CAL homenageou autores latino-americanos no Dia da Poesia

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“A abertura desta cidade a todos quantos a procuram, tal como o meu pai abriu a porta de nossa casa aos refugiados nos anos 50”. Foi com um sentimento de “alegria triste” que Horacio Benavides recordou episódios marcantes da sua infância. O poeta colombiano, um dos mais influentes da sua geração, conta com uma carreira de quase quatro décadas.

A 5ª Festa da Poesia Latino-Americana, organizada pela Casa da América Latina (CAL) no Dia Mundial da Poesia no Centro Cultural de Belém (CCB), teve a sua primeira parte dedicada à poesia de Horacio Benavides, numa conversa que se fez em conjunto com as representantes da embaixada da Colômbia em Portugal, Carla Tarditi e Sara Gamba.

O relato de algumas das memórias do autor foi intercalado com a leitura de poemas escolhidos para ilustrar essas mesmas vivências. Benavides tem uma postura serena, tal como a voz, que faz confundir os versos recitados com os diálogos que foram pautando o encontro.

A sua infância nos arredores de Bolívar e o seu contacto com os animais domésticos (os cavalos, os bois, as mulas ou os porcos) tomaram forma nas imagens nostálgicas dos seus poemas. “Quando comecei a escrever, o primeiro impulso foi descrever os animais, numa sensação angustiada de que eles poderiam desaparecer”, recorda Benavides.

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A violência, de que o país natal tem vindo a padecer, tem um forte impacto na sua obra. A morte não investigada do seu irmão Javier, que pertencia a movimentos pacifistas de esquerda, inspirou um dos seus trabalhos mais comovedores “Conversación a Oscuras” (2014).

Ao ser interrogado sobre os acordos de paz com as FARC na Colômbia, Benavides comentou que o país “tem grandes problemas. Existe a esperança de que se torne mais justo, que todos os colombianos tenham mais paz”, salientando que esta pode ser também uma oportunidade para que “a poesia colombiana se abra mais a todos”.

Editar poesia na América Latina: um desafio?

A questão que deu o mote às intervenções de Jorge Reis-Sá, da Glaciar, e Helena Vieira, da Mariposa Azual, não ficou sem resposta. “Editar poesia estrangeira é um desafio, mas sendo um desafio é também uma oportunidade. Em Portugal edita-se pouco de outros países, e, estranhamente, publicam-se poucos poetas brasileiros”, afirmou Helena Vieira.

A proximidade da língua nem sempre é uma garantia de êxito. A título de exemplo, a editora expôs o caso da poetisa Carla Diacov, que “curiosamente” conseguiu publicar em Portugal e que continua por publicar no Brasil, ou o caso “misto” de Matilde Campilho que nasceu em Lisboa e viveu no Rio de Janeiro, cujo livro foi muito bem recebido nos dois países.

Helena Vieira lembra a importância da Internet na divulgação da poesia brasileira: “As comunidades brasileiras online são muito ativas. É impossível procurar coisas relacionadas com poesia e não tropeçar em milhares de sites e blogues brasileiros. É uma fonte muito importante de informação”. Jorge Reis-Sá considera, contudo, fundamental o papel da edição como “mediador”. “Deixa-me feliz que hoje haja jovens com um acesso muito mais facilitado a edições de autores como Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto”, exemplifica.

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Helena Vieira iniciou-se na edição de autores brasileiros a partir do conhecimento de um grupo de poetas ligados à editora 7Letras, composto por Marília Garcia (Um teste de resistores, Mariposa Azual; Finalista Prémio Oceanos), Ricardo Domeneck (Medir com as próprias mãos a febre, Mariposa Azual), Angélica Freitas, Fabiano Calisto, Carlito Azevedo, Marcos Siscar, entre outros. “Eram poetas novos que estavam a publicar em 2000 no Brasil. Daí resultou uma grande afinidade, e assim fui acompanhando”, contou.

“Nos últimos anos, um grande grupo de jovens brasileiros vieram para a Europa, onde foram influenciados por diversas culturas. A mistura que daí resulta é a característica mais forte nestes poetas – a grande relação entre a poesia e outras artes: as performativas, o cinema, a fotografia, e a forma como fazem essa translineação”, explica Helena Vieira, salientando que “o desafio está em editar e vender”. O meio é “muito pouco permeável” na visão da editora: “como se não acreditássemos ainda que pudesse haver uma poesia brasileira”.

Tal como referiu Reis-Sá, que no início da editora, começou por “apresentar nomes que agora são muito importantes, como é o caso do Ferreira Gullar, o Manoel de Barros, ou até o próprio Eucanaã Ferraz ou o António Sirso, o Elmano Freitas Filho, a Ana Cristina César (postumamente), o Paulo Henriques Brito”, que na altura não tinham encontrado ainda um público mais alargado em Portugal.

O que escolher: o papel do organizador

Manuela Júdice, secretária-geral da CAL e coautora da antologia Escribiré en el piano: 101 poemas portugueses, traduzida para a língua castelhana, conversou com a jornalista Raquel Marinho sobre as escolhas que tomou durante a realização desta obra. O diálogo foi complementado pela leitura de poemas a propósito pela também jornalista e escritora Filipa Leal.

“A seleção das obras foi feita simultaneamente com a decisão de publicar, tal como refiro na nota de abertura. Já existia uma antologia de poesia ibero-americana [Um país que sonha: Cem anos de poesia colombiana], publicada por decisão da embaixada da Colômbia em Portugal. Mas aqui em Portugal tínhamos um conhecimento muito mais vasto da poesia colombiana do que o inverso”, explicou Manuela Júdice.

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Mais do que os nomes, interessava a Manuela Júdice publicar os poemas: “Poemas que muitos da nossa geração sabiam de cor na escola, poemas que muita gente citava. Não queria ficar no século XX. A nossa poesia deveria começar onde começamos de facto”. Assim foram estabelecidas duas balizas: para começar, o D. Sancho I [“Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado”], e para terminar “Nos dias tristes não se fala de aves”, de Filipa Leal. “Entre estes dois poemas (separados por oito séculos) havia que escolher”, contou a coautora do livro, em conjunto com Mário Quartin Graça e Jerónimo Piçarra.

Incluindo para cada poeta um poema, à exceção de Fernando Pessoa e Luís de Camões (que têm três), nesta seleção “entendeu-se que estas eram figuras suficientemente conhecidas a nível internacional para estarem representados dessa forma. Pessoa ficou com um por heterónimo e Camões, com um por género”, concluiu.

Homenagem a Ida Vitale

A sessão terminou com uma homenagem a Ida Vitale, vencedora do Prémio de Poesia Ibero-Americana Reina Sofia 2015, em quem Manuela Júdice identifica um “enorme fulgor”. A secretária-geral da CAL lamentou o facto de a autora não estar ainda traduzida para o português e relembrou a importância de fomentar a aproximação aos países da América Latina, através de distinções como esta.

Debora Merali, Isabel Araújo Branco, Helena Vieira e Diana Correa apresentaram a sua escolha pessoal de poemas da poetisa uruguaia, que atualmente vive nos Estados Unidos da América.

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