Renato Cisneros: “Na realidade, mais do que sobre a minha filha, é um livro sobre o processo que antecede a paternidade”

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A Casa da América Latina recebeu a apresentação do novo livro do novelista e poeta Renato Cisneros, Algún día te mostraré el desierto. Diario de paternidad, no passado dia 26 de novembro.

Renato Cisneros, é primeira vez que vem a Portugal?

Segunda vez em Portugal. Já estive em Póvoa de Varzim, nas Correntes D’Escritas, e em Lisboa. Na verdade terceira vez, também estive no Porto.

Qual é a perceção que tem dos seus livros aqui em Portugal?

Tenho um romance traduzido para português chamado Deixarás a Terra, que foi publicado pela Editorial Planeta há cerca de 1 ano e meio, 2 anos, e tive um bom feedback, um bonito intercâmbio com os leitores que puderam lê-lo. Agora trago um livro que ainda não foi traduzido para português. Espero que seja traduzido em breve para que esta relação seja ainda mais estreita.

Este livro trata o tema da paternidade. O Renato começou a sua carreira a escrever poesia. Não considera este tema da paternidade muito propício a poemas?

Efetivamente comecei a escrever poesia quando tinha 20 anos, mas logo o exercício do jornalismo foi-me habituando a uma prosa mais narrativa. A partir daí comecei a escrever prosa, textos mais narrativos, e comecei a publicar romances. Em muitos dos meus poemas já havia uma fascinação pelo tema familiar: há uma obsessão com a figura paterna e em geral com a forma como se estabelecem os vínculos no interior dessa entidade tão fascinante que é uma família. Sempre cheias de segredos, de mistérios, de mitologias, de lendas, de coisas que não se tem de falar, e a mim isso sempre me pareceu digno de escrever. Primeiro escrevi um romance sobre o meu pai, que foi um militar que participou em algumas ditaduras do Peru. Escrevi um romance sobre a minha família paterna, onde exponho todos os segredos que durante muitos anos permaneceram ocultos ao longo de gerações, e que me parecia importante destapar, porque no fundo acredito que todas as famílias são muito semelhantes.

Como no Tolstoi, no início de Ana Karenina?

Sim. Como era a frase de Ana Karenina? As famílias felizes são todas iguais, as infelizes são-no cada uma à sua maneira. Por isso, não é estranho escrever um livro sobre a minha filha. Na realidade, mais do que sobre a minha filha, é um livro sobre o processo que antecede a paternidade. O narrador é um homem de 41 anos que tinha uma relação tensa com o seu pai, que escreveu um romance sobre ele, e que agora, aos 41 anos, se estreia como pai e então ao mesmo tempo convivem a felicidade e a experiência eminente da paternidade, e o pavor, o medo de não estar à altura do desafio.

É um romance sobre o processo? Desde que começa a gravidez…?

Sim. Desde que a minha esposa me conta que está grávida, durante os 9 meses. Está escrito na forma de um diário, na realidade chama-se Algun Día te Mostraré el Desierto – Diário de Paternidad, e chega a um ponto em que há uma crise patrimonial depois de a filha nascer, e há uma separação. É um livro que começa muito otimista e adquire um tom muito sombrio pelo meio, e logo se converte numa carta desesperada deste narrador à sua filha, esperando que numa conversa futura lhe possa contar esse ano de crise. E não lhe ocorreu melhor metáfora para crise que um deserto. Além do mais Lima, a cidade de onde venho, é um deserto e o deserto é um espaço em que por um lado há esterilidade, a vida é infértil, mas por outro lado o deserto é o cenário das grandes transformações humanas na tradição judaico-cristã. O deserto tem muita importância, e pareceu-me uma boa metáfora da crise, porque na crise sentimo-nos muito sós, angustiados, mas ao mesmo tempo também é uma oportunidade para reencontrar com algumas certezas e com algumas ideias.

É um romance totalmente autobiográfico ou é autoficção?

Está escrito com muita autobiografia mas eu sempre pensei que contar a realidade é uma depreciação, a realidade é inenarrável, ocorre uma única vez e é a soma de muitos olhares em simultâneo. Então eu conto o que acho que se passou nesses meses. Na realidade são testemunhos à parte, é o que eu acho que aconteceu na minha vida, na minha casa. E o que me parece interessante é que, de alguma maneira, o livro põe em discussão o tema da masculinidade. Hoje a masculinidade revê-se do ponto de vista do feminismo, algo que me parece muito válido e oportuno. Penso que também é conveniente que nós homens falemos daquelas coisas que nunca falamos. A nós homens ensinam-nos a nunca ter medo e o certo é que no momento em que nos reproduzimos, nos convertemos em pais de família, não nos sentimos necessariamente muito seguros. A educação instruiu-nos para que nesse momento nos encontremos precisamente muito resolvidos, porém, e isso passou-se comigo e com muitos outros homens também, é um momento em que ficamos assustados.

Para mim interessou-me contar do ponto de vista masculino, porque aos homens sempre se ensinou que aos 41 anos tem que ser um homem maduro, projetar confiança à sua esposa e a reproduzir-se quase como um mandato bíblico. Há um verso da Bíblia na Génesis que diz algo como “Ide e multiplicai-vos”. Nós, os seres humanos, temos na nossa essência cultural um mandato de reprodução, e às vezes ocorre que nem todos temos de ser pais. A paternidade é parte da realização pessoal e no livro, um pouco do que surge também, é que nem todos têm de ser pais e é bom perguntar-se antes de os ter.

Até porque não é uma tarefa fácil.

O índice de abandono de famílias por parte dos pais, que na América Latina é enorme, é uma espécie de tradição sombria. Há muitas pessoas que se veem desprotegidas da figura paterna. Vemos notícias terríveis onde pais são capazes de agredir a sua própria família. Então eu penso que é preciso discutir e conversar sobre a paternidade.

Continua a escrever romances. E a poesia?

Leio poesia, claro. Leio e sou fanático por poetas como Pessoa. Cada vez que venho a Lisboa visito a Casa Fernando Pessoa, quero ir ao seu túmulo desta vez. Mas não voltei a escrever. Creio que com a narrativa acontece algo que não ocorre com a poesia: pode-se decidir, sentar-se e escrever um conto ou um relato, incluindo o início de um romance, mas com a poesia isso não acontece. Ninguém se levanta e diz: vou escrever um poema. Penso que depende mais da poesia do que da pessoa. Uma pessoa é mais um para-raios quando escreve poesia, ela deixa-se ser escrita pela pessoa, não é a pessoa que decide escrevê-la. Então, a mim não voltou a tocar-me esse momento de sentar-me a escrever poesia. Tento, no entanto, que aquela voz lírica que cultivava quando era jovem, apareça de alguma maneira nos meus romances e que em algumas páginas se sinta esse cuidado com a linguagem que os poetas têm.

Entrevista por: Raquel Marinho