O azulejo e a arte urbana

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Nos dias 12 e 14 de Março de 2015, a Casa da América Latina, em conjunto com o artista plástico brasileiro Fábio Carvalho, aproveitando a sua presença em Lisboa, organizou duas visitas guiadas pela zona dos Anjos (Lisboa) para dar a conhecer aos diplomatas latino-americanos e ao público em geral a intervenção urbana “Aposto”, deste artista.

Partindo do estudo e levantamento dos trabalhos azulejares existentes no Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil, Fábio Carvalho veio pela primeira vez a Portugal a convite da Fábrica de Porcelana Vista Alegre (Ílhavo, Portugal) para um projecto de artistas contemporâneos e no mesmo ano (2011) realizou uma residência a convite da Fábrica de Faiança Artística Bordallo Pinheiro para participar no projecto “Bordalianos do Brasil” (Caldas da Rainha, Portugal). A esta visita ao nosso país seguiram-se outras, e foi crescendo o sentimento de que seria importante deixar uma marca.

“Aposto” é composto por um conjunto de pequenas intervenções em edifícios da cidade de Lisboa aplicando azulejos de papel, colados com cola de amido, em espaços anteriormente ocupados por azulejos originais que foram alvo de deterioração ou roubo. Esta intervenção desvia o nosso olhar para os edifícios e para a beleza da arte azulejar portuguesa.

O artista criou um novo padrão de azulejo, a partir de fotos de peças da série “Delicado Desejo”, de sua autoria, composta por armas de fogo criadas a partir de um patchwork de rendas diversas. A sua obra, discreta, “como um pequeno vírus que se espalha pela cidade” (citando o próprio), procura questionar o senso comum de que força e fragilidade, virilidade, masculinidade e vulnerabilidade não podem coexistir, propondo uma discussão sobre estereótipos de género, bem como sobre a banalização da violência e da vida humana nos nossos dias.

Durante as visitas, que decorreram de forma informal, Fábio foi falando da história do azulejo, das suas várias formas e padrões ao longo dos séculos e da existência dos mesmos no Rio de Janeiro, referindo que 70% deles foram produzidos na Holanda à imagem dos azulejos portugueses.

Como se trata de arte urbana, Fábio vê com agrado a sua constante mutação. Todos os dias que sai à rua repara nas suas pequenas obras e, seja por intervenção humana ou da natureza, repara que alguns dos azulejos de papel caíram ou foram arrancados, mas vê isso como fazendo parte da própria dinâmica da cidade. Símbolo disso é o respeito que sente das pessoas com o seu trabalho, pois por vezes colam cartazes ao lado das suas intervenções mas nunca por cima.

Fábio Carvalho é um artista plástico do Rio de Janeiro (Brasil) em actividade desde 1994 (13 exposições individuais e mais de 140 colectivas). Participou num dos mais importantes projectos de levantamento de produção de arte emergente no Brasil nos anos 1990. Fez exposições por quase todo o seu país, e já integrou mostras na Alemanha, Argentina, Chile, Espanha, EUA, Portugal, Reino Unido e Rússia, entre outros. Participou também em diversas Residências Artísticas em Portugal em anos recentes, destacando-se mais recentemente “Maus Hábitos” no Porto (2012), “ID POOL” na fábrica Porcelana Vista Alegre, em Ílhavo (2013), “Cerâmica Oficina da Formiga” em Ílhavo (2013) e “Cerâmica São Bernardo” em Alcobaça (2014).
De futuro está prevista uma exposição com fotografias em tamanho real de algumas das intervenções em Lisboa, que serão apresentadas no Rio de Janeiro.