Marco Flecha Torres fala de ‘Cosechero de Historias’

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A América Latina é em geral rica em contadores de histórias. O Paraguai é peculiar nesse aspecto?

Sim. A América Latina tem uma longa tradição de contadores de histórias, e hoje em dia há um movimento de festivais, encontros e espectácuos por todas as partes. Há circuitos, simpósios, bienais, eventos de todos os tipos. No caso específico do Paraguai, não se chegou à profissionalização do narrador oral, mas há uma profunda tradição oral. É um povo eminentemente oral e musical. Talvez porque a língua partilhada pela maioria da população é o guarani, que é de uma sonoridade e de uma musicalidade grandes, que fazem com que as histórias de fantasmas, de mitos e de lendas pareçam cantadas quando são apenas contadas.

Que ligação há entre o que se vem apelidando, na literatura, de realismo mágico e a tradição latino-americana de contar histórias?

Há quem defenda, no Cone Sul, que isso do realismo mágico é uma redundância. Pelo menos de onde eu venho toda a realidade é mágica: as pessoas falam de seres do além, de homens que se convertem em cães, do pombero (o senhor da noite), como se falassem de um jogo de futebol, com a mesma naturalidade e paixão. Não obstante, posso dizer que entre o que se escreve sob esse rótulo e o que trabalhamos nós, contadores, há uma relação umbilical. Em ambos os casos ouvimos essas vozes das pessoas e as suas memórias comunitárias.

De que modo a sua formação artística foi influenciada pelas histórias que lhe foram contadas?

No meu caso, primeiro ouvi, em seguida tive enorme vontade de partilhar o que ouvi, depois comecei a trabalhar em teatro e em jornalismo. Todas essas disciplinas conduziram-me ao que é hoje o meu trabalho: contador, narrador oral e contador de histórias. Mas o primordial foi ouvir histórias, e nisso tive muita influência do meu avô Heriberto, que participou em duas guerras e viveu para contá-lo com a sua extraordinária fantasia.

Esta peça é também uma forma de divulgação da língua guarani. Por que lhe parece importante divulgá-la em Portugal?

Nos meus espectáculo está sempre presente alguma expressão em guarani, é como uma minha muleta, sobre a qual me apoio para dar um salto comunicativo. Creio, também, que é importante que noutras regiões, noutros mundos, se saiba ao que soa este universo verbal. Nunca se sabe como será recebido ou avaliado, mas creio que é sempre oportuno conhecer um pouco mais esse Paraguai e essa sua língua originária.

O que faz deste cosechero de historias uma personagem que temos de conhecer?

A peculiaridade deste espectáculo e deste hombre que cuenta historias, deste cosechero de historias, está na simplicidade do que diz, de como vai pintando com palavras pequenas geografias vitais da vida campestre, da memória desse pedaço de terra que conhecemos como Paraguai. Tudo isso sem decorações, sem maquilhagens, nada mais do que a palavra honesta no formato de conto e no corpo do narrador.