Rita Gomes na BTL: “A postura é esta! Espírito aventureiro e bons companheiros de viagem!”

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[Entrevista com Rita Gomes, vencedora do terceiro prémio do concurso de Fotografia “Eu Fiz o Mochilão na América Latina” da Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) 2016]

1. Como classificas a experiência de partilhar a tua viagem na BTL?

Partilhar a minha viagem é uma coisa que gosto imenso, especialmente em fotografias. Uma amiga minha, que sabe que gosto de fotografia, mandou-me o link do concurso e no princípio não pensei muito no assunto, mandei a fotografia por graça, porque achei uma iniciativa mesmo gira e pela coincidência de ser sobre a América do Sul, quando tinha acabado de chegar. Foi um bocado à última da hora que decidi ir à FIL ver quem é que tinha ganho os primeiros lugares, e fiquei mesmo impressionada quando estava a entrar no pavilhão e estavam a dizer o meu nome! Foi uma experiência muito boa, porque se aprende sempre! Havia fotografias incríveis em sítios inacreditáveis, algumas com mais técnica, outras com mais efeitos, outras mais originais. Gostei mesmo!

2. Qual é a história da fotografia vencedora?

A fotografia foi tirada no Lago Titicaca, que se situa nos Andes, na fronteira do Perú com a Bolívia. Este lago é conhecido não só por ser um dos maiores da América do Sul (compete apenas com o Lago de Maracaibo, na Venezuela), mas sobretudo pela existência de “ilhas flutuantes”. Estas ilhas, chamadas “Uros”, são nove ilhas artificiais construídas pelos nativos bolivianos e peruanos, que depois vivem nelas, para depois viverem de pesca, caça e especialmente do turismo.

Como não podia deixar de ser, eu fui uma dessas turistas, que passeou no lago Titicaca e visitou uma das ilhas. Conhecemos a família nativa que ali vivia, que nos explicou a sua forma de viver e nos mostrou as suas casas. Percebemos que havia uma grande interação entre todos os elementos da família, desde o pai (que é considerado o “chefe”) aos filhos mais novos, que olham uns pelos outros; e percebemos que aqui todos contribuem para que haja comida e dinheiro em casa, trabalhando de alguma maneira.

No fim, proporcionaram-nos uma volta no barco construído por eles (feito de palha também) à volta da ilha, e foi neste barco que tirei a fotografia. Atrás deste pequeno “bote” de palha onde nós (turistas) íamos, seguia-nos outro barco com todas as crianças da ilha. Consegui chegar a pontinha do barco e tirar-lhes a fotografia que podemos, agora, ver.

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3. A fotografia teve um papel importante nesta viagem?

Sou apaixonada por fotografia, por isso estar com a câmara a postos para captar o que está à minha volta é uma coisa normal do meu dia-a-dia, especialmente em viagens.

Muitas vezes quando tiro uma fotografia que gosto, mostro a quem está comigo, e foi uma coisa que aconteceu com esta fotografia ao fim do dia, quando estava a rever o que tinha tirado no lago Titicaca. Como é hábito eu fotografar, mostrar, e falar bastante sobre isso, acho que não foi só esta imagem que teve um papel importante, mas sim a fotografia em geral. Foi também uma das coisas que me vez tanto gostar desta viagem: a natureza, as paisagens, as cores, que permitiram fotografias muito boas.

Conseguimos ter uma boa “reportagem” da viagem, e sempre que temos saudades vemos algumas para nos lembrarmos destes dias.

4. Tiveste feedback por parte de pessoas interessadas em fazer o mesmo?

Acho que toda a gente que faz uma viagem deste tipo é interrogada, interpelada, quase entrevistada vezes sem conta. Uns querem saber coisas mais teóricas, mais culturais ou históricas; outros querem saber coisas mais logísticas como onde é que onde dormimos, o que é que gastámos, como é que fomos de uns países para os outros; outros querem saber “como é que se sobrevive ao caminho da morte??” ou “demoraram dois dias a chegar ao Machupicchu??” ou ainda se dançamos tango em Buenos Aires. É hilariante.

Falo por mim (e penso que por toda a gente que fez ‘mochilão’): adoro responder, contar, falar mais sobre isto! É reviver a viagem, e tentar ilustrar o mais possível o que vivemos nestes dias. A mim pessoalmente ajuda-me imenso contar com a ajuda das fotografias que fui tirando, e acho que já conquistei algumas pessoas a fazerem a mesma viagem. Toda a gente fica deslumbrada especialmente com as paisagens, as cores, e até com as pessoas latino-americanas.

Quando falo da viagem, os sítios pelos quais me perguntam mais são o Machupicchu (especialmente tios e avós!), o caminho da morte e o Salar do Uyuni. Quanto às cidades, perguntam muito por Santiago do Chile e por Buenos Aires, provavelmente por serem as capitais mais desenvolvidas da América do Sul. Quem gosta de viajar, de aventuras e de conhecer mais sobre o mundo fica apaixonado pelas histórias e pelas fotografias e anseia por ir o mais rápido possível.

5. Que tipo de conselhos poderias dar a quem quer fazer o ‘mochilão’?

Antes de fazer o ‘mochilão’, pedi imensos planos, nomes de hostéis, tours, sítios para visitar, passear, almoçar. Recebemos imensas dicas, que nos ajudaram sobretudo a perceber quanto tempo é que devíamos ficar em cada sítio, e qual era o melhor percurso a fazer.

É verdade que uma viagem bem organizada e planeada corre melhor: poupa-se tempo e dinheiro, visita-se mais, aprende-se mais.

A verdade é que a nossa viagem não foi de todo muito planeada. Combinámos várias vezes ainda em Portugal encontrar-nos para decidir pormenores sobre todos os sítios onde íamos passar, mas como boas quatro amigas que somos, acabávamos sempre à conversa sobre tudo e sem conclusões muito definitivas para tirar. Fomos com o plano do percurso no geral, mas esse também foi alterado vezes sem conta (mesmo a meio do ‘mochilão’). Sei que comecei a viagem a pensar que ia ao Uruguai, e que nem ia gostar de Buenos Aires: fiquei rendida e apaixonada por Buenos Aires, e por isso nem tivemos tempo de ir ao Uruguai. E como este exemplo aconteceram outros tantos. E, muito sinceramente, foi muito mais incrível assim! Ter a liberdade de ficar mais um ou dois dias num sitio que gostamos; decidir à ultima da hora se nos apetece ir ou não a outra cidade; ou mesmo decidir coisas mais simples como se vamos sair à noite ou acordar cedíssimo para aproveitar e visitar, ou os dois, porque só estamos neste sítio uma vez na vida. Foram coisas que fizeram parte da nossa viagem.

Claro que é preciso ser-se organizado dentro da organização, e isso passa por ler sobre onde estamos, “estudar” mapas e querer saber mais e mais sobre o que nos rodeia. Só assim é que vale a pena, porque aprendemos o triplo.

A postura é esta! Despreocupação, boa disposição, flexibilidade e um bocadinho de organização. Espírito aventureiro! E bons companheiros de viagem.

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6. Quais os países por onde viajaste na América Latina? O que destacas em cada um?

Tanto eu como as minhas três grandes amigas e companheiras nesta aventura estávamos a fazer Erasmus no Canadá. Assim que acabámos as aulas, a meio de dezembro, descemos para o Peru, onde começamos em Lima, para depois descer de avião para Cuzco, onde passámos o Natal.

Cuzco é uma cidade em que os turistas costumam parar antes de ir ao Machupicchu. Apesar de Lima ser a capital, gostei muito mais de Cuzco! É uma terra pequenina cheia de feirinhas típicas, cheia de cores do Peru e como passámos lá o Natal estava tudo decorado e iluminado. Daí fomos para a maravilha do mundo, o Machupicchu, e depois seguimos para o Lago Titicaca (onde foi tirada a fotografia). Aí dormimos uma noite em Puno, para depois fazer um passeio de barco durante um dia pelo lago, onde visitámos as ilhas flutuantes e uma ilha maior, a ilha Tequilla. Seguimos para La Paz, onde nos encontramos com alguns amigos para passar a passagem de ano. Fizemos o caminho da morte dia 2 de janeiro, e depois seguimos para o Salar do Uyuni. Fizémos uma tour de três dias, em que passámos pelo salar, pelo deserto, e pelos lagos. Seguimos para o deserto do Atacama, já no Chile. O deserto é incrível e a São Pedro de Atacama é uma cidade mesmo gira, embora muito turística. Fomos depois para Viñas del Mar e Valparaíso. Não achámos Viña del Mar nada de especial, gostámos mais de Valparaíso, pelas ruas típicas, boas vistas, e cafés, restaurantes e gelatarias que dão cor e vida aos inúmeros cerros que há na cidade.

Seguimos para Santiago do Chile onde gostámos muito do bairro da Bela Vista, do cerro de San Cristobal, e de ver o pôr-do-sol no topo de um dos prédios mais altos da cidade.

Na Argentina parámos primeiro em Mendonza, onde vimos as típicas adegas de vinhos, que caracterizam a cidade, e também fábricas de chocolate e produções de azeite. A paragem seguinte foi Buenos Aires. Fiquei completamente apaixonada por esta cidade… Vejo-me a viver lá. Tem muito de tudo e para todos. Muito dia, muita noite, muita gente, muita cultura, muita cor e vida. Nas cataratas do Iguaçu vimos a grandeza do mundo e a força da natureza. E depois seguimos para o Brasil, para Florianópolis, onde passámos quase uma semana nesta ilha paradisíaca.

7. Achas importante haver divulgação deste tipo de experiências?

Para mim, viajar é das coisas que mais me apaixona. Conhecer culturas diferentes, pessoas novas, aprender mais e mais. Ter mundo! Enriquece-nos mesmo como pessoas, e por isso acho que este tipo de experiências deve ser partilhado e divulgado o mais possível.

Eu fui à América do Sul e cresci e aprendi tanto com esta viagem, que gosto mesmo de contar e de partilhar. Assim como outras pessoas que fizeram Interrail, o Sudeste Asiático, ou outra viagem qualquer, conheceram e aprenderam outras coisas que também podem partilhar e mostrar! É um ciclo vicioso e só temos todos a ganhar se mostrarmos aos que temos a nossa volta o mundo que conhecemos e que temos em nós.

8. Tens planos de voltar à América Latina?

É sem dúvida um sítio onde quero voltar, e voltar a viajar. Ainda ficou tanto por ver! Os 42 dias que passei na América do Sul não chegaram para ir a todos os sítios, nem sequer todos os países que queria. Quero muito fazer uma viagem pela Colômbia, explorar um bocadinho mais este país, conhecer mais do que Bogotá! Também tenho curiosidade de ir ao Equador, Paraguai, Uruguai… Mas onde quero mesmo e espero um dia ir é à Patagónia. Por ser completamente diferente, pela natureza imensa (desde lagos e rios a montanhas e glaciares) e sobretudo pelas paisagens incríveis e únicas.