Vencedor do Prémio Leya 2018 apresenta o livro “Torto Arado” em Lisboa

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“Há mais de 13 anos eu trabalho com as populações rurais no Brasil e fui tocado por essa forma de vida e por todo esse desamparo também que eles sofrem.”

Itamar Vieira Junior apresentou ontem em Lisboa o livro “Torto Arado” com que venceu o Prémio Leya 2018. A Casa da América Latina esteve à conversa com o escritor. 

Estamos a meia hora do lançamento deste livro que ganhou o Prémio Leya, o Torto Arado. Qual é a sua expectativa?

É um momento muito importante. Eu fiz um breve lançamento nas Correntes d’Escritas, uma conversa com os leitores, escritores, e foi muito bom. E agora estou aqui em Lisboa para lançar Torto Arado e fui acolhido de uma forma muito especial. 

Era isso que ia perguntar-lhe: como é que foi recebido nas Correntes e agora aqui?

Realmente é muito diferente do Brasil. Eu percebo que as pessoas que se aproximam para entrevistar, para conversar sobre o livro, leram o livro e conversam sobre o livro e estão muito empolgadas, da mesma forma que fui muito bem acolhido pelos escritores. A maioria eu não conhecia, alguns só de nome, e é assim, eles foram muito acolhedores, eu estou me sentido em casa.

Conhece o trabalho dos escritores com quem esteve na Póvoa do Varzim, nas Correntes d’Escritas?

Alguns eu já conhecia. O Nuno Júdice, por exemplo, inclusive ele faz parte do júri. O Ondjaki, o Valter Hugo Mãe que estava lá, a Teolinda Gersão e outros que eu já trouxe os livros para quando regressar ao Brasil poder ler e conhecer.

Então vai mais pesado para casa?

Vou. Vou ter que arranjar uma mala para pagar um extra, também, para levar livros para o Brasil. 

Agora falando do seu livro. Se quisermos explicar, por exemplo, o título, já vamos ter um problema porque já vamos estar a contar o que se passa com uma das personagens?

Não, eu acho que falando do título não, porque o título vai remeter a gente ao campo, à zona rural, a um Brasil rural…

Eu dizia isto por causa daquele capítulo em que uma das irmãs está a refletir e o Itamar utiliza a analogia do arado torto da condição dela também.

O Itamar não, a personagem é que faz essa analogia com o arado mas o torto é uma expressão que eu trouxe da poesia do Tomás António Gonzaga e atravessou muito tempo comigo e eu acho que diz muito sobre a história. Mas o torto é essa distorção que está em volta da vida dessas pessoas em relação às agressões, à violência fundiária no Brasil que é um problema muito grave que permanece até aos nossos dias. A exploração, a servidão vem a substituir a escravidão e a exploração permanece até aos nossos dias.

Uma vida que o Itamar conhece através do seu trabalho, do seu curso (de Geografia) e da tese que fez.

Sim. Há mais de 13 anos eu trabalho com as populações rurais no Brasil e fui tocado por essa forma de vida e por todo esse desamparo também que eles sofrem. E era inevitável que eu escrevesse sobre isso, eu precisava escrever. E eu escrevi a partir da perspetiva deles, eu queria que as personagens narrassem. E a literatura é isso, tem essa capacidade de nos transportar para outros lugares, para outras vidas e eu acho que consegui, porque o júri leu e premiou o livro, levar um pouco da vida dessas pessoas, da forma como eles vêem o mundo, elaboram o mundo, criam esse mundo, que é diferente da minha forma de ver, provavelmente da sua forma de ver o mundo, para contar uma história que também é universal. Esse direito ao território eu vejo em quase todas as culturas, grupos, minorias que lutam por um território, que lutam por suas terras. E no romance essa questão é apresentada por esse grupo de camponeses mas a gente tem essa história se repetindo em várias partes do mundo, então esse direito é universal.

É curioso que diga que depois de ter contacto com esta população, a propósito da sua tese do seu curso, sentiu necessidade de escrever sobre ela porque começou a escrever este livro aos 16 anos, as primeiras páginas. Ou seja, há aí um salto e os seus interesses aos 16 anos acabaram por coincidir com os seus interesses já na idade adulta.

Exatamente. Com 16 anos, naquela época, eu lia muitos romances regionalistas brasileiros por força do meu estudo escolar, e aquele universo me intrigou sobremaneira e eu queria escrever uma história sobre o campo, sobre pessoas que estavam no campo. Mais por fantasia, porque eu não tinha conhecimento dessa realidade, do que por qualquer outra coisa. Eu cheguei a escrever, porque meu pai me deu de presente uma máquina de escrever, e eu cheguei a escrever 80 páginas que ainda bem se perderam, porque anos depois e com minha vivência com o campo eu pude voltar a essa história que era a história de duas irmãs e a relação afetiva que elas têm com o pai e com todo esse universo rural e trazer elementos novos, críveis, verosímeis. Eu acho que foi bom e a história veio no tempo certo. A única coisa que atravessou o tempo foi o título, porque o título vem dessa época.

É um livro que fala desta condição frágil e desprotegida dos escravos e da herança da escravidão, mas também fala da violência doméstica, da violência sobre as mulheres, e ao mesmo tempo também fala da luta para mudar essa condição.

Na verdade o livro fala de uma violência que é estrutural. E todas essas violências que a gente costuma compartimentar, dividir, que é a violência doméstica, violência social, o racismo, elas se atravessam e é uma coisa só. Elas vêm de uma sociedade patriarcal com grande sentimento colonial e uma elite que não quer perder privilégios e termina por tomar decisões, influenciar nas leis do país, porque são as pessoas que chegam ao poder e que dirigem o país, que impõem a essas pessoas, a todos nós, uma violência que é estrutural. A violência doméstica, ela não está sozinha, existe o racismo, existe a violência de classe no Brasil, que é muito forte. Então, essas violências se atravessam, não estão sós. Era inevitável falar sobre isso porque é um livro que fala sobre o direito à terra, sobre o direito da mulher, então era inevitável falar sobre essa violência. 

O seu livro fala de um universo rural e eu li uma entrevista sua em que o Itamar diz que quer contar histórias das pessoas de quem não se fala. Que pessoas são essas, além das pessoas do campo?

As pessoas que vivem invisíveis na cidade. Eu observo, estou em Lisboa esses dias e passo pela Avenida da Liberdade e vejo trabalhadores fazendo trabalhos pesados, difíceis, mexendo na fiação da luz elétrica ou fazendo obra, e eu olho para eles assim… são pessoas que estão ali com histórias, com uma vida toda que poderia ser contada e eu não vejo muito as pessoas se interessarem pela vida dessas pessoas. Assim é onde eu moro. E eu ter ido para o campo trabalhar me mostrou uma realidade diferente onde às vezes existe mais crueldade do estado para com essas pessoas, existe mais vulnerabilidade dessas pessoas de sofreram qualquer tipo de violência…

São mais desprotegidas.

São mais desprotegidas e eu precisava contar. Porque é uma história de vida que pode tocar a qualquer um de nós e fala de sentimentos universais. Fala de afeto, fala de amor, fala de coragem, dos direitos humanos. Então, isso é o que me interessa, é o mote do que eu gosto de ler, do que eu quero escrever. Eu penso que é isso.

Quer continuar a escrever sobre essas pessoas?

Eu não sei qual vai ser meu próximo livro nem o que eu vou escrever a seguir. Mas acredito que não seja algo que se diferencie muito do que eu venho fazendo.  É claro que como autor eu quero experimentar, quero contar novas histórias, mas não sei ainda o que vou escrever.

Acha que tem um estilo de escrita, digamos uma pena sua? Como é que a descrevia?

Eu acho que sim. Isso a gente vai notando com a maturidade. E hoje eu pego meus textos, releio, e quando eu escrevo eu vejo que existe uma identidade, que tem uma linha que é minha, e as pessoas falam sobre isso. Então eu acho que eu tenho uma forma de escrever. Espero que ela não seja imutável, que adquira novos tons daqui para a frente, que ela seja atravessada por outras leituras, outros autores, porque eu gosto de experimentar, gosto de ver coisas novas, e penso que literatura é isso, são formas de narrar. E essa forma, a maneira que você conta a história é que captura o leitor, é que tem intensidade de transmitir uma mensagem, seja lá ela qual for, é aquilo que seja apenas pura fruição ou que encante, embeleze, que fale sobre coisas que são humanas, que comuniquem a nossa experiência humana.

Disse-me que tem uma identidade, que já a encontra quando lê os seus textos. Como é que a descreveria?

É uma identidade que está muito atenta aos sentimentos mais profundos das personagens. Então, eu não quero que nada passe sem que apareça. Eu preciso contar o que aquelas pessoas estão sentindo no mais profundo de si.

Para terminar queria pedir-lhe, para os leitores que não leram, como falaria do livro sem revelar aquilo que não pode ser revelado.

É um livro que conta a história de duas irmãs e a relação que elas mantêm com o pai que é um homem, que é um líder religioso da fazenda onde eles vivem. E é um livro que fala sobre o que aconteceu no Brasil depois da abolição da escravidão e nos conta que essa escravidão não foi de facto abolida nos termos que gostaríamos, e como foram viver essas pessoas depois. Essa escravidão se transformou e a partir daí é que a história surge, e conta uma história de luta e de redenção dessas pessoas que vai atravessar um tempo. Eu espero que Bibiana, Belonísia e Zeca Chapéu Grande também adentrem a vida de vocês assim como adentrou a minha, e seja capaz de conquistá-los.