Silvera e Júdice na Fundação José Saramago

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Data: Dia 25 de Setembro
Hora: 19h00
Local: Fundação José Saramago

A Casa da América Latina e a Fundação José Saramago celebraram um protocolo de cooperação cuja primeira iniciativa é o programa Leituras Internacionais em Lisboa, um ciclo literário e intercultural que pretende trazer a Lisboa autores ibero-americanos que vão “ler o mundo”, num espírito de partilha das obras, de ideias e do prazer da leitura. Os encontros, nos vários géneros – do conto à crónica, do romance à poesia -, terão sempre convidados portugueses.

Para as 19h00 do dia 25 de Setembro (terça-feira) está programado, na Fundação José Saramago, um debate com os poetas Antonio Silvera (Colômbia) e Nuno Júdice, como convidado.

A Casa da América Latina vai publicar poemas de ambos os autores ao longo das próximas semanas:

A mãe
“Teria gostado de te conhecer
quando tinhas aquele gesto
da fotografia
e ainda faltávamos nós
no álbum.
Sabes,
ter-me-ias enamorado.”

– Antonio Silvera in “Um país que sonha: Cem anos de poesia colombiana (1865-1965)”, trad. Nuno Júdice, selecção e prólogo Lauren Mendinueta, Assírio e Alvim 2012

O deserto de Atacama
“Há um vale onde a lua nunca desaparece, com
árvores de sal e rios de pedra, onde nos podemos deitar
à sombra do fogo e caminhar na corrente de pó
que o vento ergue de um chão de silêncio. Não tem fim;
o sol da tarde alimenta os arbustos secos com a
sua mão implacável; as montanhas ocultam
a maternidade gélida do seu bojo de inverno. Atravesso
este vale com o voo do flamingo que nasceu do nada;
e pinto-o com as cores de arco-íris que o pássaro
inesperado me trouxe.

Do verde, nasceu a erva que circunda um leito
de rio onde estagnou a água da primavera; do azul,
soltam-se os olhos que lembro quando o
horizonte os tinge de cinzento; do amarelo, as folhas
da árvore que um desejo de chuva mancha com o
seu veio castanho. Oh! se alguém pudesse habitar
estas cores, tocar a sua matéria de esquecimento,
respirar a sua atmosfera ferida pela seta de
um caçador de acaso! Invejo a sorte de quem
não conta o tempo pela areia espessa dos instantes,
e pousa no coração dos dias como a ave
colorida.

Grito-lhe, para que se detenha; mas
o seu espaço é o cume de onde se avista o outro lado
da paisagem – o oceano da vida
invisível dos sonhos.”

– Nuno Júdice, in «As coisas mais simples», Dom Quixote, Lisboa, 2006