Xavier Guerrero sobre “Poesía Sin Fin”: “O Alejandro adicionou a magia às suas memórias”

Etiquetas: , , , , ,
___________________________________________________________________________________

Xavier Guerrero é o produtor executivo do filme Poesía Sin Fin, do chileno Alejandro Jodorowsky, que abriu a Mostra de Cinema da América Latina no Cinema São Jorge. Formado em engenharia, Xavier Guerrero trocou a América Latina pela Europa com o sonho de se dedicar ao cinema, acabando por procurar Alejandro Jodorowsky em Paris e o convencer a voltar a fazer filmes.

Após duas colaborações (anteriormente em La Danza de la Realidad, 2013), o produtor fala sobre o quotidiano de trabalho com o realizador surrealista e dos desafios impostos pelo distanciamento à indústria cinematográfica.

Como conheceu o Alejandro Jodorowsky e começou a trabalhar com ele?

Eu era engenheiro industrial no Chile. Trabalhava no negócio do meu pai e tudo indicava que seguiria o seu caminho, mas deixei tudo isso e mudei-me para Londres para seguir o meu sonho que era fazer filmes, procurar surrealistas que me ajudassem a seguir o meu caminho. Sempre sonhei com isto, e quando li os livros do Alejandro senti que ele fez exatamente a mesma revolução no Chile como jovem poeta, e tal como podemos ver no filme. Na altura estava na Escola de Cinema de Londres e apercebi-me que as escolas são muito limitadas, querem fazer de ti um realizador, argumentista ou produtor comercial para a indústria. O mesmo problema que encontrei durante toda a minha vida: nenhuma indústria tem paixão nos dias que correm. Poucas pessoas conseguem tocar o mundo pela paixão pela arte e pelo que acreditam. Por isso, deixei a escola e fui para Paris para procurar o Alejandro, que era uma grande inspiração para mim nesse sentido. Em Paris, o Alejandro lia o Tarot todas as terças-feiras num café específico. Fui lá, não o encontrei, mas encontrei o seu aprendiz de Tarot, que me disse para esperar um momento, subiu à casa do Alejandro, que era bastante perto, e lhe disse que havia um sem-abrigo chileno à sua procura (porque era o aspeto que tinha, estava a viajar e com uma mochila às costas… (risos)). O Alejandro colocou a mão no bolso e deu-lhe dinheiro – uma nota de cem euros. Eu disse não pretendia dinheiro, mas sim conhecimento, ajudar de alguma forma ao seu trabalho. O aprendiz disse-me que tinha de aceitar, mas que me podia ensinar a ler o Tarot e marcamos um novo encontro.

Porque é que foi tão importante este símbolo?

Porque toda a minha vida a minha família me disse para não confiar em ninguém, que tudo estava dependente do dinheiro, do lucro. “Quando alguém te ajuda, é com segundas intenções, não é real”. E quando conheço esta personalidade, que fala em mudar o mundo, fala em magia, em amor, vi-o imediatamente, segundo a minha educação, como um charlatão, alguém que não é real. Mas como ele me deu esta nota, eu disse imediatamente para mim próprio que ele era verdadeiro, e que precisava de trabalhar com ele. Aprendi o Tarot, comecei a trabalhar com o Alejandro diretamente e convenci-o a voltar ao cinema. Investi todas as minhas poupanças, e o Alejandro as suas, no filme La Danza de la Realidad. Duas outras pessoas com bastante dinheiro surgiram por milagre e colocaram todo o seu dinheiro também. Fizemos o filme e permanecemos juntos, criando uma companhia de produção, para ser livres do controlo da indústria cinematográfica, e depois fizemos o Poesía Sin Fin.

Este é um filme que espelha aquilo que foi o percurso e a vida de Jodorowsky?

Sim, é verdade. Todas as experiências estão ali. O Alejandro não filma como um realizador normal – cada localização que escolhemos em Santiago era o sítio exato onde as coisas aconteceram na realidade. Isso foi uma dor de cabeça para a produção! Imaginemos o que é cortar uma estrada a Avenida Matucana, constantemente cheia de carros. A polícia não nos deu permissão para cortar o trânsito, por isso tivemos de o fazer sem autorização. Lembro-me de os técnicos de som terem sofrido devido aos ruídos dos lugares escolhidos. Mas o Alejandro adicionou também a magia às suas memórias.

Como é trabalhar com ele?

É fantástico, porque é muito criativo e tem uma intuição irreal. No próprio casting, ele sabe exatamente quais são as pessoas ideais para representar cada papel. Ele termina este processo em horas, temos de estar preparados para assinar contratos. Como realizador é muito forte, mas fica relaxado na pós-produção. Nessa fase ele está no céu, enquanto que nas filmagem… existem tantas variáveis e tão poucos recursos, que ele fica realmente rígido. Há quem não aprecie essa energia, mas eu acho que só assim é possível usar os recursos que temos ao máximo. É muito importante para mim produzir de uma forma muito diferente do habitual. Normalmente em produção temos um plano do que vai acontecer, e mesmo que as condições não sejam as melhores, o diretor não pode influenciar nesse sentido, porque é o que está no guião. Com o Alejandro não é assim, porque no dia anterior à filmagem ele inventa ideias fabulosas que vão dar mais vida ao filme. A ideia é planear, mas ao mesmo tempo ter todos os recursos necessários para mudar tudo à última hora, e todos os intervenientes têm de ser flexíveis ao improviso da memória e imaginação do Alejandro. Nem sempre temos os recursos e dinheiro, mas o Alejandro é bom também nesse sentido: eu digo que não é possível e ele reinventa as histórias de acordo com os recursos que temos.

O filme foi financiado com recurso a crowdfunding. O que tem a dizer dessa experiência?

O Danza de la Realidad teve uma muito boa produção e como tínhamos muitos recursos estávamos tranquilos. Para este não tínhamos o dinheiro, pelo que foi mais complicado. Aliás, nós começamos com um terço do que seria necessário para concluir o filme. Eu não conseguia dormir mais que três horas por dia, estava em constante preocupação. O Alejandro dizia-me a toda a hora que se o dinheiro acabasse ele podia se sentar numa cadeira com um fundo preto e explicar o que queria ter feito. Qualquer produtor teria abandonado o projeto quando se apercebesse das limitações. Nós acreditamos que o dinheiro ia chegar, e ele chegou mesmo. Agora as nossas duas companhias estão falidas e estamos a pagar o preço, mas o filme foi feito (risos). O crowdfunding foi algo incrível, porque muita gente colaborou, começamos no KickStarter e depois passamos para o Indiegogo. Conseguimos juntar quase 800 mil dólares.

É um recurso que os jovens cineastas poderão aproveitar?

A indústria do cinema é muito fechada, muito definida. Os guiões são alterados por não serem comerciáveis, os territórios são comprados e o filme é financiado, mas o realizador tem de fazer todas as concessões e limitar a sua liberdade. Todas estas coisas matam a criatividade de alguém como o Alejandro. Ele não consegue trabalhar assim e foi por isso que deixou de fazer filmes durante 20 anos. De certa forma, o crowdfunding é algo essencial, apesar da dificuldade que existe em controlar e executar todas as promessas que são feitas. Mas é uma ferramenta que permite realizar um projeto de forma livre.

De que modo este é um filme diferente dos anteriores deste realizador?

Como o próprio Alejandro diz, em El Topo ele estava na sua fase do “intelecto”, depois passou para a “emoção” com o Santa Sangre. Neste último filme, e após este interregno em que não fez filmes, dedicou-se todo o tempo a terapia, ao Tarot, ao círculo mágico e a todas as dimensões que ele tem, como o é também a poesia… ele está mais conectado com todas as suas energias e decidiu criar com o seu “espírito”, contar a sua história. É quase um novo género o que ele criou com Poesía Sin Fin – um imaginário auto-biográfico. Ele é especial. Algumas pessoas criticam a sua auto-referência, no sentido de ser um pouco narcisista, mas se o conhecermos é fácil perceber a sinceridade do que ele está a fazer. Ele está a reescrever a sua história de uma forma a que a sua mãe possa cantar ópera, que sempre se sentir frustrada por não o poder fazer, e até fazer com que o pai mudasse e se redimisse, encontrando o amor. Está a mudar o seu passado e colocá-lo num filme.

A forma como fizemos este filme não foi convencional. É sempre uma execução na busca de encontrar um milagre. Cada milagre acontece e eu fui testemunha disso. O dinheiro é um exemplo. Um ator que deu a sua melhor performance quando era impossível. A forma como Alejandro trabalha consiste em providenciar todos os elementos especiais para que coisas incríveis aconteçam. O filme não é convencional e não agrada a todos, mas há quem fique realmente tocado e chore com o que ali se passa, porque é arte, não segue as regras normais da indústria e, consequentemente, também não é um objeto plano. Foi-nos permitido dar ao Alejandro o que ele quis criar.