Patricio Damm: “Regresso muito feliz ao Chile”

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Patricio Damm é, e será até daqui a poucas semanas, o Embaixador do Chile em Portugal. A dias do seu regresso ao Chile, após 39 anos ao serviço da diplomacia chilena, Damm conversou com a Casa da América Latina. Nesta primeira parte da entrevista, o Embaixador abordou aspectos da cultura chilena e portuguesa, de política internacional, da sua carreira diplomática e da poesia que escreve nos tempos livres. Na segunda parte, publicada noutra página, o Embaixador explicou-nos a sua visão das relações económicas entre Portugal e o Chile, que no seu entender deveriam ser reforçadas, e salientou que a Casa da América Latina tem um papel importante ao colocar em contacto interlocutores portugueses com outros latino-americanos, governamentais ou empresariais.

O que destaca da actividade cultural da sua Embaixada ao longo do seu mandato?

A Embaixada, não só no meu mandato, tem estado muito envolvida em eventos de teatro e outras artes. Acaba de ser inaugurada, no Chile, uma exposição de um português que fez fotografias a mapuches na época de Salvador Allende. Há um intercâmbio muito interessante. Em concreto, graças à Casa da América Latina pudemos recentemente trazer a Lisboa um grande dramaturgo chileno, Juan Radrigán. Foi um evento impressionante, muito interessante, no Teatro D. Maria II.

Crê que a cultura chilena é bem conhecida dos portugueses?

Na área da literatura, penso que o Chile é bastante conhecido sobretudo através de Isabel Allende, Luis Sepúlveda ou Pablo Neruda, entre outros. Por outro lado, a nossa música popular é pouco conhecida cá, tal como o Fado (pelo qual me enamorei e levarei no coração) no Chile. Na verdade, foi um chileno, Miguel Ángel Vera, o iniciador da ideia de que o Fado fosse considerado Património Imaterial da Humanidade. Fizeram-lhe uma homenagem impressionante recentemente, aqui em Portugal. Este senhor postula que o Fado é a raiz de muita da música latino-americana: da ranchera de Veracruz, do tango argentino, da canção cebolla chilena, do vals criollo peruano. Ele chama-lhes música portuária. Os acordes, a melodia, lembram o Fado. Foram os marinheiros portugueses que levaram o Fado aos portos de Cuba, do México, da Argentina, e outros.

Como diplomata trabalhou em países mais desenvolvidos, outros menos desenvolvidos, sendo clara a diversidade de destinos e regiões do mundo onde trabalhou.

Sim. Eu vejo isso como muito positivo. Tenho amigos diplomatas que fizeram toda a sua carreira na América Latina, o que seria para mim muito aborrecido. Fundamentalmente, um diplomata pode escolher os seus destinos dentro das oportunidades com que se depara. No meu caso, fiz questão de que a minha carreira fosse muito heterogénea, o que me levou a trabalhar no Extremo Oriente, em África, na América Latina, na Europa e até no Médio Oriente, aonde jamais pensei que estaria destinado, porque não me havia interessado por essa região.

Que capacidades específicas desenvolve um diplomata com um percurso assim tão heterogéneo?

Para além de uma grande capacidade de adaptação, penso que se aprende a ser tolerante, coisa que faz falta no mundo. Conhecer distintas pessoas, climas e culturas foi fascinante.

A experiência mais dura foi a que teve na Síria?

São períodos distintos. Quando fui para a Coreia do Sul era muito jovem, fui recém-casado. Fomos em 1976 e havia dias em que nos sentávamos um em frente ao outro e chorávamos de saudades, de angústia. Naquela época não havia internet, era difícil telefonar. A Síria foi um caso diferente: estar em pleno cenário de guerra, dormir com o ruído dos morteiros (o tipo de coisa que vemos nos filmes), é difícil. Eu saía de casa, a 25 minutos de Damasco, numa zona rural, e nunca sabia se voltaria, porque havia inúmeros checkpoints, que podiam ser do exército ou dos rebeldes. Eu ficava muito nervoso, mas é curioso que uma pessoa habitua-se. A capacidade do Homem para se adaptar é fantástica. Vê-se agora em Gaza, por exemplo. Em Damasco eu via as pessoas a tomarem o seu café, a viverem com a normalidade possível.

Trabalhou também na ONU, em Nova Iorque. O papel real das Nações Unidas é muito diferente do papel ideal?

Sim, bastante. As Nações Unidas são uma caixa de ressonância dos interesses distintos dos países que a compõem. Por isso é tão difícil tomar decisões e fica-se sempre com um sabor a pouco. Creio que a ONU tem sido muito útil para o mundo: há uma série de convenções e tratados que, indubitavelmente, têm melhorado o ser humano. Em termos de direitos humanos, de direitos das crianças, de alimentação…

Os Objectivos do Milénio.

São importantes, sim. Mas há que considerar que conciliar as vontades de países tão distintos, com culturas tão distintas, é difícil. Oxalá surja um organismo que possa fazê-lo melhor, mas parece-me praticamente impossível. O que está a acontecer no mundo, nestes dias, prova isso.

Que perigos antevê para a ordem internacional?

Não creio que a situação actual seja muito distinta do que já aconteceu no passado. A grande diferença hoje em dia é que, ao contrário de até há 40 anos, quando não se sabia o que se passava por exemplo nas fronteiras da China ou num país remoto de África, hoje sabe-se tudo o que se passa em poucos minutos. Isso mudou completamente as coisas. Tenho a impressão de que o ser humano não aprende com os erros graves do seu passado, continua a repetir os mesmos actos estúpidos.

Parece ter receio de que se inicie em breve uma 3ª Guerra Mundial.

Espero que não. Mas estamos sempre perto, sobretudo havendo países poderosos com capacidade para iniciar uma guerra a qualquer instante.

Quer contar-nos algum episódio caricato da sua carreira diplomática?

Na Síria, em Damasco, há óptima carne de cordeiro. Eu costumava fazer churrascos em casa: convidava outros Embaixadores e amigos e eu próprio cozinhava. Eles riam-se porque quando chegavam a minha casa eu dava-lhes uma bolsa com pedras. Havia gatos silvestres, mortos de fome, nas vizinhanças, e eles, com o cheiro a assado, aproximavam-se e tentavam roubar-me a carne da grelha. Por isso eu dava pedras aos meus convidados para que me ajudassem a afugentar os gatos. Eram por vezes 12, até 15, os gatos.

O Chile ainda é um dos países mais estáveis da América Latina? Ainda lhe chamam ‘a Suíça da América Latina’.

Estamos orgulhosos do que conseguimos no Chile, mas eu sou inimigo desse tipo de comparações que a imprensa faz. São clichés, não gosto deles. Estamos orgulhosos porque tudo o que temos foi conquistado por nós, não nos ofereceram nada. O Chile é um país difícil, que de vez em quando é devastado pela natureza: terramotos e tsunamis obrigam-nos periodicamente a começar de novo. Isto terá, provavelmente, moldado o carácter dos chilenos. Tudo o que conseguimos teve por base o trabalho e não foi fácil, não foi sem dor que lá chegámos. Tivemos uma ditadura, um período muito difícil e doloroso, mas espero que tenha servido para que não voltemos a cair nisso e para que prossigamos a senda do desenvolvimento com a maior equidade possível, que é o que a Presidente Michelle Bachelet procura neste momento: reduzir as brechas sociais, iniciar reformas de coesão social, uma reforma tributária, uma reforma de educação, que não são fáceis de enfrentar mas estão a ser iniciadas e demorarão o seu tempo.

Crê que os extremismos estão longe de voltar ao poder no Chile?

Não sou optimista a ponto de os descartar, mas acredito que no Chile não deveria haver extremismos. As redes sociais e a imprensa são um meio fácil de propagação destas ideologias junto daqueles que têm condições de vida difíceis. É fácil entusiasmar-se com quimeras.

Mas a exclusão social é forte no Chile.

Sim, é um problema que deve ser conhecido e resolvido. É por isso que os Governos o vêm enfrentando. Acredito que há países na América Latina – e não vou nomeá-los – que têm um perigo de explosão social. Não creio que o Chile esteja nesse lote. As novas gerações têm percebido que podem conseguir sair da pobreza através do estudo e do trabalho. A sociedade marginal é mínima no Chile, está perto dos 14%, é muito inferior à média na América Latina.

A transição da ditadura para a democracia no Chile foi pactada, como a espanhola e a sul-africana, mas diversamente da portuguesa, que foi revolucionária. Parece-lhe uma forma melhor de caminhar para a democracia?

Sim, sem dúvida. Penso que o caso do Chile foi útil inclusive como exemplo para a África do Sul, que se fez muito com base na nossa experiência, e com o apoio de especialistas nossos. Acredito que a transição chilena foi um exemplo para o mundo.

Que opinião tem de Nelson Mandela?

É um santo. Tive a oportunidade de conhecer, ao longo da minha carreira, personalidades importantes da política mundial. Mandela era uma pessoa distinta, com um íman a que não se conseguia ficar indiferente. Um dia eu estava a trabalhar, como encarregado de negócios do Chile na África do Sul, e disseram-me que estava ao telefone Nelson Mandela para falar comigo. Eu respondi “não brinques comigo”, mas insistiram e atendi. Era mesmo ele, que me ligava para dizer que Graça Machel ia ao Chile para um congresso, e por isso pedia-me o visto para ela. Era ele mesmo que me ligava. Fui imediatamente com uma secretária da Embaixada à residência de Mandela, onde tratámos directamente dos papéis com ele. Tive várias outras oportunidades de estar com ele, em cerimónias.

Falou do carácter dos chilenos. Em que sentido é comparável ao dos portugueses?

Creio que somos bastante parecidos com os portugueses. Não somos tão extrovertidos como os vizinhos do Caribe, que bailam e dizem mais piadas. Quando temos de bailar bailamos, mas não o fazemos constantemente. O Chile é um dos países onde mais horas se trabalha no mundo.

Sei que faz poesia. Tem algo publicado?

Não, não publiquei nada. Imprimo apenas para amigos. Fiz algumas intervenções no Instituto Cervantes, no Médio Oriente.

Quais são os principais temas da sua poesia?

Escrevo sobre coisas que me impressionam, que me fazem pensar, meditar, que me emocionam. Quem sabe se escreverei sobre Portugal quando me recordar do rio Tejo, das montanhas da Serra da Estrela, ou do bacalhau. Continuo a escrever muito; é um estado de ânimo, liberta-me. Escrevia muito quando estava só, porque a minha esposa viajava para o Chile e eu não podia ir. Isso aconteceu em particular nos países do Médio Oriente, onde há História por todo o lado: encontra-se pedras antiquíssimas, que viram passar Carlos Magno, Cleópatra. Damasco é a cidade habitada mais antiga do mundo. A via Recta, uma rua de Damasco, é citada na Bíblia.

Em contraste, a beleza de Lisboa é de absorver, mais do que de descrever imediatamente.

Exactamente. A minha estadia em Lisboa foi praticamente toda feliz, apesar de ter estado muito doente.

E sobre o final da sua carreira diplomática, já escreveu algo?

Não, ainda não. Há um romance que tenho parado há vários anos e gostaria de retomar. Por vezes encontro os papéis, releio-os e quero saber o que vai acontecer a seguir. É uma novela ambientada na época da União Popular do Chile.

Há algum verso ou poema seu que gostasse de nos dar a conhecer?

Não tenho nenhum aqui.

Relativamente a artistas chilenos, falámos já de alguns que são muito notórios em Portugal. Há outros que no seu entender deveriam ser mais conhecidos?

Tal como acontece no Chile em relação à língua portuguesa, é muito difícil encontrar livros chilenos nas secções de língua espanhola em Portugal. As estantes são muito pequenas. Na verdade, nos cinco anos em que vivi em Londres apercebi-me de que o mesmo se passava lá, e de que as obras chilenas traduzidas para inglês são muito poucas.

Que obras literárias mais o influenciaram?

Há uma literatura praticamente desconhecida aqui, que é a literatura de costumes do Chile. Marcou-me muito porque é hiper-realista. Leio e sinto-me transportado para a época, para os cenários, para a vida campestre daqueles tempos. Agora a literatura é mais prática, descreve menos. Gosto muito de livros que retratam a vida no Chile colonial. Para além disso, claro, Pablo Neruda é uma influência grande, está no subconsciente de todos os chilenos. Tanto escreve sobre as cebolas como sobre política, é fantástico. Quer se queira quer não, há sempre expressões dele que acabam utilizadas por outros autores.

E há obras que tenham influenciado a sua carreira diplomática?

Há um livro que se chama História Diplomática de Chile, mas a verdade é que já tenho quase 40 anos de trabalho diplomático e uma coisa é certa: a conversa, o comentário, é a melhor forma de entender a história. Nós diplomatas somos muito faladores. Somos um pouco como as mulheres que gostam de falar sobre a vida dos outros: o que aconteceu a este, quem casou com aquele…

A História faz-se muito do que não é público, do que acontece nos bastidores do poder.

Pois. E um diplomata desenvolve sobretudo o ouvido. A minha esposa costuma dizer que nós diplomatas conseguimos perceber o que está a ser dito no outro lado do salão. Um ouvido está atento a um lado e o outro está a ouvir o que se passa do outro lado.

Quanto ao seu futuro: Agora regressa ao Chile…

Volto ao Chile e vou reinstalar-me, o que não vai ser fácil porque vivi muito tempo fora do país. Quando fui ao Chile, ao longo destes anos, senti-me um estrangeiro no meu próprio país. Mas tenho uma casa, que teremos de tratar, e estaremos com a família novamente: mãe, filhos, netos, sobrinhos… E amigos, que quero rever. Quero retomar a minha literatura e quero continuar a trabalhar com Portugal.

De que modo?

Facilitando os contactos entre empresas chilenas e empresas portuguesas. Não me metendo nos negócios, mas ponto em contacto, por exemplo, uma empresa chilena que queira vender lençóis com uma empresa portuguesa da mesma área, que fabrique em Portugal. Creio que há boas possibilidades nessa área.

Volta satisfeito para o Chile?

Muito satisfeito. Feliz, mesmo. Tive uma carreira muito interessante, em que pus em maior contacto com o Chile países como a Coreia do Sul e a Malásia, com os quais tínhamos pouca relação.