Nuno Júdice: “Era um homem único em tudo. É difícil pensar nele como alguém que já tenha partido”

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Não estou enganada se disser que o Nuno era amigo do Luis Sepúlveda?

Sim.

Como é que se conheceram?

Conheci-o quando ele me convidou há muitos anos para ir ao festival que organizava em Gijón, para uma leitura de poesia, e foi lá que o conheci.

E depois, tiveram logo afinidades?

Fomo-nos encontrando várias vezes em encontros literários, em visitas que ele fazia a Lisboa de vez em quando.

Ele era muito amigo do nosso país, não é?

Sim.

Então, que impressões é que guarda dele? Como pessoa, como é que era o Luis Sepúlveda? 

Como pessoa era de uma simpatia muito grande, estava sempre a contar as histórias da vida dele, e depois tinha sempre ideias sobre o que se estava a passar, sobre a literatura, portanto era conversador e tinha conversas que duravam às vezes até muito tarde. Portanto, era alguém que de facto praticava o convívio e julgo que era isso que também alimentava muito a sua literatura.

O Nuno é poeta, o Luís Sepúlveda ficcionista. Imagino que também falavam de livros. 

Sim, já não me lembro bem do que é que falávamos. Penso que ele gostava de poesia, mas penso que o que lhe interessava mais era sobretudo ficção. Mas, enfim, nesse encontro em Gijón, lembro-me como ele estava atento nas leituras que se fizeram de poesia, naquele grande teatro que havia na cidade. E, portanto, era alguém muito sensível à qualidade e deixava-se envolver também pela palavra.

Às vezes quando ele contava histórias da vida dele e da clandestinidade, da guerrilha, eu perguntava-me se muitas dessas histórias não seriam imaginação. Mas encontrei em Bucareste um poeta francês que também esteve no Chile naquela altura e ele, sem eu ter puxado pela conversa, de facto falou-me da sua relação com o Sepúlveda e de como passaram pelos mesmos movimentos políticos, e pela guerrilha na altura. Portanto, ele de facto foi um homem de ação e, por muito que pudéssemos pensar às vezes que ele estivesse a efabular, realmente havia uma realidade concreta nessa experiência que ele nos narrava. Embora sempre com algum cuidado porque penso que foi de facto uma experiência muito traumática, sobretudo na parte do Chile.

Creio que esteve com o Luis Sepúlveda recentemente. Quer contar-nos em que ocasião?

A última vez foi quando ele veio comemorar os 70 anos a Lisboa, no final do ano passado, e a sua editora fez um jantar para amigos. Foi muito bonito esse jantar, e foi comovente, não é? Nunca me passaria pela cabeça que tivesse sido a última vez que eu ia estar com ele, e ele estava de facto em plena forma. Portanto, era alguém que tinha muitos projetos, que tinha pela frente ainda muita coisa para fazer.

Se tivesse de falar do trabalho do Luis Sepúlveda para quem não conhece, uma vez que ele agora já não está connosco, o que é que diria? Porque é que vale a pena ler o Luis Sepúlveda?

Tem uma ficção, de facto, única e sobretudo uma capacidade tremenda de às vezes ter uma ideia que parece muito simples e depois consegue construir uma narrativa a partir daí, e consegue transformar o que parecia ser muito realista, fazê-la passar para esse tal lado fantástico que está dentro da tradição da literatura sul-americana. Portanto, pela imaginação e pela qualidade de escrita que ele tem, duas coisas que se juntam perfeitamente. Enfim, não é propriamente um romancista, os livros dele enquadram-se mais na novela, que é uma grande tradição ibero-americana. Portanto, ele está de facto dentro dessa linha do contador que tem vindo do Cervantes? São pequenas novelas que se vão encaixando dentro daquele conjunto que faz o romance. Portanto, ele vem de facto dessa longa tradição dos contadores que vêm do início da ficção.

Como é que se vai recordar dele?

Como uma pessoa com uma enorme simpatia, de uma qualidade de relações humanas única, e por aquele aspecto, pela figura física que era de como o vemos nas fotografias. Era um homem único em tudo, e é difícil de pensar nele como alguém que já tenha partido, continua, para mim, a ser presença constante. 


Entrevista realizada por Raquel Marinho