Vila Galé: 30 anos, 30 hotéis e novas apostas em Portugal e no Brasil

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Associado da Casa da América Latina, o grupo Vila Galé celebra o seu 30º aniversário, num momento em que conta com o investimento em 30 unidades hoteleiras em Portugal e no Brasil. Tendo inaugurado recentemente um hotel integrado na área da saúde, em Sintra, e com a abertura de hotéis em Braga e em Touros (Brasil), agendada para este ano, a administração aposta em novas estratégias para atrair o turismo 365 dias por ano e para cidades afastadas dos grandes centros. Gonçalo Rebelo Almeida, administrador do grupo, explica as principais preocupações, objetivos e metas atingidas ao longo de três décadas passadas desde a abertura do primeiro hotel no Algarve.

O que tem mudado ao longo do percurso do grupo Vila Galé ao longo dos anos?

Em 30 anos vamos ter mais uma feliz coincidência de números. No início do mês de maio celebrámos os trinta anos desde a abertura do nosso primeiro hotel e no final de maio, abrimos um novo, em Braga, que é também o trigésimo. O Grupo surgiu há 30 anos, com a abertura do primeiro hotel na Praia da Galé, tendo sido isso o que justificou o nome do grupo. Tivemos uma fase de expansão até 1996 muito focada no Algarve, ano em que demos um salto para Cascais, surgindo logo uma outra oportunidade no Estoril. A seguir fomos para o Porto, expandimos no Algarve e em Lisboa. A internacionalização do Grupo começou em 2001, com o primeiro investimento no Brasil (Fortaleza), e, a partir daí, temos tido um crescimento sustentável em ambos os países. Crescemos geograficamente, em Portugal estamos em Coimbra, Douro, Évora, Serra da Estrela, e agora Braga, mas também a nível das várias vertentes, campo, negócios, cidade, saúde, edifícios históricos renovados com dinâmicas próprias, etc. Temos um leque variado no que toca a diferentes tipos de conceito, edifício, localização e cliente.

Quais são os elementos que mais diferenciam os hotéis do grupo Vila Galé, e que promovem uma relação de fidelização?

Um elemento no qual apostamos muito é nos recursos humanos. Porque, independentemente de o cliente ficar mais ou menos dias no hotel, importa estabelecer uma proximidade com ele, manter sempre níveis elevados de qualidade de serviço, em qualquer um dos hotéis do grupo. Essa é uma impressão que fica. Os nossos recursos humanos são formados de forma a cumprir esses requisitos e têm um ambiente de trabalho favorável, com muita acessibilidade a todos os níveis hierárquicos, não havendo barreiras. Todos trabalham com enorme abertura e em acesso público e constante contacto entre a administração e trabalhadores. Interessa que exista um ambiente não demasiado formal e distante. É algo que conseguimos e que está espelhado nos comentários espalhados pela web, onde se valoriza especificamente o atendimento ao cliente. E é algo que é difícil de imitar, constrói-se com o tempo, é uma cultura empresarial que define este Grupo. Isto é relevante especialmente para os clientes que viajam em trabalho, e voltam sempre ao mesmo hotel, por já conhecerem o staff e terem criado uma relação de confiança, quase um prolongamento da sua casa.

O Vila Galé inaugurou recentemente um hotel integrado na área da saúde (wellness), em Sintra. O primeiro ministro António Costa falou, a propósito da inauguração, da necessidade de investir em novas abordagens ao turismo em Portugal. Quais são os desafios que se impõe neste âmbito e em que medida estão a orientar os investimentos do grupo para novos tipos de turismo?

Há aqui dois temas relacionados, e, um deles, do qual todos falam, é o grande fluxo de turismo que temos vindo a presenciar nos últimos anos. Para quem está dentro do setor, esta questão não é novidade, já presenciámos outros fluxos positivos anteriormente, sendo que os resultados que temos alcançado em outros anos são semelhantes aos de 2017/2018. E a verdade é que, existindo um crescimento do número de turismo, também existe um crescimento da oferta. Para além disto, este fenómeno está concentrado em quatro das regiões portuguesas (Lisboa, Porto, Algarve e Madeira), sendo certo que a maior pressão se dá em Lisboa e Porto, e dentro destas cidades, especialmente nos centros históricos. Se olharmos para o mapa de Lisboa, onde encontramos movimentação turística, é somente na baixa de Lisboa e zonas históricas. O que acontece é que a cidade está muito afunilada em termos expansão turística, e não se dispersa para outras zonas da periferia. O normal crescimento de interesse das cidades, nomeadamente as europeias, é a dispersão, em diferentes pontos até opostos. Em Lisboa temos cada vez mais um crescimento concentrado. Um dos objetivos que temos também de ter em conta, portanto, é esta desconcentração: levar os turistas para outros pontos de interesse da cidade e do país.

Existe também a questão de fazer do turismo uma atividade a 365 por ano. Este interesse em vir a Portugal também durante o Inverno tem muito a ver com o tipo de infraestrutura hoteleira em que se investe… Quais são as vossas preocupações neste sentido?

A sazonalidade, no que toca à ocupações dos hotéis, é uma das nossas preocupações, sendo que grande parte dos hotéis ficam vazios durante metade do ano. Eventos como o WebSummit, a Festa da Flor na Madeira, os fogos de artificio na passagem de ano, ou mesmo os festivais, são oportunidades que ajudam a quebrar este ciclo, e que são bem-vindos, pois realizam-se no período que vai de novembro a março, durante o qual a afluência aos hotéis é mais reduzida. Outra das estratégias que podemos adotar neste sentido é a atração através de nichos de mercado que não estão a ser explorados e que podem ser apelativos durante o ano todo, por serem independentes do bom tempo. É aqui que surge esta aposta na saúde e no bem-estar, que se reflete na abertura de um novo hotel em Sintra. Para além disso, Portugal começa a ser uma referência em termos de saúde, com uma oferta de grande qualidade tanto a nível de especialistas como de hospitais. Uma das grandes tendências do mercado é a busca por hábitos de vida saudáveis, com a promoção de dietas, exercício, e wellness no geral. Temos dois targets principais: as pessoas que já possuem um nível de vida saudável e que pretendem continuar durante as férias, e aqueles que decidem fazer essa mudança, e que podem levar a família consigo, possuindo todos os recursos e facilidades (inclusive médicas) para começar esse percurso.

Que tipo de conceito podemos esperar do novo hotel em Braga?

Em Braga é um hotel que vai potenciar muito a história da cidade, vivendo não só da localização (no centro histórico, com acesso privilegiado a todos os pontos turísticos), mas também de uma componente empresarial, muito forte na região, com uma área para eventos de empresas, que era uma carência de Braga que procurámos colmatar. E o próprio hotel vai contar um pouco da história de Braga e de Portugal, pegando nas teorias que afirmam que a verdadeira fundação de Portugal foi em Braga e não em Guimarães, no papel dos arcebispos no desenvolvimento da cidade…

 Está também anunciada a abertura de um novo hotel em Touros (Brasil)…

No Brasil o conceito em que apostamos é no resort all inclusive, à semelhança do modelo que temos testado no Brasil. Não traz muita novidade em termos de produto. Mas aposta numa localização diferente com um produto que já temos desenvolvido, que tem procura, e que funciona bem no mercado interno brasileiro. Já existe em Pernambuco, Baía, Ceará …, uma realidade completamente diferente da portuguesa.

 Como surgiu esta ponte para o outro lado do Atlântico?

Obviamente que existe uma grande afinidade entre Portugal e Brasil que é relevante para este investimento, mas a verdade é que foi sempre uma questão de oportunidade. Ir para o Brasil por uma questão de proximidade da língua pode ser contraditório, porque a língua é, de facto, muito diferente, quase como se fosse estrangeira [risos]. Um dos pontos que favoreceu a nossa internacionalização foi a criação de linhas aéreas Portugal-Brasil pela TAP, tornando a movimentação mais fácil. Para além disso, existia uma carência de resorts no Brasil, sendo que neste momento o número de infraestruturas deste tipo deve rondar três dezenas, um número muito reduzido considerando a dimensão do país. Outro fator é a quantidade de ocupação feita pelos próprios brasileiros nos hotéis (bem como argentinos, uruguaios e outros países da América Latina). A realidade é que o Brasil continua a não ser um destino de massas para o resto da Europa, não tendo tido ainda a capacidade de se afirmar como primeiro destino de férias dos europeus. É uma aposta que depende muito do fator cambial, e as questões de segurança podem ser sempre um entrave. Apesar disso, o mercado interno é gigantesco, é uma população que viaja muito dentro do país. E a nossa expansão está sempre dependente dos fluxos económicos e das oportunidades que surgem (nomeadamente o encontrar do edifício ideal, com a localização indicada…). As nossas decisões de novos investimentos no exterior são muito ponderadas.

Consideram internacionalizar-se, nos próximos anos, para outros países da América Latina? Que outros mercados estão no radar da Vila Galé?

A nossa política não é a de perseguir o investimento só porque sim. Quando olho para outras possibilidades que estão em cima da mesa em termos de mercados, olho numa perspetiva de se este país aguenta uma continuidade de investimento, em diferentes cidades, e não simplesmente como aposta pontual. Buenos Aires já foi considerada, sendo que é um mercado emissor para o Brasil, existindo um fluxo turístico muito forte. Neste momento não existem outras apostas de expansão em concreto, mas o que poderá ser relevante passa muito por países que fazem a fronteira com o Brasil, como Argentina ou Colômbia. O natural será também continuar a expansão na Europa, nomeadamente em Espanha. África é um mercado que consideramos, e que partilha os mesmos fluxos turísticos do Algarve. Os canais de venda em Cabo Verde, por exemplo, seriam para nós muito facilitados e são interessantes.

Existe também uma preocupação da Vila Galé em apostar no desenvolvimento de atividades complementares ao serviço hoteleiro. Que tipo de iniciativas pretendem continuar a reforçar?

Dependendo da localização dos hotéis, tentamos adequar as nossas parcerias com as ofertas que cada cidade apresenta. Por exemplo, na Ericeira, temos parceria com as empresas de surf. Em Tavira temos uma aposta na pesca… Outro setor que temos vindo a desenvolver, por exemplo, um trabalho no âmbito do vinho e do azeite, no qual temos a oportunidade de exportar, não só para o Brasil, por termos lá presença e existir a facilidade de encontrar distribuidores, mas também, por exemplo, para a Colômbia. Trabalhamos também alguns países na Europa, temos vindo a desenvolver essa aposta, por ser um negócio autónomo, que simultaneamente abastece os nossos hotéis. Mais recentemente surgiu a oportunidade de apostar na fruta (pêra rocha, pêssegos, ameixas e nectarinas), tendo vindo a produzir na nossa herdade estes produtos, apesar de, em termos de conservação, distribuição e logística ser um negócio muito mais complexo que ainda terá de ser melhor pensado e está a ser testado.