Raquel Carinhas: “Atravessando culturas”

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[Testemunho de Raquel Carinhas, Leitora do Instituto Camões e Conselheira Cultural da Embaixada de Portugal no Uruguai, na Semana de Portugal no Uruguai]

Desde a chegada de Manuel Lobo, fundador da Colónia do Santíssimo Sacramento, que as terras uruguaias ficaram para sempre ligadas às terras lusas.

A miscigenação de culturas e povos, o diálogo com o Outro e a troca de experiências e saberes constituíram aspetos fundamentais – e arrisco fundacionais- da Semana de Portugal 2016, que decorreu de 15 a 27 de abril nas cidades de Colónia do Sacramento, Montevideu, Punta del Este, Rivera e San Carlos.

A Semana, organizada pela Câmara do Comércio Portugal- Atlântico Sul e a Câmara do Comércio Uruguaio-portuguesa, com o apoio de diversas entidades públicas e privadas, como a Embaixada de Portugal em Montevideu, a Embaixada do Uruguai em Lisboa, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, a Casa da América Latina, entre outras, apostou numa visão poliédrica de Portugal: uma missão empresarial, um festival gastronómico em variadíssimos hotéis e restaurantes do país, numerosas atividades académicas e culturais, e a visita da Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Teresa Ribeiro, que, entre uma recheada agenda de encontros políticos e culturais, assinou um “Memorando de Entendimento de Cooperação entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e o Ministério das Relações Exteriores do Uruguai”, reforçando a presença da língua portuguesa neste país.

A este rincón encostado ao Rio da Prata chegaram nomes de enorme relevância da cultura portuguesa contemporânea: Vhils, Boaventura Sousa Santos, Valter Hugo Mãe e Susana Travassos. Arte urbana, pensamento, sociologia, literatura, poesia e sons portugueses invadiram as ruas, as praças, os teatros, os auditórios, as escolas, as universidades, deixando uma marca indelével de nós, portugueses, da nossa cultura, mas que também da cultura do Outro.

Se a identidade portuguesa, a nossa famosa portugalidade, se construiu em dicotomia com a alteridade, durante a Semana de Portugal que agora findou, as propostas culturais corporizaram esse diálogo.

A intervenção de Vhils na parede da Perfeitura Naval de Punta del Este é uma cara de homem, do homem anónimo que podemos ser todos nós, uruguaios e portugueses. Boaventura Sousa Santos lançou o repto de o pensamento científico dialogar com o pensamento não-científico, mas não por isso menos válido. Valter Hugo Mãe, que muito caminhou pelas ruas montevideanas, para além de deliciar os leitores com as suas palavras e a leitura dos seus poemas em diversos espaços culturais da cidade, teve a feliz surpresa de aqui vir a reencontrar-se com um poeta que muito o influenciou, Isidore Ducasse, mais conhecido pelo Conde de Lautréamont. Susana Travassos, a voz que veio do sul de Portugal, encantou-nos com o fado, música tradicional portuguesa, bossa nova e outras sonoridades latinoamericanas, num concerto muito emotivo no Teatro Solís.

Mas também não menos importante contributo tiveram os uruguaios e as comunidades portuguesas e lusodescendentes da região na constituição dessa visão poliédrica de Portugal. A participação dos ranchos folclóricos das cidades de La Plata, na Argentina, e de Ijuí, no Rio Grande do Sul, em diversas ocasiões, a norte e a sul do país. A exposição “Olhar fronteiriço à cultura portuguesa” concebida pelo grupo de estudantes do professorado de português do Centro Regional de Professores Norte, na cidade de Rivera, onde os nossos ouvidos se encontram com a harmoniosa miscigenação de línguas. Os jovens da Escola n.º 64 daquela mesma cidade, primeira escola pública de primeiro ciclo bilingue do Uruguai, onde a língua portuguesa é efetivamente uma língua de pertença. Esses jovens que ouviram pela primeira vez “o português de Portugal”, mas que isso não foi impedimento para rirem e chorarem com a história A mãe que chovia, de José Luís Peixoto.

É praticamente impossível descrever tudo o que aconteceu nesta Semana de Portugal. Apesar do cansaço e das olheiras, permanecem, e permanecerão, as emoções, a satisfação, os risos, a ternura, o encanto, o profissionalismo e a dedicação de todos os que contribuíram na tecelagem deste encontro de culturas.