Jornada Sor Juana Inés de la Cruz: A Décima Musa

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“O trabalho de Sor Juana pode ser visto como um modelo para todas as pessoas que valorizam a igualdade das mulheres”

20 de maio
10h00
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Sala Multiusos 2 (Edifício ID)
Entrada livre

Site oficial
Programa

Jantar Vila Galé Ópera

A jornada “Sor Juana Inés de la Cruz: a Décima Musa” tem como objetivo explorar a relação com Portugal da monja jerónima mexicana Sor Juana Inés de la Cruz (1648?-1695). Serão abordados, entre outras temáticas, a sua relação com a obra do Padre António Vieira, os poemas que escreveu a pedido das freiras da Casa do Prazer e a sua amizade com a Duquesa de Aveiro. Procura-se descobrir novas ligações entre a obra da “Décima Musa” com a literatura, a arte e a ciência do universo luso-hispano, contando com a participação de especialistas de várias universidades europeias e americanas.

Patricia Saldarriaga é investigadora e professora catedrática no Middlebury College (Estados Unidos). Atualmente é também investigadora visitante no Centro de Humanidades (CHAM) /Universidade Nova de Lisboa. A sua investigação concentra-se na Época Moderna, em particular no espaço transatlântico, embora também desenvolva trabalhos de investigação ligados à teoria da literatura, arte colonial e europeia, poesia contemporânea e cultural visual contemporânea.

É uma das participantes da “Jornada Sór Juana Inés de La Cruz: A Décima Musa”, e conversou com a Casa da América Latina sobre a importância de conhecer e estudar esta mulher do século XVII.

– A vida de Sor Juana Inés de La Cruz abarca várias dimensões de interesse académico mas não só. Quais são e por que razão são importantes até aos dias de hoje?
A vida de Sor Juana Inés de la Cruz é muito importante porque ela é considerada a primeira feminista das Américas. As suas obras constituem um dos primeiros esforços para alcançar a valorização da mulher, a igualdade entre géneros, a obtenção da mesma educação e para conquistar outros direitos. É precisamente por isso que o seu trabalho foi lido desde ao século XVII e continua a ser lido no século XXI.

– Diria que foi uma mulher (ou desde cedo uma criança) à frente no seu tempo? Porquê?
Ela sempre foi uma mulher excecional. Pode-se dizer que ela era uma mulher avant-la lettre. Desde que era uma criança, ela demonstrou uma curiosidade por tudo, foi autodidata, sabia ler e escrever desde os três anos de idade. Decidiu ir para o convento para poder estudar e enfrentou as múltiplas limitações que as mulheres tinham na época. E foi uma mulher à frente no seu tempo porque conseguiu ter um espaço próprio para os seus escritos, e o seu estudo das humanidades e das ciências. Era tão boa, e inclusivamente melhor que os homens letrados da sua época. Foi um modelo para muitas mulheres porque procurou a igualdade e denunciou as injustiçias contras as mulheres.

– Naquilo que Sor Juana escreveu há uma reflexão e preocupação com a condição feminina da época. Em que medida esses textos foram auto-biográficos?
Sim, alguns dos textos foram auto-biográficos. O seu Resposta, uma contestação ao Bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santo Cruz (Sor Filotea de la Cruz) é um exemplo porque nessa obra ela escreve sobre os seus esforços para estudar. Apesar das acusações, ela mostra ao mundo o que outras mulheres fizeram ao mesmo antes que ela, e justifica as suas ações porque o objetivo final era aprender as santas escrituras. Outros textos, como por exemplo, O Primeiro Sonho também têm elementos auto-biográficos, embora esteja escrito da forma mais figurativa por temor da Inquisiçāo.

– Através da escrita, Sor Juana Inés de la Cruz manteve contacto com portugueses. Quem são eles e de que tratava essa correspondência?
Acho que esta pergunta é também muito importante porque as jornadas procuram mostrar a profundeza desta relação. Já em 1690 Sor Juana escreve uma crítica a um sermão do Padre António Vieira, texto que em si causou muitos problemas posteriores com a censura. Mas isto mostra que os escritos do Padre Vieira foram também lidos no México. Uma mulher portuguesa que teve um papel muito importante para a difusão da obra de Sor Juana em Portugal foi a Duquesa de Aveiro, a quem Sor Juana dedica um romance. Também conhecida como Maria de Guadalupe e Lencastre y Cárdenas, a Duquesa de Aveiro foi uma das mulheres mais influentes do seu tempo. Ela apoiou as missões católicas das Américas e Ásia. Graças à Duquesa, as freiras portuguesas puderam receber um livro de poemas de Sor Juana intitulado Enigmas, que a freira Jerónima escreveu especificamente para elas. Mas a influencia de Sor Juana em Portugal também foi importante nos escritos das freiras portuguesa do século XVIII, como por exemplo a obra da Soror Madalena da Gloria.

– Para quem não conhece Sor Juana Inés de La Cruz, por que razão diria que vale a pena estudar e aprender sobre esta mulher?
Acho que o trabalho de Sor Juana pode ser visto como um modelo para todas as pessoas que valorizam a igualdade das mulheres. Precisamente no século XXI, quando as mulheres de todo o mundo continuam a sofrer discriminação e violência, é importante ter um trabalho feminista que inspire e saiba como mudar essa situação.

Entrevista realizada por: Raquel Marinho