Carlos da Veiga Ferreira: “Para mim a Gabriela Mistral é uma poeta mais importante do que o Pablo Neruda”

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No ano em que se assinalam os 130 anos da poeta chilena Gabriela Mistral, fomos conversar com o editor que a publicou pela primeira vez em Portugal, em 2002. Carlos da Veiga Ferreira contou-nos da importância desta edição “Antologia Poética”,  do que em sua opinião Gabriela Mistral representa enquanto escritora, e também de muitos autores latinoamericanos que publicou e continua a publicar.  

Carlos da Veiga Ferreira, estamos cá a propósito dos 130 anos de Gabriela Mistral e deste livro “Antologia Poética”, com seleção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral, editado pela Teorema em 2002. A edição em português desta poeta chilena foi uma escolha sua. Porque decidiu editá-la?

Eu conhecia muito mal a poesia da Gabriela Mistral mas sabia que ela tinha vivido em Lisboa, e até sabia pelo menos uma das casas onde ela tinha vivido. Na altura em que tive acesso ao discurso de aceitação do Prémio Nobel, onde ela diz em dada altura que recebe o Nobel em nome das nobres línguas castelhana e portuguesa, eu pensei para mim próprio que era uma vergonha, tendo a senhora vivido em Lisboa, tendo escrito uma parte substancial da obra dela, que alguns dizem a mais importante, em Lisboa, declarando no Prémio Nobel que o recebia também em nome da nobre língua portuguesa, que era uma vergonha, dizia, que ela nunca tivesse sido publicada cá. E então convidei o Fernando (Pinto do Amaral) para fazer uma antologia e traduzir, e ele assim fez. Entretanto, eu até suponho que foi em consequência disso que inauguraram um monumento à Gabriela Mistral em frente à mesquita de Lisboa, porque ela viveu ali no Bairro Azul. E é de facto uma grande escritora. E era para Portugal uma vergonha ela ainda não estar publicada.

Deu-nos o enquadramento sobre as razões da publicação da Gabriela Mistral em Portugal. E em relação à obra dela, como falaria da obra dela?

Para mim é uma poeta mais importante do que o Pablo Neruda. Porque é uma poesia menos engajada e mais, digamos, mais pura. No entanto foi ela que descobriu o Pablo Neruda.

Ah foi?

Foi, foi. Ele foi aluno dela numa escola e muito cedo, aos 14 ou 15 anos, foi ela que o descobriu. Curiosamente quem os editou – ela não estou certo, mas o Pablo Neruda foi -, quem os editou foi um editor que vivia no Chile e que nasceu na Ilha do Corvo, nos Açores, chamado Jorge Nascimento. Saiu do Corvo com 9 anos, foi para a Califórnia, da Califórnia passou ao Chile onde eu suponho que ele tinha alguém de família, e tornou-se o editor mais importante do Chile, e assim se manteve até morrer. E portanto, também essa é uma ligação curiosa, porque de facto foi um editor português que publicou o Pablo Neruda, e é tanto mais espantoso quando se trata de um jovem que saiu do Corvo com 9 anos. O Corvo é uma ilha praticamente inexistente, ainda hoje não tem 500 habitantes. Imagino que ele já saberia ler, pouco, rudimentarmente, mas de facto transformou-se num espantoso editor, quer pelos autores quer pelo cuidado da edição.

É curioso o Pablo Neruda ter sido descoberto pela Gabriela Mistral porque, tendo ambos ganho o Nobel, ele será bem mais conhecido do que ela.

É. E imagino que seja também porque o Neruda teve o Nobel muito mais tarde e, portanto, numa altura em que se dava uma grande importância ao Nobel. Ela teve-o bastantes anos antes, e não havia a comunicação que há hoje ou que já havia no tempo em que o Neruda o recebeu, e portanto…

A informação ficava mais limitada localmente…

E para além disso o Neruda, precisamente por causa do aspeto político da sua obra, contou também com a caixa de ressonância dos partidos comunistas por esse mundo fora.

Dizia-me há pouco que considera a Gabriela Mistral melhor poeta do que o Pablo Neruda por ser menos engajada e mais pura.

Sim. É uma poesia sem grandes floreados, como sabe, e muito agarrada ao cerne da questão. Eu considero-a, de facto, mais importante que o Neruda embora tenha uma obra muito mais pequena. Ela publicou 4 ou 5 livros.

A Gabriela Mistral é apenas um exemplo de uma autora latinoamericana que o Carlos da Veiga Ferreira publicou em Portugal. É conhecida a sua dedicação pessoal e depois profissional ao Jorge Luis Borges, mas não é o único autor latino-americano, há muitos mais. Acha que se podem distinguir características distintas entre os diferentes países da literatura latino-americana?

Eu não acho que se possa dividir por países, pode-se é dividir por autores, porque em cada país há autores muito diversos. Eu desde miúdo que ia muito para Espanha e desde miúdo que lia bem espanhol. E então, tinha lido muitos autores espanhóis e depois fui surpreendido, surpreendido não porque já conhecia o Miguel Ángel Asturias, um outro Nobel sul-americano, mas depois apareceu o Boom (latinoamericano) e o Boom deslumbrou-me, e depois liguei-me muito à América Latina e publiquei autores de todo o lado. Do Chile, de que me lembro, publiquei um homem que foi muito amigo do Neruda chamado Francisco Coloane, do qual publiquei 5 ou 6 livros. Conheci-o cá em Lisboa, ele veio cá na altura da Expo. Outro chileno, o Antonio Skármeta, que é o autor d´O Carteiro de Pablo Neruda, de quem também publiquei praticamente os livros todos. E quando saí da Teorema e criei a Teodolito recomecei a publicá-lo. Ainda no ano passado publiquei outro chileno chamado Pablo Azócar, que apresentou o livro na Casa da América Latina. Depois por aí fora, Bolívia, Colômbia, depois para baixo, na Argentina, o (Jorge Luis) Borges, obviamente. O Obra Completa, mais a Obra Completa em Colaboração, mais dois livros que não estavam incluídos na obra.

O Jorge Luis Borges era uma uma escolha pessoal antes de ser profissional.

Sim. Eu descobri o Borges de uma maneira pouco ortodoxa. Nos anos 60 foi publicado em Portugal um livro de 2 franceses que era um livro curioso, de coisas curiosas. Chamava-se O Despertar dos Mágicos, e no meio do livro aparecia um conto completo do Borges que era uma coisa completamente fora de tudo o que eu conhecia, “O Aleph”. Eu li ali “O Aleph” e depois não descansei enquanto não arranjei mais livros dele, isto muito anterior à minha incursão pela edição. Fui procurando tudo o que havia. Comprei a primeira edição das Obras Completas, que cá em Lisboa era vendida na livraria Romano Torres, que já não existe há muito tempo, ali ao pé da igreja de São Mamede, e fui continuando. Quando comecei a editar comecei a procurar como é que havia de chegar ao Borges. Acontece que quando ele morreu os direitos ficaram digamos que cativados, porque houve uma série de questões judiciais da irmã, da mãe, da Maria Kodama, coisa que durou mais de 10 anos. Até que finalmente o tribunal decidiu a quem é que os direitos pertenciam e eu pude adquiri-los para publicar em Portugal, e publiquei-o numa parceria com o Círculo de Leitores. Eu fiz a edição para livrarias e o Círculo de Leitores fez para o clube. Lembro-me até que nessa altura o Fracisco Belard do Expresso me dizia: “eh pá, estás tramado. Vais dar cabo da editora porque isso não se vai vender nada, é um livro caro…” Mas ele estava enganado e eu sabia que ele estava enganado, porque vendi bastante. Do primeiro volume fiz talvez 13 edições e do segundo duas. E era um livro caro, de facto.

Mas então, estava a falar-me dos autores latinoamericanos que publicou.

México, também alguns. Brasileiros. Enfim, cobri uma parte grande da América Latina assim como de Espanha. Agora não sei, mas de Espanha, quando deixei a Teorema eu era seguramente quem tinha publicado mais autores espanhóis.       

Há pouco perguntava-lhe se podíamos falar de características específicas de cada país latino-americano e o Carlos disse-me que não mas de autores sim. E da literatura latino-americana, daquela zona do globo, podemos identificar características que a distingam de outras?

Eu tenho muita dificuldade em identificar géneros literários com países completos. Há uns anos publiquei, ainda na Teorema, e tenho vindo a publicar na Teodolito o resto da obra, uma francesa chamada Maylis de Kerangal. O primeiro livro dela que eu publiquei chama-se “O Nascimento de uma Ponte” e é um romance americano. Ela é francesa e esse romance é um romance que podia ser americano. É claro que os teóricos podem encontrar aqui e ali umas linhas orientadoras que poderão fazer a distinção entre literatura inglesa ou russa ou latinoamericana, mas eu tenho para mim que a literatura é uma coisa universal, e que todos os géneros aparecem em todo o lado em períodos históricos coincidentes ou desfazados no tempo, mas a qualidade literária espalha-se pelo mundo todo. E para mim não há distinções e penso que nem é importante que as haja porque a literatura é mais do que o produto de uma pátria ou de um país ou de um continente.

Entrevista feita por: Raquel Marinho