“A única coisa que faz sentido é a produção de literatura de uma língua”

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No âmbito das VIII Jornadas de Linguística Hispânica, a Casa da América Latina recebeu a conferência “Fronteiras e Literatura”, que teve como moderador José María Santos Rovira, da Universidade de Lisboa.

A Casa da América Latina conversou com o professor.

Esta conversa é sobre literatura e fronteiras. Porque é que este é um bom tema para um debate?

Porque os quatro escritores desta mesa redonda viveram em vários países, a maioria deles em países com uma língua que não é a língua espanhola. Então, podemos colocar a questão assim: realmente acham que um escritor que leva 30 anos a viver nos Estados Unidos da América ainda está a produzir literatura que pode ser classificada como mexicana simplesmente pelo facto de ter nascido no México?

Estamos a falar da Cristina Rivera Garza?

Sim. E, da mesma maneira do resto dos convidados. Acha que um professor que viveu, nasceu em Espanha, mas viveu toda a sua vida, estamos a falar de 30 e tal anos, fora de Espanha, continua a produzir uma literatura espanhola, ou simplesmente é literatura em língua espanhola?

Qual é a sua opinião?

A minha opinião é que no século XXI acabou a questão das literaturas nacionais, simplesmente pelo facto de os escritores terem nascido num país. No século XXI, a questão das fronteiras ficou diluída por causa das crises, por causa das migrações, mas não só. Também umas vezes por causas muito positivas: bolsas, doutoramentos, oportunidades de trabalho. O escritor migrante que até finais do século XX era uma excepção, agora é quase a norma. Então, a produção de uma literatura nacional deixa de fazer sentido. Agora, a única coisa que faz sentido é a produção de literatura de uma língua.

A pergunta então é: se deixamos de poder falar de literatura nacional passamos a falar de quê?

De literatura em língua espanhola, literatura em língua portuguesa ou literatura em língua inglesa, e por aí. Mais nada do que isso. Já não há uma literatura espanhola como um conceito diferenciado da literatura mexicana, literatura argentina, já não faz sentido falar disso no século XXI. Só podemos falar de literatura em língua espanhola, isso é óbvio.

Ainda assim, a literatura de língua espanhola, ou língua portuguesa, ou língua inglesa, e por aí fora, distingue-se das outras por alguma razão?

Por exemplo, a Cristina Rivera Garza nasceu no México, mas a maior parte da sua vida foi desenvolvida nos Estados Unidos da América. A sua formação foi nos Estados Unidos da América, foi em língua inglesa, o seu trabalho é desenvolvido em língua inglesa, a sua vida desenvolvida no dia-a-dia em língua inglesa. Ainda continua a escrever dos mesmos temas, com os mesmos referentes culturais que o escritor mexicano que está a viver no México? Provavelmente não.

Mas também não escreverá sobre os mesmos temas e com as mesmas referencias que os americanos.

Sim, sem dúvida.

Portanto, há qualquer coisa aí no meio.

É assim. Esse é o tema central da nossa conversa. As fronteiras, no século XXI, ficam diluídas a nível de literatura.

E a identidade como fica?

Até agora falava-se em identidades, mas a identidade é questão de herdade. Agora já falamos mais numa questão de identificação, que é uma questão voluntária. Uma pessoa identifica-se com…

É uma escolha.

É assim. Uma pessoa identifica-se como mexicana, como americana, como quer.

Entrevista realizada por: Raquel Marinho