vazio a respeito de talhadores e arquitetos no Brasil. As pesquisas de arquivo foram mostrando que existia um caminho a seguir, muito para investigar e descobrir e pouco tinha sido feito. O último grande trabalho sobre o tema começou no século XX, com os modernistas, e devido à necessidade de mostrar a identidade verdadeira da arte, tendo sido feito um grande levantamento com inúmeros historiadores pelo agora denominado IPHAN (Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional) e que teve uma grande repercussão até à década de 90.

Vi que havia ainda muito a ser pesquisado para além do que tinha sido publicado. Com a minha entrada nos arquivos, confirmei que as hipóteses que levantei (desde 2008 até 2012, quando fiz o mestrado) tinham fundamentação teórica e histórica e que era possível fazer um trabalho. Durante o doutoramento apercebi-me que aquilo que apresento é apenas um fragmento, ainda existe muito para ser investigado. Condensei os dados que tinha numa pesquisa curta, que mostra que ainda há muito a ser feito. Já estou a continuar com as pesquisas pós-doutoramento, com o objetivo de oferecer, pelo menos, mais uns 5% de um conteúdo que é muito vasto e pouco investigado.

Qual a importância da atribuição do Prémio Mário Quartin Graça?

A importância que atribuo a este prémio é sobretudo relacionada com a pouca valorização que existe deste tipo de património, desta arte e conteúdo no Brasil. Somos poucos investigadores a trabalhar este tema, não chegando nem a três dúzias. As universidades perderam o interesse nestes assuntos. Eu vim de uma universidade que não valida este tipo de conteúdo. Não tive bolsa para estes estudos – nós não pagamos pelos estudos no Brasil, mas eu trabalhava como professor durante o doutoramento, por não ter bolsa. A minha universidade atribuiu vários prémios de tese e eu não fui indicado para nenhum, porque este assunto não lhes interessa. Tive uma grande surpresa quando, depois de me candidatar a este prémio, que vi por acaso no Facebook, fui agraciado com o mesmo, fora do Brasil.

Que dificuldades encontrou à pesquisa e em todo o processo, tendo em conta esta falta de valorização?

As dificuldades são grandes. A maior delas, em Minas, tem que ver com a geografia. Eu estudei em cidades que distam umas das outras em 200 quilómetros. Realizei inúmeras viagens para estudar arquivos que não estão condensados, como em Portugal, em grandes centros (como é o caso do Arquivo da Torre do Tombo), mas estão muito fragmentados, alguns ainda sediados nas igrejas. Assim, as dificuldades de acesso, de horário de abertura (algumas igrejas não abrem os arquivos ou não autorizam a pesquisa), o acesso às fotografias (que são de baixa qualidade), o tempo gasto em grandes viagens, foram alguns dos problemas consideráveis. A única facilidade que temos é em termos de material bibliográfico, que é interessante.

Outro dos desafios foi, claro, juntar todo este material recolhido numa pequena tese de doutoramento. Algumas coisas ficaram para trás, decidimos escolher a parte mais prática, com os inéditos. Deixamos alguns elementos para trás, para reaproveitarmos no futuro. Um dos grandes desafios para o futuro é também fazer a ponte com as cidades de Braga e do Porto. É complicado alcançar o entendimento desta arte, pois tudo foi feito a partir da sua origem portuguesa. Esta transição é algo que ainda falta aprofundar.

É relevante que no futuro haja mais pessoas a estudar este tema?

O mais importante é precisamente despertar nos jovens pesquisadores o interesse por esta temática. Como falei, venho de uma faculdade grande e de qualidade onde se observa este impacto. Mas o que percebi, após a realização da minha tese, é que foi despertado algum interesse por um assunto que estava morto, mas que, com a devida divulgação, pode renascer.