América Latina é o “berço” das telenovelas

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[Entrevista à guionista Ana Paula Guedes, que irá ministrar o curso “Cenas dos Próximos Capítulos: Curso de guionismo para telenovelas”, em Fevereiro, na Casa da América Latina]

Porquê fazer este curso?

A ideia é promover uma imersão no universo criativo dos bastidores de uma telenovela pelo olhar evidentemente do guionista. A maior parte das aulas terá um ritmo de criação coletiva como se os estudantes estivessem numa sala de redação, discutindo ideias, situações dramáticas, perfis de personagens, construção de cenas, enfim serão encontros dedicados à produção de uma história. Antes de entrar nesse processo de escrita em grupo, nas primeiras aulas, irei expor conceitos básicos para a criação de histórias seriadas de longa duração.

A quem se dirige?

O minicurso tem uma proposta interdisciplinar e por isso é destinado a profissionais e estudantes das áreas de cinema, televisão, teatro, literatura e do campo da Comunicação Social, em geral. Serão oferecidas 30 vagas, tendo em vista que essa atividade terá momentos de criação coletiva e, por essa razão, não poderá exceder a quantidade determinada.

O que distingue este tipo de guionismo?

Considero o guionismo de telenovela o mais complexo, quando comparado a outras narrativas seriadas televisivas, ao vídeo e ao cinema, tendo em vista todas as variáveis que influenciam o processo de criação do autor e dos seus colaboradores (guionistas assistentes), tais como a linha editorial da empresa, o merchandising, a interferência da opinião pública e especialmente a longevidade excessiva, (algumas atingem um ano de exibição), desafiando o repertório de criação de toda a equipe de guionistas. Portanto, o guionista de telenovela trabalha sob um alto nível de pressão, e tem de apresentar uma alta produtividade diariamente, já que toda a equipe depende de seu guião para manter o ritmo de trabalho diário de uma telenovela.

Qual o segredo do sucesso da telenovela?

Apesar de discutir temas universais, que ultrapassam os limites territoriais do Brasil, a telenovela é um retrato das diversas faces da sociedade nacional. Os autores contam a história de personagens que vivem o cotidiano e a realidade sociocultural brasileira, estabelecendo uma relação de reflexo social e de existência paralela à vida das famílias dos telespectadores. Relação decisiva para compreender a importância que a telenovela exerce na rotina das pessoas, do público que cresceu e amadureceu em frente à televisão, acompanhando os capítulos e a trajetória de heróis e vilões como se fossem “pessoas” participantes do seu convívio íntimo cotidiano.

Considera que a novela desempenha uma função social?

Muitos autores brasileiros utilizam a telenovela para discutir temas sociais. A identificação entre as tramas e os problemas reais são recorrentes nas telenovelas nacionais e são, inclusive, um anseio do próprio público, que busca na teledramaturgia uma maior identificação com seu cotidiano. Em algumas telenovelas da Rede Globo, principalmente as produções escritas por Glória Perez, há discussões de temáticas polêmicas e muito contemporâneas, a exemplo da telenovela, Salve Jorge (em Portugal chamada de A Guerreira), na qual foi debatido o tráfico internacional de mulheres para fins de exploração sexual. Perez repetiu o seu bem sucedido merchandising social, inserindo depoimentos de personagens reais na narrativa. Assim, mulheres sobreviventes do tráfico ou familiares das vítimas davam seu testemunho sobre o crime ao final de muitos capítulos da telenovela.

Quem são as grandes referências do género?

Há muitas referências… Posso falar aqui a mais recente em termos de impacto e inovações no guionismo e no ritmo da narrativa, Avenida Brasil, do autor João Emanuel Carneiro, que trouxe para o centro da trama personagens interessantes e carismáticos pertencentes a classe C (segmento pobre emergente), além de uma vilã muito complexa, com um histórico de vida sofrido, situação que a humanizava, e uma heroína nada perfeita, com sede de vingança e com valores questionáveis em alguns momentos. No passado, tivemos novelas brasileiras inesquecíveis, como a produção regional Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, que se tornou também uma referência na teledramaturgia nacional pelo fato de a história reunir todos os ingredientes imprescindíveis para sustentar uma boa trama, romances impossíveis, personagens cômicos, crítica social, enfim um guião inteligente com um tom irônico e bem-humorado. E naturalmente não posso deixar de citar outros autores e autoras importantes como Janete Clair, Maria Adelaide Amaral, Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa e Silvio de Abreu.

Pode-se considerar a América Latina “o berço” das telenovelas?

Sim, a telenovela nasceu na América Latina assim como as radionovelas. É um produto genuinamente latino-americano, entretanto foi influenciado por uma teia de distintas narrativas e linguagens: o romance europeu do século XIX; o romance folhetim, por jornal, também do século XIX; o romance em folhetim, por entregas, da mesma época, aproximadamente; a radionovela; a fita-em-série norte americana; a dramatização radiofônica de fatos reais; a fotonovela e as histórias em quadrinhos e o melodrama teatral.

O que diferencia as telenovelas brasileiras das demais latino-americanas?

Ao longo dos 60 anos de telenovela brasileira, autores nacionais não só introduziram o realismo para as histórias, como também experimentaram estruturas narrativas diferentes, por exemplo a ampliação das tramas paralelas (subtramas), e consequentemente a reprodução de personagens secundários que podem atingir a marca de 80 por folhetim eletrônico. Esse modelo de estruturação do enredo diferencia a telenovela brasileira de produções de outros países latinos, igualmente importantes nesse mercado televisivo, tais como a Venezuela e o México. Neles, assim como em outras nações da América de língua espanhola, as novelas possuem uma trama principal (único enredo), a qual é desenvolvida durante toda a sua trajetória, constituindo-se assim numa estrutura mais simples de narração.

O que é o modelo luso-brasileiro?

Em verdade há realmente dois modelos de produção, o brasileiro e as produções de língua espanhola. E o modelo desenvolvido no Brasil influenciou mais fortemente a industria de teleficção portuguesa, haja vista a grande presença, principalmente, das telenovelas da Rede Globo na programação das operadoras lusitanas. A história cultural entre os povos irmãos, oriunda da antiga relação colônia e colonizado, a língua em comum e ainda, a aproximação pelo imaginário mítico, certamente ajudaram a construir o apreço recíproco e o intercâmbio cultural. Assim, dizemos modelo luso-brasileiro quando a telenovela é criada por profissionais dos dois países e recebe, naturalmente, influências de processos de produção desenvolvidos e adotados pelas duas nações.

Porquê escolheu fazer o doutoramento em Portugal?

Eu investigo como o modelo brasileiro de narrativa de telenovela foi incorporado pelos guonistas portugueses (Europa) e angolanos (África); é o trânsito da telenovela pelo Espaço Lusófono. Para fazer essa pesquisa, eu precisava passar um período nos dois países e conviver entre o povo, percebendo a cultura, o comportamento e o dia-a-dia tendo em vista que a telenovela é uma narrativa da vida cotidiana e banal dos seus personagens igualmente prosaicos.

Fale-nos da sua experiência

Atualmente curso o doutoramento em Ciências da Comunicação (tese sobre roteiros de telenovelas brasileiras, portuguesas e angolanas) na Universidade de Coimbra. Sou Mestre em Artes Cênicas (tese sobre series televisivas) pela Universidade Federal da Bahia, especialista em guionismo de tv e vídeo pelo Centro Universitário Jorge Amado e graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela UFBA. Jornalista, guionista e professora universitária, atuo no mercado de audiovisual na Bahia (Brasil) há mais de 15 anos, criando guiões para televisão, vídeo e exposições multimedia, além de já ter exercido diferentes funções (produtora, diretora e repórter) em emissoras de televisão e produtoras de vídeo localizadas em Salvador, Bahia.