Fernando Almeida: “Não podemos tratar o pobre como uma peça de reposição”

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A Casa da América Latina falou com Fernando Almeida, Assessor Internacional da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, durante a assembleia geral da Associação Internacional das Cidades Educadoras (AICE), em Lisboa. Falando sobre cidades e relações que se podem aprofundar, Fernando Almeida ofereceu uma síntese da sua intervenção.

O que significa o conceito de “cidade educadora”?

Em primeiro lugar, as cidades não nascem educadoras. As cidades nascem para ser um território de disputa. É um território onde diversos interesses se juntam. E estes interesses não são necessariamente confluentes, muitas vezes são opostos, de agressividade, de exploração. Mesmo que haja no horizonte um bem comum, que pode ser morar, trocar, trabalhar, ou as próprias crianças, as práticas quotidianas fazem com que essas coisas não se alinhem rapidamente.

A história mostra que as cidades, no início, eram uma melhoria face à vida no campo, mas na verdade era só um interesse inicial de apropriação sobre alguma riqueza, facilidade de comércio ou construções que permitissem as trocas de valor. Essas trocas havidas na cidade sempre foram marcadamente desiguais. Quem tinha um exército, quem tinha a violência da polícia ou a força do dinheiro tornava esse espaço território de disputa.

Estamos num momento em que as cidades estão tomando uma enorme consciência de que têm de mudar o rumo da conversa. Mas essa mudança não é espontânea, é uma mudança a médio ou longo prazo e os educadores são figuras importantes nessa nova equação da cidade.

Que pontes se podem estabelecer entre São Paulo e Lisboa nessa matéria?

Muitas. Antes de termos pontes, já havia os navios indo e vindo. Havia uma ideia civilizatória que os jesuítas levaram para lá, muitos deles portugueses, que construiu uma cultura que foi, inicialmente, de respeito ao índio. Os padres jesuítas partiram daqui para lá, com um projeto que não servia apenas para ensinar catecismo. O padre Anchieta não queria isso. Ele queria proteger os índios dos interesses escravistas de um grupo que os queria usar como mão-de-obra. E os padres acreditavam que ensinar a língua portuguesa aos índios era uma forma de os proteger da escravidão. Este é um exemplo pequeno, controverso, mas Portugal teve um projeto civilizatório muito marcado pela religião católica, que de alguma forma prega um valor que é educativo – a fraternidade, que é amar o outro, respeitar… Não ganhou, não foi vitoriosa, os padres vieram embora e a civilização católica teve uma marca muito ruim lá, como teve a civilização católica de Espanha.

Mas, agora que os nossos países evoluíram muito, acho que o momento é de aproveitar a riqueza da língua. A língua nos faz pensantes, aproveitadores da vida, com o humor, com a poesia, com a comunicação, com a aproximação das pessoas, com a arte… O português e o brasileiro já têm a vantagem de poder se aproximar pela língua e pela cultura que ela traz, e, por isso, acho que temos de aproveitar o grande momento. As cidades educadoras – como São Paulo, que é um grande mundo de tensões, e como Lisboa, que de alguma forma conseguiu equacionar um monte de problemas que nós também temos. O importante é debater, trocar experiências, fazer coisas juntos. Lisboa tem obrigação, e São Paulo também, de fazer coisas em conjunto para melhorar as nossas vidas.

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A inovação, uma prioridade para a análise e implementação de projetos como o “Parque Educador” e o “Projeto Memória e Vida”, é um conceito importante para a I Mostra de Cidades Inovadoras em São Paulo?

Um dos temas a tratar será o da governança. Se as grandes cidades não se sentarem para conversar, a governança vai ser imposta pelo capital volátil internacional. Vai ser imposta pelas grandes empresas que determinam a organização da sociedade, que vão desde as companhias de telefonia, até às que cuidam do petróleo e as organizações bancárias. Indiretamente elas vão determinando aquilo que a cidade tem de ser, e nós, que lá vivemos dentro, temos de nos posicionar sobre isso. O capitalismo internacional não vive em lugar nenhum. Ele é etéreo, é abstrato, é virtual. Mas ele causa estrago, e, por isso, temos de nos unir, não contra o capitalismo, mas contra alguns desmandos que os resultados do financeiro sobre o humano têm causado para nós na cidade.

Qual a sua expectativa para a atividade da AICE em 2017?

Nós temos de fazer mais coisas juntos. Estes encontros não podem ser uma espécie de desfiles de moda das nossas coisas bonitas, um desfile dos nossos egos, das coisas boas que todos nós fizemos. Todos fizeram coisas boas, todos têm o que contar. Mas acho que estamos no momento de hacer juntos. Ter experiências como esta [visita a Lisboa]. Eu fui visitar hoje o BIP ZIP. O que eles estão a fazer aqui é muito interessante. Por exemplo: o BIP ZIP pôs as pessoas a fazer moda. Moda – não costura. Eles deram uma tal auto-estima àquelas pessoas, que elas começaram a fazer bolsas, vestidos, desfiles – não pela moda enquanto algo fútil, mas como uma segunda pele. A roupa é um pouco da gente. Devemos ficar bonitos e pôr a roupa bonita. Não custa nada. Não podemos tratar o pobre como uma peça de reposição, da qual você só tem de fazer com que o parafuso funcione. A ideia é entrar no plano da estética quando nos ligamos às pessoas carentes, porque é o único jeito de entrar no campo da ética. Não há ética sem estética.

Em São Paulo todo o ano tem uma coisa chamada São Paulo Fashion Week, com profissionais da moda de alto nível que vão fazer os seus desfiles, e eles fazem a preparação do evento com um grupo de escolas nossas. As crianças discutem, aprendem, desfilam. Mas esta abordagem é quase uma apropriação da escola para você poder dizer “estou a fazer uma coisa legal”, aqui é diferente, ela nasce de dentro e vai para fora. É charmoso levar as crianças a um mundo que elas nunca foram, no meio de mulheres lindas e roupas sensacionais, é interessante. Mas vamos inverter isso!

É preciso saber criticar a cidade, conhecer os seus pontos fracos, para poder evoluir?

Há uma tendência em todas as cidades de naturalizar o ruim. Fazer de conta que o que está mal sempre foi assim e por isso é natural. Um cara está dormindo ali no meio da rua, com a caixa de papelão… Sempre teve pobre. No Brasil é assim também. Mas isso tem de me desmontar! Tem de me espantar, acabrunhar, me tirar de mim. Paulo Freire, que eu citei [na assembleia geral], dizia que a primeira fase da atitude filosófica é problematizar o problema. O pobre está na rua – é um problema, mas o que acontece é que depois passa-se para outro assunto! É problema que haja pessoas com fome, mas sempre foi assim e já foi pior. A naturalização do problema se opõe à problematização do problema. Num país rico como esse [Portugal], no continente mais rico do mundo, historicamente e a nível cultural…

A primeira coisa a fazer é nos indignarmos com os problemas. Essa indignação é que traz a possibilidade de você transformar o problema em algo interpretado, analisado, para saber quais as causas que o originam. Se não houver isso, o que temos é um desfile de retratos. Lá em São Paulo a gente diz que combate muito a pobreza, mas não gosta do pobre. Chega um pobre perto de sua casa e você diz que é “que ele tá fazendo ali?”. “Pobreza está bem, eu quero combater, estou disposto a pagar imposto, mas pobre é outra coisa.” O importante é o seguinte: sem a problematização do problema, a gente nunca vai transformar a cidade em educadora. A gente faz um desfile de vaidades de ações beneméritas, mas não mexe na essência da cidade que gera pobreza, desigualdade ou violência.