2016, o ano de Cuba

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[Testemunho de Johana Tablada, Embaixadora de Cuba em Portugal]

Cuba foi um dos destinos favoritos do mundo em 2015, Havana eleita cidade “maravilha”, e a economia de Cuba abriu novas portas para o investimento estrangeiro. Portugal não fica fora deste processo.

O presidente da AICEP – Portugal Global visitou Havana por ocasião da Feira Internacional de Havana (FIHAV) nos dias 6 e 7 de novembro, acompanhando as empresas portuguesas ali presentes, participando em encontros institucionais com as autoridades cubanas o que permitiu confirmar, mais uma vez, que Cuba oferece oportunidades para as empresas portuguesas em diversos sectores. Nessa ocasião o presidente da AICEP declarou que Portugal pode ser um parceiro determinante de Cuba em setores como a agro-indústria, hotelaria, reabilitação urbana e indústrias ligadas a bens de primeira necessidade.

Em 2015, o Produto Interno Bruto (PIB) de Cuba cresceu 4% e continuará a crescer em 2016, embora a um ritmo menor. Na semana passada, no Parlamento de Cuba, foi aprovado o Plano da Economia e a Lei do Orçamento do Estado para 2016. No 6º Período Ordinário de Sessões da 8ª Legislatura da Assembleia Nacional, o chefe de Estado cubano Raúl Castro afirmou que todos os setores da economia registaram aumentos relativamente ao ano 2014, especialmente a indústria açucareira que cresceu 16,9%, o setor da construção 11,9 %, e a indústria de manufactura aumentou 9,9%.

Para 2016 estima-se um crescimento em torno de 2%, em setores como a construção civil, hotéis e restaurantes, agricultura, pecuária, silvicultura, transporte, armazenamento, comunicações, indústria açucareira e geração de eletricidade, água e gás. O número de turistas estrangeiros recebidos no país foi de 3,5 milhões, o mais alto registado até o momento.

O ano de 2015 foi decisivo para o crescimento do investimento direto estrangeiro (IDE) em Cuba devido à intensa atividade de promoção e à aprovação dos primeiros projetos. Definido um novo rumo, Cuba já não considera a atração de investimento como complemento, mas como fator central para o desenvolvimento económico do país. A captação de capital estrangeiro é também uma das ações de maior peso no processo de atualização do modelo económico cubano, fundamental para elevar de maneira sustentável o ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Não é menos importante o reordenamento e a melhoria da posição financeira do país, particularmente no que se refere à sua dívida externa. Em 2014 e 2015 acaba positivamente a renegociação da dívida cubana como o Club de Paris (com a redução de 70% da dívida de Cuba). A essa transação somam-se as negociações anteriores com a Rússia e o Japão para aumentar a credibilidade financeira da Ilha e as oportunidades de inserção na economia mundial. Algo que seguramente terá uma consequência direta no comércio, nos negócios com os provedores e, obviamente, no investimento estrangeiro.

Nesse sentido, um contributo importante para aprofundar as relações entre Cuba e Portugal será alterar o injusto nível de risco que a COSEC outorga a Cuba, baseado em informação que não corresponde ao momento actual. Falta dar o passo essencial para oferecer apoio institucional e financeiro ao empresariado português que recorre à banca de outros países vizinhos como Alemanha, ou a Espanha. Uma franca desvantagem dos empresários portugueses em relação aos seus competidores franceses, holandeses e alemães, onde facilitam o crédito à exportação. Mesmo assim, durante os últimos 20 anos, Cuba foi um parceiro estável para mais de 60 empresas portuguesas e o intercâmbio poderá, em breve, ser o dobro.

Cuba está a adquirir mais produtos portugueses, e Portugal importa mais de Cuba. O comércio bilateral atingiu em 2015 os 74 milhões de euros. O nosso país é um dos cinco principais destinos das exportações portuguesas na América Latina. No turismo é igual: mais de 18 mil portugueses viajaram para Cuba em 2015, o dobro de 2013. A Câmara de Comércio Portugal-Cuba, criada no ano passado, já tem mais de cinquenta membros e um trabalho importante na organização de missões comerciais, facilitando o investimento.

Destaca-se ainda a aprovação de contratos de administração hoteleira, associações económicas internacionais e empresas mistas nos setores de petróleo, turismo, serviços profissionais e construção – sobretudo os projetos aprovados na Zona Especial de Desenvolvimento Mariel (Z0EDM). Entre eles identifico dois de Portugal. Pela parte cubana, figuram a Empresa de Serviços Logísticos e o Terminal de Contentores sob administração da PSA Internacional, de Singapura, uma das mais importantes operadoras de terminais portuários do planeta que está igualmente a gerir o Porto de Sines.

Cuba avança na modernização do sistema económico, procurando um socialismo próspero e sustentável. As relações entre os EUA e Cuba atravessam um momento histórico com o restabelecimento das relações diplomáticas. Mas Cuba precisa do apoio dos Estados Unidos e da comunidade internacional para pôr fim ao embargo económico que ainda se mantém e impede o pleno desenvolvimento do nosso povo. Para normalizar a relação bilateral, o bloqueio deve ser levantado.

É importante sublinhar que os avanços e mudanças na estrutura económica do nosso país não afectaram negativamente a justiça social que distingue e define Cuba no mundo. O Orçamento corrente atribuiu fatias de 30 e 23%, respectivamente, à Saúde Pública e à Educação. 58% do Plano da Economia, previsto para o ano de 2016, será dedicado a empreendimentos fundamentais para o desenvolvimento do país como o turismo (1,3 bilhão de pesos), a indústria petrolífera e fontes renováveis de energia e o setor agropecuário (600 milhões de pesos). O povo cubano acredita e está motivado para fazer de 2016 o seu ano. As empresas portuguesas não podem perder esta oportunidade e apostar num mercado diferente. Vamos crescer juntos.

Johana Ruth Tablada de la Torre