Adriana Niemeyer, FESTin: “É preciso criar o gosto pela língua e o cinema é uma grande motivação”

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As ex-jornalistas Léa Teixeira (diretora-geral) e Adriana Niemeyer (diretora artística) organizam o Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTin) há oito anos consecutivos. Numa 8ª edição (1 a 8 de março) que dá destaque às mulheres no cinema da América Latina, Adriana Niemeyer fala, em entrevista à Casa da América Latina, sobre as dificuldades relacionadas com a produção do festival e da ligação pessoal criada em torno de uma pequena e motivada equipa.

Como surgiu o tema das Mulheres no Cinema na Ibero-América?

Todos os anos temos um tema ou um país da CPLP que homenageamos. Mas como este ano o festival calhou justamente no Dia Internacional da Mulher, achamos que era a oportunidade perfeita para destacar a mulher no audiovisual, e, como foram abertas as candidaturas para a Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, apresentamos o projeto à Câmara Municipal de Lisboa. Achámos interessante juntar cineastas e realizadoras de Portugal, Espanha e América Latina, que têm uma certa herança em comum. Só 16 projetos foram aprovados para o ano no âmbito da Capital Ibero-Americana, e este foi um deles – o único projeto exclusivamente ligado ao cinema.

Que importância tem si e para a Léa Teixeira, ambas mulheres que se aventuraram a criar um festival que tem já oito anos?

O FESTin nasceu de uma brincadeira que ficou muito séria, e que hoje que ocupa quase 80% da minha vida. É quase como um filho. A ideia nasceu numa altura em que eu e a Léa, ambas jornalistas, costumávamos ir a festivais de cinema e reparávamos em algumas falhas na organização. Dizíamos: “Até nós podemos fazer um festival”. E começamos a reparar que não existia em Portugal um festival inteiramente dedicado à língua portuguesa. Na época havia o Fantasporto, que entretanto parou. No Brasil, em João Pessoa, existia um que era feito por uma fundação, mas que não acontecia todos os anos…

O projeto foi aprovado, entrámos na semana da CPLP, começámos devagar porque não tínhamos grande experiência e fomos auto-didatas. Tivemos de aprender com os nossos erros. Na parte organizativa sempre fomos bem sucedidas, e não temos medo de perguntar aos outros como se faz. Quando se tem vontade…Hoje somos o único festival dedicado à língua no mundo.

Pode falar um pouco do processo de organização do FESTin? Que dificuldades que têm de ultrapassar?

Deveríamos ser um festival com muito apoio, não só por ser um festival de língua portuguesa, mas também porque levamos os filmes aos quatro cantos do mundo: a Timor-Leste, aos países da África, a Banguecoque, Macau… Nós fazemos parte da Lusófona Film Festival, que é uma mostra que vai levando grande parte dos nossos filmes para outros lugares, uma rede composta por membros de embaixadas que fazem uma pequena mostra por mês. Estivemos em São Tomé e Príncipe, Guiné, Fortaleza, Milão, durante este último ano, e já temos convites de Cabo Verde… Em São Tomé, por exemplo, não fazemos apenas a mostra dos filmes mas temos também workshops onde ensinamos os jovens a fazer o seu próprio festival (o que é uma produção de um festival, como se começa, etc…).

O que está a ser desenvolvido lá?

Eles estão a tentar fazer um pequeno festival na cidade e levar os filmes a São Tomé e Príncipe. A Léa organizou com eles um workshop de produção, porque existe sempre este tipo de eventos ligados ao cinema, mas raramente se ensina a fazer um festival, ou uma produção cultural no geral. O que a Léa costuma dizer é que a primeira coisa a reter é “não se diz não sei”, mas sim: “vou averiguar”, “amanhã dou-lhe uma resposta”, são estas pequenas coisas… E quando estivemos lá a fazer o festival eles já trabalhavam connosco, já faziam a receção, a distribuição do material. O próprio Centro de Estudos Brasileiros cedeu uma sala para eles reunirem, por isso esperamos que saia dali algum resultado.

Voltando à questão dos apoios…

Apesar de todo o trabalho que temos, que é quase de devoção, somos penalizados porque não podemos, por exemplo, entrar em concursos europeus, que exigem duas línguas pelo menos. Para nós tudo é mais caro, temos de trazer realizadores de Timor Leste, do Brasil, da África… E realmente temos muito pouco apoio na parte monetária comparando com festivais como o Indie, ou o Doc e o Queer, que têm filmes do mundo inteiro e, por isso, várias embaixadas os apoiam. Nós temos só as embaixadas de língua portuguesa, os países africanos (que nunca têm dinheiro para essas coisas), Portugal e o Brasil (meio falido também, agora)… Nem a CPLP participou este ano.

Nós queremos fazer o nosso trabalho, mas não é possível sem dinheiro. Nós já somos uma associação sem fins lucrativos, mas precisamos de manter uma sede, uma equipa… Para além de assegurar as despesas do festival, temos de conseguir sobreviver até ao próximo! É uma vida muito difícil, porque realmente só podemos contar com a ajuda dos países de língua portuguesa, mas se nem esses nos apoiam não sabemos onde encontrar os fundos para sobreviver. Apesar de este ano termos um dos melhores festivais de sempre, não sabemos se conseguimos continuar no próximo.

O objetivo do FESTin passa pela união entre os países de língua portuguesa no que toca ao intercâmbio cultural. Como tem evoluído esta relação?

Nem tanto a questão da união, mas o conhecimento mesmo. Através do cinema eu vejo realidades que desconhecia em Angola, as vidas de pessoas em Moçambique, as suas histórias, os seus livros. É uma forma de conhecer o irmão que partilha uma mesma língua. E o cinema é uma forma privilegiada e agradável de o promover, deixando entrar muito mais facilmente as influências e experiências do que um livro, por exemplo. O FESTin tem o objetivo de levar as produções a lugares onde, de outra forma, nunca entrariam numa sala de cinema. Não existe estrutura para levar um filme de Moçambique para Timor Leste por outra via.

Temos de chamar a atenção das autoridades. Se querem a manutenção da língua portuguesa, que ela entre no mundo e se fixe, não basta colocar lá meia dúzia de escolas. É preciso criar o gosto pela língua, criar motivação, e o cinema é uma grande motivação. Tal como na América souberam vender o “american way of life”, os países da CPLP têm de mostrar a sua cultura para cativar os falantes.

Uma das preocupações do festival é incluir atividades especificamente direcionadas para grupos menos lembrados no que toca a mostras e festivais de cinema, como é o caso do Festinha (que este ano inclui um júri composto por crianças), e do FESTin + (que é dirigido aos mais velhos).

Sim, do lado da Capital Ibero-Americana da Cultura procuramos fazer uma programação mais ligada às mulheres. No Festinha direcionamos para as crianças porque percebemos que faltava produção neste sentido em língua portuguesa. Temos a grande influência da Disney, mas em português é muito difícil encontrar. Instituímos um prémio para curtas infanto-juvenis porque achamos que o gosto de pelo cinema começa pela infância e é também uma forma de incentivarmos esta produção. Era lógico ter crianças a avaliar os filmes, apesar de metade do júri ser composto por adultos, já que eles são direcionados para a sua faixa etária.

Temos também filmes para os mais velhos, que organizamos com a ajuda das juntas de freguesia. O objetivo é mostrar que eles podem ser ativos, continuar participar da vida social e a debater os filmes em vez de ficarem sozinhos em casa em frente à televisão. O resultado é que ficam quase tão felizes como as crianças. A mostra social conta com linguagem gestual. Aqui em Portugal é muito difícil encontrar esse tipo de preocupações. Resumindo, temos temas ligados às crianças, aos seniores, às mulheres, filmes focados nas temáticas de género… Somos o mais transversais possível, tendo em vista a integração de todos no cinema.

O cinema ibero-americano está incluído em três mostras distintas do FESTin. A quais dá um destaque especial?

Todos os filmes ibero-americanos são muito bons. Temos a mostra do Titón, que aborda toda a vida do realizador cubano, um ícone do cinema. Lembro-me de na época ter ido ver o “Freza y Chocolate” e me ter marcado profundamente. E ele é realmente uma pessoa fantástica.

Depois temos o “Migas de Pan”, com a atriz argentina Cecilia Roth. É importante porque toda a gente fala da ditadura militar na argentina, mas no Uruguai fala-se pouco. O “Dólares de Areia” tem uma temática muito sexual e é uma coprodução do México e República Dominicana. Temos duas curtas do Uruguai também muito interessantes. Uma delas tem um minuto: é incrível como alguém consegue contar num tão curto espaço de tempo uma história – chama-se “La Grieta”; e o outro é sobre a história de uma bailarina cega no Brasil, numa escola onde se ensinam os cegos a dançar balé.

Nas mesas-redondas vamos ter um representante da Ibermedia (Elena Vinardell), e vão estar presentes todas as realizadoras da mostra para debater o papel da mulher no audiovisual. Sobre o Feminismo, Género e Sexualidade vamos contar com as intervenções da produtora do filme “Vidas Partidas” (Naura Silvia Schneider), que fala muito da violência contra a mulher. Estamos a fechar uma terceira mesa que será feita em parceria com a Change It, que é sobre empreendedorismo e criatividade.

Qual a importância deste projeto para ambas as diretoras a nível pessoal?

Acho que nem a um filho eu dediquei tanto tempo como a este festival. É aquele tipo de coisa em que quando se entra já não se consegue sair. E ou se faz bem ou não se faz! Trabalhar bem com pouca gente e escassos recursos significa muita dedicação, muitos detalhes, e mesmo assim há falhas (mesmo quando quem assiste não percebe que algo correu mal). Somos uma equipa muito pequena mas muito organizada, temos sorte com as pessoas com quem trabalhamos, fazem tudo com devoção, não medem horas, gostam de aprender e participar. Mas é cada vez mais difícil, até porque estamos oito anos mais velhas do que quando começou o festival, e ele cresce e nós não conseguimos os apoios necessários à sua dimensão. E agora estamos desfalcados com a Léa, que é o nosso carro chefe. Terminarmos o festival vai ser o maior presente para ela, que até ao último momento, mesmo antes de ir para o hospital, se preocupou em me enviar os últimos detalhes. Vai correr muito bem e vai ser a melhor homenagem que podíamos dar à mulher que deu tudo por este festival.