Jose Javier Villarreal: “Os livros, a música, o cinema têm sido não refúgio mas possibilidade de vida, de respirar, de me mover, e também de me enfrentar”

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– Jose Javier Villarreal, obrigada pela amabilidade de conversar com a Casa da América Latina sobre estes dias de quarentena. Tendo em conta o que podemos observar na rede social Facebook, tem partilhado leituras de poesia diariamente dando sugestões aos seus seguidores. Então, permito-me perguntar-lhe se o faz porque a leitura de poesia é um hábito diário ou porque acredita que a poesia pode ajudar as pessoas durante estes dias de confinamento. 

Antes de qualquer coisa, quero agradecer à Casa da América Latina de Portugal este convite. No que diz respeito à sua pergunta, é um exercício diário. Eu leio poesia todos os dias, é uma prática de vida, é um prazer, uma grande alegria para mim e uma possibilidade de viver vidas, de entrar em dimensões que talvez não fossem para mim mas que quando abro um livro se abrem. E agora nesta pandemia, neste encerramento, acredito que é não uma janela mas uma porta enorme que se abre a quem está no seu espaço e pode aceder a espaços inumeráveis.  

– E qual tem sido o feedback dos seus leitores e seguidores a respeito desta partilha diária de poesia?

Tem sido diverso e muito surpreendente. Havia títulos de autores que chamavam mais a atenção ou eram mais familiares de um público, outros menos. Também está a ser como um termómetro sobre o que lemos, quais são os nossos hábitos de leitura nesta comunidade que é o facebook. Também estou consciente que é uma proporção pequena de uma comunidade muito maior que é a de leitores. 

– Acredita que a poesia pode ajudar as pessoas a passar por estes momentos difíceis de reclusão?

Parece-me que há uma, entre muitas, divisões entre a literatura e a poesia. Creio que o romance, a ficção, o relato da literatura que é esplêndido e maravilhoso, nos traz muitas possibilidades de evasão, de fazer de conta que somos outros, que estamos noutro lugar, que vivemos outra vida. Mas creio que a poesia não. A poesia é sempre a Raquel, é sempre eu, é sempre Lisboa, é sempre Monterrey. E creio que, nesse sentido, não sei se nos ajuda ou se nos confronta e enfrenta, e se converte num espaço muito amplo de reconhecimento, onde não nos resta outra hipótese que não seja vermo-nos ao espelho. E neste encerramento, nesta pandemia, as possibilidades de nos reconhecermos são muitas e creio que a poesia nos enfrenta e nos revela a nós mesmos. Creio que o romance nos permite vermo-nos como os outros nos vêem, mas a poesia, às vezes, permite-nos vermo-nos como ninguém nos vê, salvo nós próprios, ou como quem sabe nem nós mesmos nos queremos ver, e confronta-nos com uma imagem que pode ser muito dura mas também pode ser muito amorosa.

– O José Javier está à frente da biblioteca de Monterrey. Podemos dizer que é um trabalho importante, uma vez que se trata de cuidar de um legado. Como são os seus dias? Ou melhor, como eram os seus dias antes do confinamento? 

Os meus dias são fabulosos. São uma aventura quotidiano. Temos aqui acervos muito importantes, como por exemplo de Alfonso Reyes. Alfonso Reyes foi um leitor, digamos, voraz, que abriu a literatura mexicana às literaturas. Então, estar à frente de uma biblioteca destas dimensões é uma responsabilidade muito boa e muito prazenteira, porque são como duas caras da biblioteca. Por um lado o cuidado dos livros, os acervos, as questões administrativas, as pessoas que trabalham aqui, e por outro lado, a outra cara, é a imagem, o peso social e cultural da biblioteca de uma biblioteca, da universidade e da nossa comunidade, universitária e nacional.

– E acredita que esse peso é significativo, que as pessoas lêem?

Estou convencido que sim, as pessoas lêem. Não tenho visto a preocupação que havia há uns anos de que os livros iam deixar de circular, que o livro eletrónico estava a ocupar o seu espaço. Eu creio que não, que o que se passa é que os espaços se dividem. O livro eletrónico aí está com todas as suas possibilidades e maravilhas, mas também está o livro físico, o objeto que se aproxima de nós e nos aquece. Então, eu creio que há uma comunidade de leitores.

– Agora, e mudando de assunto, queria perguntar-lhe como têm sido os seus dias de reclusão. E também, como nos contaria os dias das pessoas da sua cidade.

Está a ser difícil. Sobretudo para esta cidade de Monterrey, que está a norte, é digamos uma cidade industrial. Este confinamento tem sido difícil e complicado. Por um lado está o sector da sociedade que não pode sair, que neste momento são os jovens, e há uma quantidade de pessoas muito ampla que tem de sair, que estão trabalhar, e que tornam possível que outro sector da população possa resguardar-se. Então, é difícil ter uma cidade tão aberta a empresas, à indústria, à produção. Está a custar muito.

– Quando pode sair de casa, para ir ao supermercado, ou à farmácia, o que encontra é uma cidade muito diferente, imagino, do que costuma ser.

Muito diferente. Monterrey é uma cidade com muita população e de muito movimento, e o que se vê agora é uma cidade encerrada. As ruas vazias, as filas para os bancos, o acesso ao supermercado controlado. Antes era muito frequente ver famílias no supermercado, agora são pessoas isoladas porque não se permite que vão mais pessoas, obviamente. E sim, é uma mudança muito drástica, muito impressionante, que, imagino, vai deixar cicatrizes. Não sei como nem as repercussões que terão estas cicatrizes mas creio que vamos enfrentar um mundo obviamente diferente do que tínhamos.

– E no seu caso, como têm sido para si estes dias? 

Para mim pessoalmente também houve uma mudança muito grande. Por um lado, antes desta pandemia havia uma atividade muito intensa, que parou, obviamente, para todos. E, bem, os livros, a música, o cinema, têm sido, não refúgios mas possibilidades de vida, de respirar, de me mover, e também de me enfrentar. Não vejo como uma ação puramente paliativa mas sim como oportunidade para entrarmos num mundo que já aí estava, e onde agora nos permitimos entrar. Um mundo da solidão, de recolhimento, ou da noite, e agora podemos vivê-lo na plenitude. E é bom, porque normalmente é um mundo que não nos permitimos viver com consciência, passamos por ele e nada mais.

– Para terminar, queria perguntar-lhe se tem escrito poesia durante estes dias de confinamento. 

Sim, sim, estou a escrever. Não é algo premeditado, nunca escrevi dessa forma com um tema para desenvolver. Normalmente sou assaltado pela escrita. Sim, estou a escrever e também a ler muito. E bem, creio se isto que nos está a acontecer estiver naquilo que escrevo será um acidente, não um objetivo inicial.


Entrevista realizada por Raquel Marinho

Foto: Santiago Javier Villarreal