Tulipa Ruiz: “Este disco é um encontro, é a música voltando à sua essência.”

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Prestes a atuarem no castelo de Sines por ocasião do Festival Músicas do Mundo, a Casa da América Latina entrevistou Tulipa e Gustavo Ruiz, colegas e irmãos, no lançamento do álbum TU, em Lisboa.

O espaço Espelho d’Água, em Belém, acolhe o lançamento do vosso último trabalho, TU. Porquê Lisboa como a cidade eleita para esta ocasião tão especial?

Tulipa Ruiz (TR): Sou apaixonada por este país. Eu e o meu irmão já viemos a Portugal várias vezes e fomos sempre muito bem recebidos. Em relação ao Espelho d’Água, é um lugar especial e quando fomos convidados para atuar em Sines, tentámos que houvesse disponibilidade para virmos a Lisboa e lançar o álbum aqui.

TU é descrito como um disco que resulta das “andanças” de Tulipa e Gustavo. O Festival Músicas do Mundo (FMM) é mais um passo certeiro neste caminho?

TR: O FMM é um festival muito importante justamente por isso, por renuir várias culturas. A música é o que temos de mais universal e quando existe a possibilidade de sair do nosso país para apresenta-la, mais a mais combinada com outras culturas, é maravilhoso. É uma experiência muito interessante porque sendo um festival – e um festival já tem o seu público garantido, não foram necessariamente para ver-nos – conhecemos outros artistas e há um mesclar de públicos.

Rafael Balsemão, do jornal Zero Hora, descreveu este álbum como um “exercício zen”. Porquê a opção por um registo mais intimista – voz, violão e percussão – em detrimento de mais um disco de banda, à semelhança dos três anteriores?

TR: Este disco nasceu o ano passado, num momento muito difícil no Brasil e no mundo. Para além disto, estamos a passar por uma espécie de crise nas comunicações, há uma overdose de informação em todos os lugares e esta overdose é notória, inclusive, nos próprios discos, nas próprias produções: discos muito cheios, com muitos efeitos. Assim, sentimos a necessidade de fazer um disco mais “respirado”, simples, mais “olho no olho”. Eu queria fazer um disco com os meus amigos, com os meus irmãos. Este disco é um encontro, é a música voltando à sua essência, através do que temos de mais orgânico: a voz, o violão e a percussão.

Gustavo Ruiz (GR): Nós viemos muito para a Europa neste formato de voz e violão. O Stéphane San Juan [co-produtor do álbum], que é um grande amigo e grande músico que mora no Brasil, incentivou a gravação do TU neste registo e achámos que o ano passado era o momento certo. 

O facto de o vosso pai ser músico e de a vossa mãe ser atriz exerceu algum tipo de influência no caminho que escolheram seguir?

GR: Tem influência direta: eles despertaram em nós o interesse artístico, por consumir boa música e cultura mas também a vontade investigativa, pelo lado jornalista de ambos.

TR: Tanto eu como o Gustavo fomos formados pelas colecções de discos e livros dos nossos pais. Acho que a minha universidade foi em casa, com estas colecções. Na infância, ao passo que o Gustavo já tinha escolhido a música, eu sabia que ia trabalhar em comunicação de alguma maneira e esta certeza era por influência dos nossos pais.

Depois de Dancê (2015), o terceiro álbum de estúdio, ter vencido o Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Pop Brasileiro Contemporâneo, a Tulipa está indicada para o Prémio da Música Brasileira 2018 como intérprete no TU. O que representam este prémio e esta nomeação?

TR: Falando do Grammy, especificamente, foi muito importante, porque achávamos que este era um prémio muito da indústria fonográfica, das grandes editoras. Quando fomos indicados, pensámos que estávamos ali para cumprir algum tipo de quota, algo simbólico por sermos independentes e não pertencermos a nenhuma “major”. Quando ganhámos o prémio, assumimos que não era uma vitória só nossa mas, também, da música independente. Foi o primeiro disco independente a ganhar um Grammy.
A indicação como melhor cantora no Prémio da Música Brasileira também é um prémio muito sério mas, para dizer a verdade, como somos filhos de jornalistas, nunca fiquei muito empolgada com os elogios nem muito triste com as críticas. Prémios são as legitimações do nosso trabalho mas também só são incríveis quando ganhamos.

GR: O Grammy foi um prémio muito importante porque abriu-nos as portas da América Latina: passámos pelo México, pela Colômbia, pelo Equador, e o prémio foi determinante.
Quanto ao Prémio da Música Brasileira fico muito feliz porque é um prémio que contempla a voz e a Tulipa estar indicada é um orgulho, ainda para mais ao lado da Gal Costa, que é uma cantora que veneramos. A música não é competição: independentemente de quem ganhe, o prémio fica bem entregue.

Para além da participação do Stéphane, TU conta ainda com as participações de Tomás Cunha Ferreira, de Mauro Refosco e do franco-mexicano Adan Jodorowski, com quem Tulipa já atuou na Feira Internacional do Livro de Guadalajara. Estas parcerias nascem da vontade de quebrar as barreiras culturais?

GR: Sem dúvida. A música é um grande instrumento de integração e de interacção. O Stéphane é um francês que morou em África, em Inglaterra e foi parar ao Brasil, com quem toquei na banda da Vanessa da Mata e tornou-se um dos nossos melhores amigos. O Mauro é um brasileiro que mora Nova Iorque e toca com o David Byrne, Thom Yorke [vocalista dos Radiohead], entre outros.

TR: Neste disco era importante não ficarmos só pela nossa zona de conforto: inaugura novas relações e tem a ver com os nossos passeios pelo mundo. O Tomás, que é o meu parceiro em Desinibida, tem uma banda de que gosto muito, Os Quais, e é um prazer ter feito esta música com ele. O Adan, que mora em Paris e no México, conhecemo-lo numa Feira do Livro, em Guadalajara, numa homenagem ao seu pai [Alejandro Jodorowski], com quem também atuei nos Prémios Fénix de Cinema. A sua participação é muito importante porque o Adan também é um cidadão do mundo. O facto da indústria musical ter mudado possibilita-nos a independência das estratégias das editoras: antes eram estas que promoviam os encontros, hoje podemos ser nós a correr o mundo e este disco simboliza isto.