Marisol Schulz: “Portugal é uma potência cultural refletida em diversos âmbitos artísticos”

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Naquela que é a primeira parte da entrevista à Diretora-Geral da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a mais importante da América Latina, a Casa da América Latina falou com Marisol Schulz em jeito de antevisão do evento de final de novembro e que tem Portugal como convidado de honra da edição de 2018.

O que motivou a Direção da Feira do Livro de Guadalajara a optar por Portugal como país convidado de honra da edição deste ano?

Um dos motivos pelos quais Portugal foi eleito Convidado de Honra da edição deste ano foi a sua proposta cultural. Além disso, era o país ideal, já que com a sua presença completaríamos a participação de países da Ibero-América. Naturalmente, consideramos que a riqueza cultural lusa será um grande contributo, e estar na FIL é a vitrine ideal para que o mundo hispanohablante descubra o que é Portugal na atualidade, que conheça a sua música, a sua gastronomia, a sua literatura, as suas artes plásticas e cénicas, todo o espírito que caracteriza esta espantosa cultura. Por aí [Portugal], escutei uma citação de Pessoa, na qual dizia que Portugal é o grande desconhecido de si mesmo (estou a citar de memória); pois bem, também no México se desconhecem muitos aspetos do Portugal contemporâneo.

Este ano, a língua portuguesa terá uma presença significativa e de grande destaque. Qual o impacto que prevê que esta situação tenha, não só no México mas, também, na América Latina?

Considero que com a presença de Portugal, tanto na FIL como em outras atividades na América Latina, se abrirão as possibilidades de conhecer toda a cultura da literatura portuguesa, particularmente a que se faz no próprio país. É a oportunidade ideal para descobrir, para além do fado e dos autores clássicos portugueses (que são uma verdadeira maravilha para o património cultural universal), todo o que hoje em dia Portugal oferece ao mundo. Também creio que é a oportunidade para que quem não conhece nada acerca de esta cultura se apaixone por ela.

Também este ano, o Programa de Apoio À Tradução, Ilustração e Edição de Obras de Autores Portugueses e Africanos de Língua Portuguesa teve uma edição especial para o México em particular e para a América Latina em geral. Qual o objetivo desta iniciativa?

O objetivo destes programas é promover o intercâmbio cultural e a difusão das letras de outros lados do planeta. Estes eventos focam-se em pessoas, editores e tradutores, para reforçar os laços de colaboração e proporcionar tanto suporte económico, como aconselhamento na tradução de obras literárias. Servem como ponte entre línguas distinta, uma ponte necessária para fomentar o intercâmbio de obras e autores, para o descobrimento de novas vozes.

Sendo a literatura a principal aposta, o programa literário é o mais extenso e o que tem maior representação com entrevistas, leituras e debates. O que mais a atrai neste programa?

O programa literário, tanto de Portugal, como da FIL Guadalajara são programas muito completos e oferecerão ao público que nos visita (cerca de oitocentas mil pessoas) um panorama rico e variado do panorama literário da atualidade. Teremos a presença de un prémio Nobel de Literatura (Orhan Pamuk), bem como de autores reconhecidos provenientes de mais de 40 países distintos. Muitas das grandes vozes da literatura contemporânea estarão presentes, e compartilharão os salões e corredores da FIL com novas vozes, fundamentalmente de autores que escrevem em português e em espanhol. Mas para além da grande variedade de autores e géneros literários que desfilarão pelos salões da FIL, também contamos com algumas atividades que pessoalmente me entusiasmam, como por exemplo o Salón del Cómic (que estreámos o ano passado e foi um grande êxito); o programa La FIL también es ciencia, onde reconhecidos cientistas (nos quais se incluem um prémio nobel em física e outro em química) e divulgadores de ciência traduzem esta linguagem especializada para o público que assiste às suas palestras, assim como o Salón de la Poesía. Algo que é importante destacar é que este ano se terá, pela primeira vez, um pavilhão gastronómico denominado Libros al gusto, onde se falará da importância da cultura gastronómica e culinária, com ênfase na gastronomia mexicana, que em 2010 foi declarada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Um dos aliciantes deste programa tem a ver com o lançamento de livros de alguns autores consagrados, como Manuel Alegre e Gonçalo M. Tavares. Como surgiu esta possibilidade?

Uma das intenções do programa literário que oferecemos ao público é poder divulgar obras tanto dos autores que apenas começam a sua trajetória literária agora, como àqueles que já são reconhecidos na literatura universal contemporânea. No caso de Manuel Alegre e Gonçalo M. Tavares, parece-nos importante que possam estar na FIL, precisamente porque se trata de autores que geraram muita expetativa entre os seus leitores. Gonçalo M. Tavares já esteve na FIL em outras ocasiões e posso assegurar que há público que já pregunta pela sua presença e que está ansioso por voltar a vê-lo.

A presença portuguesa far-se-á ainda sentir no cinema, na música, no teatro, entre outros. Há algum artista, incluído nestas áreas, pelo qual tenha particular admiração e deseje vê-lo atuar?

Honestamente creio que a participação de todos os artistas, em todas as áreas, deixará o público muito satisfeito (que por certo é um público exigente mas muito participativo) e será uma grande descoberta para todos. Em particular, entusiasma-me conhecer novas vozes: autores que não conheço, novos artistas em todas as áreas. Através de eles, verei um novo país, um Portugal diverso, uma potência cultural refletida em diversos âmbitos artísticos. Sei que este é um dos tesouros por trás do intercâmbio cultural que se estabelece com o Convidado de Honra.

Quais as expectativas que deposita em torno desta edição?

As expetativas são muitas, mas cada Convidado de Honra as excede, e estou certa de que Portugal não vai ser a exceção. Sei que tudo o que os organizadores do programa de Portugal na FIL prepararam para Guadalajara será um grande achado e corresponderá por certo ao que se espera desta presença. Uma presença muito esperada em todos os âmbitos editoriais, literários e culturais.

A Casa da América Latina, por meio da sua Secretária-Geral e comissária da participação portuguesa, Manuela Júdice, marcará presença na Feira. Qual a importância que atribui ao trabalho que a CAL tem vindo a desenvolver no âmbito da FIL Guadalajara?

O trabalho entre ambas as instituições é fundamental. Sempre o disse, e reitero, o apoio de outras instâncias é o que fortalece um projeto como a FIL. Neste caso, os esforços da Casa de América Latina, por intermédio da Dra. Manuela Júdice, foram extraordinários. A delegação portuguesa trará ao México um programa insuperável, com propostas ricas e inovadoras. Posso dizer também, e com muito gosto, que a relação entre ambas as equipas fluiu com harmonia e cordialidade; todos trabalhamos para fazer desta uma FIL inesquecível. Queria também agradecer esta colaboração, pois foram estabelecidos laços amistosos que estou completamente segura que continuarão por muito tempo.