José Luís Peixoto: “Eu acho que o Luis Sepúlveda deu corpo a algumas das características fundamentais do que é a literatura”

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Recordas-te de quando conheceste o Luis Sepúlveda?

Eu conheci o Luis Sepúlveda em 2001, na segunda edição das Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim. Na altura para mim era tudo novidade, na verdade, o próprio festival estava também a começar, mas para mim era novidade participar assim em encontros com escritores. O Luis Sepúlveda era um dos nomes mais conhecidos que participava, eu próprio já tinha lido, se não estou em erro, dois livros dele e, portanto, foi assim com um certo fascínio que tive a oportunidade de falar com ele e de trocar algumas ideias com ele. Depois, a partir daí, surgiu logo também a possibilidade de participar num encontro que, na altura, o Luis Sepúlveda organizava em Gijón, que era o Salão do Livro Ibero-americano. E aí começámos a aprofundar a nossa amizade que foi decorrendo em vários lugares ao longo dos anos.

E essa primeira impressão que tiveste no encontro com ele na Póvoa do Varzim, nas Correntes d’Escritas, como é que foi? Era um escritor que tu admiravas, também já escrevias… Qual foi a impressão com que ficaste dele?

Eu tinha essa questão de já ter lido aquilo que ele escrevia. Tinha lido “O Velho que Lia Romances de Amor”, que foi um livro que teve um impacto enorme no final dos anos 90 em Portugal, e a partir daí, li mais alguns livros, dos quais me lembro o romance policial que se chama “O nome de toureiro”, que na altura também me agradou bastante. E então, o meu primeiro impacto foi muito marcado por já ter essa relação a partir da leitura, e a memória que eu tenho é esse confronto entre alguém que eu já imaginava à distância da leitura, alguém que eu de alguma forma mitificava, porque essa relação permite sempre, não é, uma certa mitificação, e depois estava ali. Lembro-me de todo aquele colorido latino-americano que o Luis Sepúlveda tinha, e como isso também era impressionante para mim porque, na altura, eu nunca tinha viajado sequer à América do Sul, e portanto tinha uma visão também um pouco distante de todas essas realidades.

Esse colorido de que falas prende-se também com o facto de ele ser um bom contador de histórias? Eu tenho visto entrevistas que tens dado, e tens referido isso, o facto de o Luis Sepúlveda ser um bom contador de histórias. Isso inclui-se no colorido de que falas?

Essa é uma característica que muita gente lhe nota, porque efetivamente, quando havia algum momento para estarmos à vontade, o Luis Sepúlveda era como uma fonte de histórias; eram constantes, e todas elas completamente cativantes e cheias de situações imprevistas. Aliás, vê-se muito na sua escrita, era um autor que nos dava aquele mundo que nós conhecemos a partir do realismo mágico, o mundo justamente em que o milagre é quotidiano e em que tudo pode acontecer, não é? E quando as questões se desenvolvem acabam sempre por ter um desenlace mais invulgar. E também era assim nas histórias que contava em convívio, e eu acho que tinha que ver com o seu olhar, a forma como ele olhava para o próprio mundo já era a interpretá-lo dessa forma, já era a encontrar-lhe esses personagens e esses elementos.

Vocês voltaram depois a cruzar-se muitas vezes em vários países do mundo, os tais que não conhecias em 2001. Esses encontros posteriores como é que eram?

Depois tive a oportunidade de encontrá-lo em diversos lugares. Lembro-me, por exemplo, de termos estado juntos na Colômbia, em Porto Rico ou em outros lugares onde efetivamente o Luis Sepúlveda estava verdadeiramente em casa. Porque é claro que nós sabemos que ele é chileno e que esse é o seu país mas sinto que de alguma forma toda a América Latina era a sua casa também. E pronto, foi muito gratificante ter estado com ele nesses lugares e tenho as melhores memórias. Mas, já agora, também acho que ele transformou um pouco Gijón e as Astúrias num cantinho da América Latina porque, também aí, enquanto fez o Salão do Livro Ibero-Americano, convidou autores e autoras verdadeiramente de toda a América Latina e, ao longo do tempo, também em viagens que fiz nesses países, não foram poucas as ocasiões em que reencontrei pessoas que tinha justamente conhecido em Gijón, como por exemplo, autores da Venezuela, do Peru, do México etc., e isso também revela um pouco o que é que era o ADN deste escritor e desta pessoa.

O Luis Sepúlveda é um escritor amplamente lido em Portugal e no mundo, e está traduzido para muitos países. Ainda assim haverá, quanto mais não seja nas gerações vindouras, quem não conheça e não o tenha lido. Se tivesses de falar dele ou de dizer a alguém porque é que vale a pena lê-lo, dirias o quê?

Eu acho que o Luis Sepúlveda, naquilo que escreveu, deu corpo a algumas das características fundamentais do que é a literatura, sobretudo na sua dimensão de sonho, na sua dimensão de viagem, dentro dos elementos, da memória, das possibilidades da imaginação. Sinto que, ainda hoje, neste preciso momento, o Luis Sepúlveda é bastante lido, pelo menos aqui em Portugal, inclusivamente sei de escolas que trabalham a sua obra, até mesmo com os livros que escreveu que são mais acessíveis a leitores jovens, e penso que é um pouco por aí. As suas fábulas mais conhecidas, por exemplo, são portas de entrada muito interessantes para o seu trabalho. Mas claro, para outros leitores que tenham vontade de textos que apresentem um outro nível de complexidade, há os livros que, inclusivamente, abordam temáticas ecológicas, políticas. Também tem bastantes livros, de certa forma, ensaísticos ou do âmbito da crónica acerca do nosso tempo e das questões do nosso tempo, uma vez que ele também nunca perdia oportunidade de ser interventivo e de deixar bem claro as suas posições, e portanto, acho que não faltam possibilidades de conhecê-lo e de descobri-lo.

Estiveste até agora a falar das razões pelas quais as pessoas devem lê-lo e conhecer a sua obra literária. Pessoalmente, como vais lembrar o Luis Sepúlveda? 

Eu estive com ele agora, recentemente, em fevereiro, na Póvoa de Varzim. É tristemente circular esta nossa relação, porque nos conhecemos nas Correntes d’Escritas e foi também aí que nos vimos pela última vez. E, portanto, aquilo que eu recordo é alguém sempre otimista, alguém sempre positivo perante qualquer adversidade, mesmo em momentos difíceis. Lembro-me, por exemplo, de ter estado com ele na última edição desse Festival do Salão Ibero-americano do Livro que fazia em Gijón e de ter sido um pouco triste o fim desse encontro, que já tinha uma certa tradição, mas mesmo em momentos como esse, ele tinha sempre ânimo e olhava sempre para o futuro e isso é um exemplo, e acho que é também um exemplo de como a escrita, os livros, se podem integrar com a vida e com algo que é maior e que tem a ver com a nossa relação com os outros, e com fazer aquilo que achamos certo.


Entrevista realizada por Raquel Marinho