Entrevista a Judith Klein, da exposição ‘O Lugar das Cores’

Considera que “a arte é o tempero da vida”, que é “tão essencial quanto alimentar-se, respirar, ver e sentir o mundo”. O que a faz colocar a arte e a subsistência no mesmo plano?

Considero “arte”, num sentido mais amplo da palavra, um ingrediente indispensável para a subsistência. Ela, a arte, vem permeando nossas vidas desde os primórdios da civilização, quando o homem das cavernas, além das atividades cotidianas de plantar, colher, caçar, pescar, ainda embelezava as suas paredes com desenhos que representavam o meio em que vivia: seus familiares, seus animais, seus utensílios, seus ídolos…

E não estou falando apenas de arte visual, mas também de literatura, música, dança, teatro, cinema, em resumo, tudo o que complementa a nossa mera subsistência, e que torna a nossa vida tão interessante. Sem “art” (= arte, ingl.), o “earth” (= terra, ingl.) seria apenas “eh”. Em outras palavras, o idioma inglês permite esta brincadeirinha segundo a qual o mundo sem arte seria apenas uma exclamação!

É cidadã de quatro países, viajou por muitos mais e estudou quatro áreas do saber que parecem indiciar um forte cunho humanista no seu percurso. Sentiu a necessidade de fazer da sua vida um forte contraste à experiência que teve do Holocausto?

O significado do que foi o Holocausto só bem recentemente passou a fazer sentido para mim. O fato de eu ter viajado pelo mundo desde a mais tenra infância, e de ter que me adaptar a culturas tão diversas quanto a centro-européia, ou à do Oriente Médio, ou ainda à da América Latina, só veio a ser entendido como algo que “está no sangue” do povo judeu quando, em 2006, tomei conhecimento da existência de um programa de indenização – por parte do Governo da Hungria – para as vítimas das atrocidades que cometeu contra os “seus” judeus durante a Segunda Grande Guerra. Durante mais de meio século, enquanto ainda vivos, meus pais jamais comentaram em casa a experiência que tiveram do Holocausto. Apenas para resumir esta história – se é que isto é possível em tão poucas palavras – a partir de 1930, todo judeu húngaro, vivo ou ainda por nascer, estava condenado à morte. Entrava em vigor uma série de decretos que excluíam os judeus de todos os segmentos da atividade economica e social. Não podiam estudar em escola superior, não podiam trabalhar em grandes empresas, nem sequer podiam utilisar transporte público, e os oficiais graduados das Forças Armadas, que por sua bravura haviam sido condecorados com as mais altas insígnias após a Primeira Grande Guerra, foram expostos às mais degradantes humilhações.

Aliada que se tornou da Alemanha nazista, a Hungria muitas vezes superou os alemães na sua aversão aos judeus, e colaborou na solução da “Questão Judaica” com tal zelo, que nos últimos meses de 1944, as “fábricas” de extermínio em Auschwitz já não davam conta da tarefa, e os trens de carga vindos da Hungria, abarrotados de homens, mulheres e crianças, continuavam a chegar. De um total de cerca de 800 mil judeus húngaros deportados de suas casas, 600 mil foram exterminados, e apenas 200 mil sobreviveram, muitos dos quais, por surpreendente que pareça, corpo e alma em frangalhos, retornaram para suas antigas casas, sucessivamente despojadas do seu conteúdo material e espiritual.

Susana e Maximiliano Klein, meus pais – que descansem em paz – , se casaram em abril de 1944, e, como numa tenebrosa viagem de núpcias, em junho do mesmo ano estavam num desses trens que os transportaria para Auschwitz, não fosse um desses desvios de percurso com que o destino às vezes nos surpreende. A estrada de ferro em Kassa (Kosice, na antiga Checoslováquia) foi destruída, e os trens tiveram que interromper a viagem por uma semana, enquanto aguardavam a sua reconstrução. Foi o tempo suficiente para que o Governo da Áustria, igualmente colaborador do regime nazista, recrutasse um contingente humano de 17 mil judeus acampados em Strasshof, para trabalharem na agricultura. Mais do que um projeto de gente, um ser humano em formação, eu também estava entre essas pessoas que desta forma foram poupadas. Daí ser Dürnkrut, na Áustria, a minha cidade natal. É importante salientar que, reconstruída a estrada de ferro, o transporte de judeus da Hungria para os campos de extermínio prosseguiu a pleno vapor, até o último dia da ocupação alemã.

Retornando à questão que você coloca, não posso dizer que ter feito da minha vida o que eu fiz tenha sido uma “necessidade”, muito menos de “fazer contraste” com o que quer que seja. Foi antes de tudo uma procura constante por conhecimento, e uma liberdade de expressão que meus pais sempre me concederam, numa espécie de auto-compensação, pelo fato de terem sido privados da possibilidade de estudarem quando jovens. Como eu disse antes, até recentemente minha “relação” com o Holocausto era bastante distante, sobretudo porque passei a maior parte da minha vida no Brasil, onde a discriminação racial é insignificante, e onde o tema – para todo brasileiro – é pouco mais do que um triste capítulo da História da Humanidade (ou será da Inumanidade?)

Já a respeito da Hungria, onde vivo atualmente, não se pode dizer o mesmo, pois em alguns segmentos da população o ódio aos estrangeiros em geral, e aos judeus em particular, continua tão visceral quanto sempre foi. Penso que conjecturar sobre como teria sido minha vida se o Holocausto não tivesse existido é um exercício inútil. Talvez nunca tivesse saído da Hungria, talvez não tivesse conhecido de perto tantas pessoas e tantas culturas diferentes…. mas uma coisa é certa: sem dúvida, eu seria artista plástica.

O seu fascínio por casas, patente nas suas obras e aparente nos seus estudos, indicia que se sente desenraizada?

O “fascínio por casas” que você diz ser “patente nas minhas obras” é apenas um dos aspectos do meu trabalho. Na realidade, comecei minha atividade artística muito jovem, e num primeiro momento, eu fazia “arte” no sentido convencional do termo, pintando óleo sobre tela, lápis, carvão, guache e aquarela sobre papel, etc. Pintei naturezas mortas, paisagens, figuras humanas, casarios, e fiz até algumas incursões pelo abstracionismo. A fase da colagem teve início nos anos 90, quando apresentei alguns dos meus projetos de arquitetura desta forma. Com a ajuda de programas de design gráfico, um trabalho foi “puxando” outro, e quando me dei conta, estava achando fascinante “desenhar” com a régua, o estilete, a tesoura e a cola, inicialmente usando papel colorido, logo passando para outros materiais, texturas e volumes.

Em comparação com outras técnicas de trabalho, como por exemplo a pintura a óleo ou acrílica, considero a colagem um processo bem mais limpo e sadio, pois, terminado o trabalho, num piscar de olhos passo o aspirador de pó e está tudo limpo, e ainda tenho a vantagem de poder “mexer” as pecinhas e mudá-las de posição à vontade, até obter o resultado satisfatório.

Esta fase mais recente do meu trabalho requer tranquilidade e paciência ilimitadas, condição de que só tenho podido desfrutar aqui em Budapeste, longe da loucura que foi minha vida em São Paulo. Eu ser “desenraizada” é um fato, não uma sensação, pois não lembro de ter morado em nenhuma casa, dentre as inúmeras que habitei, por um período mais longo do que três a quatro anos. Entretanto, este “desenraizamento” não é uma sensação desagradável. É antes de tudo uma indicação de que estou sempre disposta a mudar, se for para melhor, e que nada é para sempre. Mas a história de como eu vim parar aqui – de novo – por um louco amor que me fez largar tudo no Brasil, até meu cachorro Bruno, e vir passar o resto da minha vida ao lado de György Sessler, fica para uma outra vez.