Valentina Pelayo: “O meu desafio enquanto realizadora é tratar de ir sempre o mais profundo possível para inovar”

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Puntos de Reencuentro, de Valentina Pelayo, é um documentário que pretende homenagear o artista mexicano Felipe Ehrenberg, cujo trabalho ultrapassou fronteiras e catapultou o nome do artista e de toda a cena artística e social do México para o mundo. Integrado na Mostra de Cinema da América Latina, este filme expõe a trajetória artística de Ehrenberg até à atualidade, recorrendo a imagens de arquivo. Em entrevista exclusiva à Casa da América Latina, a mexicana falou da sua relação com Felipe, com Portugal e, como não poderia deixar de ser, do seu primeiro filme enquanto realizadora.

 Como surgiu a ideia para o filme? O que a inspirou na sua confeção”?

Antes do mais, quero agradecer à Casa da América Latina pelo interesse demonstrado e pelo convite para participar na 9ª edição da Mostra de Cinema da América Latina. Para mim é uma honra poder mostrar o meu trabalho aos portugueses, um país que tem um lugar muito especial em meu coração. Em relação à sua pergunta, tem tudo a ver com o Felipe. Tinha 18 anos quando o conheci. Recordo-me da sua imponente presença, da sua voz, da caveira tatuada na sua mão, inspirada no mexicano José Guadalupe Posada. Mas lembro-me, sobretudo, da sua sabedoria e do efeito de curiosidade que teve em mim para reconectar-me com o México, um país que deixei aos 9 anos. Ao longo do tempo, tivemos uma amizade linda, até começar a gravar o filme, em 2014. Tínhamos muitas conversas, das quais destaco os ensinamentos que ele me passava, tendo um deles ficado gravado no Puntos de Reencontro.

Porquê a escolha deste título?

 “Puntos” pelos temas, “reencuentro” pelas conexões entre eles.

Que tipo de sensações espera que este filme provoque no público?

 Interesse e emoção.

Puntos de Reencuentro foi rodado no México. Foi fácil filmar lá?

Foi fácil na medida em que a distância ajuda a esquecer certas situações – vivi fora do México durante 17 anos, tempo em que a realidade política mexicana me era alheia. Difícil quando me reencontrei com esta realidade, cujo resultado foi muito complexo de diversas maneiras. Das muitas sensações que me invadiram, uma foi o sentimento de saudade, uma palavra tão perfeita para descrever essa sensação e que não tem tradução direta em espanhol.

uma importante mensagem subjacente ao filme sobre inclusão e tolerância. Os recentes desenvolvimentos políticos foram uma inspiração?

O Felipe fazia um altar do Dia dos Mortos, uma tradição incrível da cultura mexicana, que celebra os mortos no segundo dia do mês de Novembro, ironicamente num lugar onde constantemente se respira a morte. Grande parte da obra do Felipe tinha que ver com o tema da morte mas, no geral, sempre teve uma mensagem sobre a tolerância e inclusão. Acho que é um reflexo dos lugares ou situações que ele atravessou ao longo da sua vida. O Felipe sempre foi uma pessoa muito tolerante e sempre foi capaz de ajudar. Por exemplo, quando ele ajudou a resgatar os mortos após o tremor de terra de 1985, no México, que devastou mais da metade da cidade. No documentário, os desenvolvimentos políticos atuais no México foram desenvolvidos naturalmente, é impossível retratar “um actor sem o seu teatro”, se eles são afetados reciprocamente. Para mim, mais do que uma inspiração, foi uma necessidade de retratar.

Depois de colaborações em Spirit Art Show e Rita Mehrabian Is Not A Terrorist, este é o seu primeiro trabalho enquanto realizadora. Como é vê-lo logo reconhecido, principalmente a nível internacional?

É sempre bom ver o nosso trabalho reconhecido em qualquer lugar. Tanto o Felipe como eu viajámos juntos para mostrar o documentário no México, meses antes de ele falecer. No dia em que ele morreu, Valeria Luiselli, uma escritora mexicana cujo trabalho admiro e citei neste filme, escreveu-me uma mensagem muito comovente que, entre outras coisas, refere que uma das missões na vida do Felipe era inspirar pessoas como eu. O Felipe já não está entre nós, mas a sua presença fica colada a este trabalho, tornando-o imortal na Europa e na América Latina pelo seu trabalho e é muito interessante mostrá-lo numa cidade como Lisboa, pela sua postura cultural e geográfica.

Acha que ainda é possível inovar nos documentários, ou o género estagnou como dizem os críticos?

O meu desafio enquanto realizadora é tratar de ir sempre o mais profundo possível para inovar. Como dizia José Carlos Avellar, o trabalho dos críticos não é atribuir classificações ou criticar, mas refletir e expor diferentes intervalos do trabalho do realizador. O género não estagnou – antes pelo contrário -, pelo menos no México, no Brasil, em Espanha e noutros países, e é dos mais fortes no cinema atualmente.

Alguma vez a vamos ver a escrever ou realizar outro género cinematográfico?

Atualmente estou a fazer uma docuficção centrado nos olhares sobre as fronteiras. Neste trabalho a ficção supera a realidade e vice-versa.

No que respeita a projetos futuros, o que nos pode revelar? Portugal entra nos seus planos?

Como escritora, estou no processo de um novo filme. Portugal é um cenário não somente muito nostálgico e tranquilo (propício para a inspiração e criação) mas também um lugar com muitos criadores e cineastas que eu admiro, e atualmente com uma interessante abertura da qual eu gostaria de fazer parte. Acho que o México e Portugal têm muito em comum e, sem ir mais longe, desde logo por causa da sua posição geográfica, que enriqueceu as suas histórias e culturas com o passar do tempo. Tenho toda a curiosidade e intenção de explorar mais a cultura portuguesa, e ser parte do diálogo entre México e Portugal, que ainda tem tanto por explorar.