Mostra de Cinemas Ibero-Americanos: Balanço de Carlos Nogueira

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A Mostra de Cinemas Ibero-Americanos partiu da ideia de reunir obras inéditas e recentes, cobrindo o máximo possível de países ibero-americanos dos últimos dois anos (2015 – 2017).

Acho que foi uma mostra extremamente importante, porque apresentámos algumas obras inéditas em Portugal e trouxemos uma série de realizadores com obra feita que nunca tinham estado em Lisboa (Luis Ospina, por exemplo, que vai ser, inclusive, tema de uma retrospetiva bastante alargada no Doclisboa para o ano; Ignacio Aguero, que é um nome já muito reconhecido no Chile).

José Luis Torres Leiva, Gustavo Fontán, menos conhecidos e tantos outros nomes dos quais se vai ouvir falar daqui a alguns anos como Jorge Thielen Armand, Emiliano Torres, Vladimir Durán, Natalia Santa). Mostrámos o filme “La luz incidente” de Ariel Rotter e “Ixcanul” de Jayro Bustamante, um filme maravilhoso da Guatemala.

Optámos por fazer grande parte das sessões na sala mais pequena do Cinema São Jorge, embora esta tenha enchido por diversas vezes os cerca de 200 lugares. Tivemos, em geral, um ritmo de público muito consistente e as sessões foram bastante participadas. O que acontece frequentemente é que os espetadores são muito passivos e não têm a iniciativa de intervir, mas neste caso a experiência foi a oposta. Claro que eu preparava sempre algumas perguntas, mas na maior parte dos casos só tive de lançar o debate.

Conseguimos com bastante facilidade que viessem cá dez realizadores. Para um festival que tem oito anos e que habitualmente traz apenas um convidado, é surpreendente. Muitos deles ficaram cá vários dias, foram várias vezes ao cinema, criando-se uma boa relação entre eles e também com algum público. O ambiente do festival foi favorecido pelo facto de decorrer tudo no mesmo espaço. Fazendo um balanço nesta fase, eu diria que foi muito conseguido.

Existe de facto um cinema ibero-americano? Esta é uma tendência assumida?

Não estou certo. Eles conhecem-se mutuamente, e isso é algo de que talvez só me tenha apercebido durante a realização da mostra, uma vez que não conhecia a maior parte deles pessoalmente. Existe uma certa unidade temática, formal e há, na minha opinião, apesar da variedade, um cinema latino-americano. Tenho mais dúvidas em relação ao ibero-americano. Ou seja, acho que um realizador argentino contemporâneo tem mais que ver com um realizador da Venezuela ou do México do que com um realizador da Letónia ou do Irão. Há, de facto, uma unidade cultural, a mesma língua, a mesma descendência e existem relações entre eles. Existe uma série de festivais que os colocam a falar uns com os outros.

Essa é mais uma abordagem contemporânea?

Os contemporâneos têm esta relação. Até porque há dois ou três sítios que funcionam um pouco como centros de atração – por exemplo, Buenos Aires e as escolas de cinema que lá existem. A quantidade de cineastas que por lá passou é imensa. Um outro polo de atração é a Cidade do México, que tem uma indústria cinematográfica forte. Muitos filmes são produzidos lá. São polos de atração que vão criando comunidades. Mas isto não quer dizer que haja uma homogeneização de temas. Todos eles continuam muito localizados, a falar de problemas locais específicos da região em que vivem. Cada um fala daquilo que sabe. E tratando de um tema local, mais universalmente se atinge o público.

A falta de apoio ao cinema independente foi uma preocupação expressada por estes realizadores?

Existe uma luta quotidiana destes jovens cineastas. Eu acho que as coisas estão simultaneamente mais complicadas e mais fáceis. Complicadas porque é extremamente difícil penetrar o mercado, controlado pelas grandes produtoras. Existe um star system muito predominante. Quando um destes realizadores quer entrar no mercado tem, necessariamente, de lutar. Tendo em conta isso e para ultrapassar esse problema. Os festivais de cinema têm fundos para isso. Existe uma série de mecanismos para se venderem e obterem estes apoios, mas a verdade é que ele funcionam. Estas obras que aqui passámos, há dez anos, não teria sido feitas. O realizador não pode ser um artista que vive numa redoma, tem de saber vender a sua ideia.