Que oportunidades de negócio para as empresas portuguesas no Peru?

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Testemunho de Guido Valdivia, Diretor Executivo da Câmara Peruana de construção (CAPECO), em Encontro Empresarial na CAL.

“O Peru encontra-se numa situação muito interessante. Podemos dizer que o Peru teve duas vidas. Antes e depois de 1990. No ano de 1990 e nos cinco anos antes tivemos uma inflação de 2000000 %. Não há forma de colocar numa calculadora este número. E a estratégia para inverter esta situação foi muito radical, mas revelou-se acertada. Somos um país que tem uma superfície de 1 milhão e 300 mil Km2, uma população de 31 milhões e esta taxa de crescimento populacional está a estabilizar. Existe uma grande população urbana. Estima-se que em 2030, oito em cada dez peruanos viverão em cidades. Anteriormente tínhamos uma dívida que superava os 100% do PIB, uma dívida externa a que chamávamos “dívida eterna”, mas agora estamos na ordem dos 23%. Neste momento, o crescimento do PIB está na ordem dos 4%, a inflação 2,8%, o desemprego em 7%. O grande desafio para o nosso país é o subemprego, ou seja, o emprego de baixa qualidade.

Ao nível de sectores económicos, até 2013, o setor da construção teve um forte crescimento, na ordem dos 50% verificando-se um abrandamento no ano passado que esperamos recuperar nos próximos dois anos. A proporção do investimento face ao PIB tem uma média acima dos 25%, apesar dos problemas que tivemos e que se sentiram em todo o mundo nos anos de 2014 e 2015. O mais interessante é que a grande maioria deste investimento é privado. O setor público tem uma participação muito pequena no desenvolvimento do investimento em geral. O que tentamos fazer é compensar esse investimento, o investimento público funciona em contra-ciclo. As mudanças introduzidas na economia geraram uma melhoria nas condições sociais. Em 14 anos, 9 milhões de peruanos, ou seja, um terço da população, saiu da pobreza. Este é um dado que espelha o impacto de uma política correta e que se manteve estável durante um determinado período.

Há ainda a referir diferenciação existente entre a estrutura socioeconómica na parte urbana do nosso país, onde vivem 25 milhões de pessoas e a rural. Há 15 anos, a diferença de nível socioeconómico era o dobro. O que se passa é que já não há uma pirâmide socioeconómica, justamente devido a esta redução das condições de pobreza.

Mais um dado importante, a habitação. Existe uma política de habitação orientada para apoiar promotores privados para a construção de habitação, porque o Estado não constrói. Temos uma procura insatisfeita de 715 mil unidades no país e a grande maioria está em Lima. Como a procura está assente em preços muito baixos, existe uma grande oportunidade para as empresas que possam dar contribuições tecnológicas para poder reduzir os custos e implementar melhorias neste grande mercado, que está sustentado por uma política de subsídios. A meta é de meio milhão de habitações nos próximos cinco anos, com apoios enquadrados na política social de habitação, já garantidos, implicando cerca de 18 mil milhões de dólares de negócio imobiliário.

O outro grande desafio é em relação às infraestruturas. No Peru, nos próximos 10 anos, é necessário investir quase 160 mil milhões de dólares para poder cobrir o nosso défice de infraestruturas. E a ideia instalada no país vai no sentido de que, uma parte substancial desta recuperação, tem de vir de alianças público-privadas. O Estado não tem a capacidade, nem o interesse de liderar estes processos sozinho, porque já ficou demonstrado que nestes casos esta é a melhor solução. À parte dos défices quantitativos, existe um tema de qualidade: a nossa infraestrutura pode melhorar em qualidade e este também é um potencial tecnológico que se traduz numa oportunidade, para países que possam implementar mudanças técnicas inovadoras. No que toca à rede viária, necessitamos de garantir a competitividade ao nível latino-americano e para isso necessitamos de uma rede viária moderna.

Nós elegemos, para presidente, uma pessoa que tem 78 anos e o que fará durante estes cinco anos será certamente um legado determinante no país. O presidente Pedro Pablo Kuczynski foi presidente do Banco Central, foi três vezes ministro em três governos diferentes, foi primeiro-ministro, para além de ter uma experiência na banca internacional muito forte. Acredito que escolhemos o presidente certo, no momento certo.

Este governo está empenhado em agilizar projetos. Nós temos 18 mil milhões de dólares de investimento de anos anteriores e que estão parados. Temos um grande desafio em mãos, a linha 2 do metro de Lima. Estamos a falar de 21 km que atravessam a cidade e já estão em construção. Mas temos projetos assinados, com financiamento e com um construtor, e que estão parados. O governo traçou a meta de 2021 para concessionar as outras duas linhas do metro, 8 mil milhões de investimento.

Existem projetos no sector mineiro no valor de 10 mil milhões, já com estudo de impacto ambiental, o último requisito para se começar a construir. Contudo, ainda será necessário um acordo com as comunidades indígenas e por isso poderá haver algum atraso. A estratégia é criar um esquema de desenvolvimento social antes de começar a funcionar. Por último, criou-se uma meta de meio milhão de habitações nos próximos cinco anos, com subsídios enquadrados na Política Social de Habitação que estão garantidos para este período, implicando cerca de 18 mil milhões de dólares de negócio imobiliário.

No Peru existe efetivamente uma procura por processos tecnológicos e modelos de negócio que na Europa são casos de sucesso. Se isto não convence os empresários portugueses, há a acrescentar que não existe discriminação no trato de investidores estrangeiros, e existe uma série de benefícios para as empresas estrangeiras. Por exemplo, com Portugal temos um acordo para evitar a dupla-tributação, e isso é uma vantagem face à Espanha. Temos muitos outros atrativos, que passam pela cultura e gastronomia, que poderão também conhecer através da Embaixada do Peru em Portugal ou da Casa da América Latina em Lisboa”.

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