Entrevista aos Radiovox, a propósito do Faz Música Lisboa 2013

Julio Al-Rashid (vocalista e letrista), Fernando Schubert (baixo), Guilherme Scartezini (bateria), Daniel Arenhardt (guitarras) e Dudu Moraes (percussão)

Como entraram no mundo da música?

Através de amigos. E há vinte anos que isso se repete. Sempre com amigos com que de alguma forma havia um encontro nos versos, nas letras, nas poesias que criávamos. Os Radiovox existem desde 2004, para o ano fazemos 10 anos e começou através de um amigo, baterista, que já saiu da banda. Depois vieram o (Fernando) Schubert por indicação do irmão desse baterista e o Daniel.

Porque deram o nome Radiovox à vossa banda?

É difícil encontrar um nome. O nome da banda é uma marca, uma identidade comum, aceite por todos os membros da banda e surgiu de uma conversa em que cada um foi dando ideias e esta foi a melhor proposta que surgiu. Já não nos lembramos quem deu a ideia, mas este foi a melhor opção e aquela que não gerou tanta discussão. Gostávamos de ter uma melhor, mas não temos.

Quais são as vossas influências (musicais, nacionais e internacionais)?

Crescemos a ouvir a rádio. É uma memória melódica que vive connosco, o rock do Brasil nos anos 80, o rock internacional dos anos 90. Por isso as bandas que são para nós uma referência, de uma interminável lista que poderíamos aqui apontar, são Paralamas do Sucesso, pelas influências de ska e rock, Titãs, Metallica, Beatles, Led Zeppelin e Rolling Stones.

Há alguma música em particular que gostassem de ter escrito? Porquê?

Não. Todas as músicas que criamos passam por um processo de composição que vem de um trabalho conjunto. A satisfação vem depois no final, no momento em que a música está concluída. O Júlio (vocalista) é quem normalmente vem com a letra e já alguma ideia dos acordes, depois em conjunto e acompanhado das guitarras começamos a compor. Temos músicas que ainda não estão no seu momento, ficam em stand by. E já aconteceu a composição estragar a letra e não gostarmos do resultado. Muitas vezes a letra e a música têm de amadurecer.

Como surgiu a música “Fala pra ela”?

Júlio: Veio de uma amizade muito próxima, de quem era confidente. E foi essa a minha fonte de inspiração, essa história. É uma música muito antiga.

Quais as maiores dificuldades em se estabelecerem como músicos?

A falta de patrocínios. Quem os recebe são sempre os mesmos. Além disso, tudo é muito caro no mundo da música, desde os instrumentos, a sua manutenção, até a produção de um CD é muito caro! Os estúdios de gravação são muito caros. Os donos destes estúdios vêem uma oportunidade de negócio. Não existe um reconhecimento do músico como um profissional. O local onde vivemos não gosta de música própria, prefere covers de músicas conhecidas do que a música de autor.

Há algum momento que tenha definido a vossa carreira?

Sim, o lançamento do nosso CD depois de muito trabalho e que se não fosse por ele não estaríamos aqui agora a apresentá-lo, que era já um sonho que tínhamos, que era cantar fora do Brasil. Este é um grande momento para nós.

Quais os conselhos que dariam a alguém que esteja a lançar uma banda?

Estudem, estudem e estudem. Que tenham perseverança e paciência e que não interessa o que os outros falam. Muitas vezes as editoras procuram bandas que vão ao encontro da fórmula de sucesso que elas próprias criaram, que nunca falha. Não abram mão daquilo em que acreditam só para serem famosos.

Que mensagem querem passar?

Olha, no Brasil acham que vocalista de banda é filósofo da sociedade. Nós não achamos isso. Queremos apenas que as pessoas conheçam a nossa música, que se identifiquem com ela, estabelecer contactos, fazer novos amigos por aqui e dizer-lhes que estamos muito agradecidos a todos eles por podermos estar aqui.

Quais são então as expectativas para este concerto?

Podermos voltar mais vezes. Que estes concertos em Lisboa nos possam abrir mais portas para no próximo ano voltarmos e apresentarmos o nosso trabalho em mais locais.

Última pergunta, quais são as vossas referências portuguesas e como vêem a relação entre o Brasil e Portugal e vice-versa?

Vamos cair num cliché, mas a Amália Rodrigues, a Ana Moura, também, o Figo [jogador de futebol], Xutos & Pontapés, Madredeus… Muito conhecidos por lá. Também o Roberto Leal. O Roberto Leal faz parte da nossa infância nos programas de domingo. Temos CDs dele, com músicas infantis brasileiras adaptadas ao vira, muito ao estilo folclórico português. Muito bom. Quanto às relações, por vezes ainda sentimos alguma hostilidade, no sentido de Brasil como país colonizado pelos portugueses: às vezes alguns comentários que fazem, mas sabemos que não podemos generalizar.

Por outro lado, o novo acordo ortográfico foi um passo muito grande para a aproximação e entendimento entre os dois países. Já não é só uma relação cultural, passou a ser também económica e política. A academia, a possibilidade de podermos fazer o intercâmbio com universidades portuguesas, são oportunidades óptimas. O Rock in Rio… O Ano do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil trouxe muita da cultura portuguesa até nós, isso é importante. Não é só o facto de ser o Ano do Brasil e Portugal – todos os anos há o Ano do Brasil com algum país -, mas de serem dois países com a mesma língua, que se entendem entre si, são países irmãos.