Dalita Navarro: “O coração contém a paixão, o ódio, a alegria, a felicidade, o amor…”

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A artista colombiana Dalita Navarro traz à Casa da América Latina a exposição “Viagem ao Coração de Barro”, entre os dias 4 de setembro e 4 de outubro. Após a sua chegada a Portugal, a Casa da América Latina conversou com a artista.

– Que viagem é esta?

– A Viagem ao Coração é um trabalho que começou por ser em taças e vasilhas, e que depois, sendo uma viagem minha, evoluiu para o coração. Porque o coração, tal como as taças, contém a paixão, o ódio, a alegria, a felicidade, o amor, e esse foi o início. E o título foi posto pelo meu marido (Belisario Betancur), que morreu no final do ano passado, e que escreveu também parte do catálogo, e ele pôs esse título “Viagem ao Coração de Barro”.

– É uma viagem que, sendo pessoal, é também uma viagem pela história. Cruza as duas?

– Sim. Bem, comecei com a minha história e em algum momento decidi que ia trabalhar o mais simples e o mais sensível. Tenho trabalhado sempre a escultura, e no final do ano passado decidi trabalhar materiais mais sensíveis, coisas que contêm, as coisas que usamos para comer. Apesar disso, fui estudando a vasilha, que as pessoas pensam que não tem valor mas que realmente, quando nos pomos a pensar, tem muito valor, muita história. E daí passo a um lugar que há em Alicante que se chama Las Cuevas de L´Oere, onde se descobriram muitas peças que tinham muita textura, e a textura era feita com as conchas que têm forma de coração. Então, eu creio que isso foi como uma descoberta. De verdade, entendi a mensagem: “sim, encontro escultura e as coisas estão relacionadas. Porque ao mesmo tempo que é o que contém tem forma de coração.” E então lancei-me pelo coração.

– Podemos encontrar alguma analogia entre a sensibilidade do material que usa e a sensibilidade do coração?

– Eu creio que há muita. Da terra vimos e para a terra vamos. Eu acredito que sim sobretudo pelo que contém. O coração contém uma coisa que se chama sangue. Há azul, há vermelho, mas é o mesmo líquido. E falo em azul e vermelho porque é assim que o pintam, mas se furarmos um não há coração azul, não há sangue azul, e é nesse momento que começamos a questionar-nos. Todos somos iguais e voltaremos à terra.

– A Dalita Navarro fez também uma ligação entre estas peças e a poesia.

– Sim. Tive sempre o hábito de, assim como os artistas que pintam põem o nome, dar um nome às obras se as sinto dessa maneira. Inspirei-me muito na poesia, na canção popular, num movimento que tem coisas maravilhosas escritas em grafitis nas paredes. Então pensei: se me inspiro nestas palavras, por que não dedicar-lhes as peças? Todos os corações que vão estar na Casa da América Latina foram feitos para esta exposição, mas a última peça, que tem uns 40 centímetros, dediquei-a a Leonardo Da Vinci, que temos muito a agradecer-lhe também. Ele fez um trabalho muito importante sobre o coração. E eu humildemente, com o meu material que é o barro, que há em todo o lado, dedico-o a Leonardo Da Vinci e aos seus 500 anos.      

– Acredita que a sua abordagem a um material que não é visto como muito nobre pode acabar por enobrece-lo?

– Bem, creio que já há muita gente que deu a categoria e o estatuto que o barro deve ter. Porque primeiro não é um barro em si, é todo o trabalho que tem um ceramista, um oleiro, um escultor da cerâmica popular. É um trabalho que não se fica apenas pelo barro, terminamos a trabalhar e a lutar com o fogo, e aí é a surpresa, o último toque. Por muito que se maneje o material, por muito que se maneje o esmalte ou o engobe, que é o material que eu utilizo, que se faz com a mesma pasta do barro, quando o terminas tens uma surpresa. Nunca fica igual. Então, acredito que na Europa e nos Estados Unidos deram muito estatuto à cerâmica. Em Londres, em Paris, em Espanha. Aqui, já vi trabalhos em barro que são interessantes. Então, acredito que eu trago um grão de areia para os ceramistas e os oleiros.

– Para terminar, que diversidade de corações vamos poder ver nesta exposição?

– Bem, há cerâmicas de corações que vêem, cerâmicas que representam corações partidos, há outra de um mexicano que diz: “Eu dei-to inteiro// Em pedaços não o quero// Podes ficar com ele”. Então, inspirei-me em canções e em poesia, por exemplo de Antonio Machado, e tento que tudo esteja relacionado. E por último, há uma escultura que é um coração com asas de prata que é dedicado ao fado. Eu sou fã amorosa e ardente de fado, então dedico uma das obras ao “coração independente, coração que não comando”, (começa a cantar), “vives perdido entre a gente, imensamente sangrando”. Essa é a última peça e dedico-a ao fado.

Entrevista realizada por: Raquel Marinho