Jonás Trueba: “Interessa-me criar algo que esteja vivo”

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A primeira vez que o realizador e argumentista espanhol Jonás Trueba veio a Portugal, acompanhava o seu pai, o também realizador Fernando Trueba, durante a rodagem de El Ano de las Luces, no ano de 1986. Regressou a Lisboa como autor, durante a Mostra de Cinemas Ibero-Americanos, com a apresentação do filme La Reconquista.

A quarta longa-metragem de Jonás Trueba fala sobre o amor adolescente e suas repercussões. Pretende ser uma “carta ao futuro”. O realizador falou com a Casa da América Latina sobre o amor de juventude, o poder de “desejar” e o que significa ser um jovem realizador espanhol.

Pongo mi corazón en el futuro./ Y espero, nada más”. Estes são os versos do poeta João Antonio González Iglesias que surgem no início do filme. O que querem dizer?

Significa que tudo está por vir. Que se tem de ter fé. Tem de se desejar que as coisas venham. Este é um filme que olha muito para o passado (para a adolescência), mas que, a partir da adolescência, olha para o futuro. É uma carta ao futuro, e, por isso, esta citação pareceu-me adequada.

Quando dizes carta ao futuro, referes-te ao mundo ficcional?

O futuro para todos nós como pessoas e espetadores. O filme faz-nos pensar no passado e na adolescência, mas quando temos essa idade estamos sempre a pensar no futuro e desejamos outras coisas. Acredito que é importante manter sempre um certo desejo, uma certa fé naquilo que está por vir.

Como surgiu a ideia para esta longa-metragem? Parte de uma experiência pessoal?

Talvez não seja necessariamente pessoal. Eu trabalho muito com intuições e sensações que surgem, que me acompanham e sobre as quais me questiono. Não faço o filme a partir de uma certeza. Faço o filme porque tenho dúvidas. Faço-o para descobrir o filme que quero fazer, para descobrir o que penso e sinto. E, no final, o filme fica em aberto. Não responde.

Pensou em lhe dar um final com maior “certeza”?

O final foi surgindo. Não estava definido desde o início do processo. Vou escrevendo o argumento muito proximamente à rodagem. Não existe um roteiro escrito previamente.

Um dos aspetos que salta à vista são as cores – têm um significado psicológico?

É algo que também surge durante o processo, enquanto vou trabalhando com os meus colaboradores. Por exemplo, a minha figurinista propôs que o personagem masculino vestisse tons azuis, e a feminina tons vermelhos… Isso vai aparecendo, não é uma decisão minha a nível psicológico, analítico. É algo mais orgânico que se vai revelando e que se identifica posteriormente – quando observo o filme e encontro um sentido de cor. No entanto, este não é um sentido imposto, mas sim adquirido.

A música também tem um papel relevante…

Eu não sou um cineasta que predetermine muito. Gosto que tudo vá surgindo e cada coisa levando a outra. Mas, a música foi dos elementos mais fortes com que trabalhei desde o início. Uma das canções de Rafael Berrio falava do amor adolescente, e levou-me a ter vontade de fazer um filme com ela. Outro aspeto que tive claro desde o início foi que queria montar o filme em três partes. Sabia o tipo de estrutura que pretendia, mas não o conteúdo.

O filme gira em torno de uma carta. Existe algum tipo de reflexão sobre essa forma de preservação da recordação de um amor passado? É algo que torna as relações atuais diferentes?

Todos nós já escrevemos cartas. Eu pertenço a uma geração que ainda não tinha Internet. Escrevíamos à mão. Não sei como é agora para os adolescentes. Sei que se escreve muito, mas escrevem de outra maneira. Através do telemóvel, do computador… E não sei como vão sobreviver no futuro as mensagens que se escrevem em carta. O bom das cartas que escrevíamos na altura é que estão guardadas, têm a nossa caligrafia… E isto interessava-me. Também para os jovens de hoje, importava filmar uma película sobre os jovens que nós éramos antes, e como estas cartas têm algo nelas que é importante – o vento não as leva. E, às vezes, nós próprios não conseguimos reconhecer as nossas palavras. Este é um reconhecimento muito forte – que eu tenha escrito algo aos 15 anos, e 15 anos depois não o reconhecer.

Falaste sobre “não estar à altura das palavras que escrevemos quando somos jovens” numa outra entrevista. Esta inteligência da infância é algo que vamos perdendo?

Para mim é evidente que na juventude, apesar de existir intolerância, existe também uma inteligência intuitiva, sábia, que se traduz no que diz o protagonista mais jovem: “nós sabemos algo que os mais velhos não podem saber”. Os adolescentes são capazes de comprometer-se de forma muito séria com o futuro, mas, por vezes, têm medo da sua própria juventude. Pareceu-me uma idade muito intensa e cinematográfica.

O personagem principal lê o livro Crímenes Imaginários de Patrícia Highsmith. Foi efetivamente um livro da tua juventude?

Sim, foi. Eu lembro-me de ler muitos livros de Patrícia Highsmith quando tinha 15 ou 16 anos, com outros amigos meus (havia um intercâmbio entre nós). Não sei bem a razão, mas existe algo de fantástico neles, e por vezes muito real – uma mistura que me agradava muito. Havia algo de misterioso que me fez relacionar a escritora com a adolescência. Continuo a ler os livros dela.

Foi relevante crescer como filho de um realizador?

Foi uma sorte e um privilégio, porque me permitiu um acesso muito natural ao cinema muito natural desde pequeno. Para mim foi especial crescer numa casa com muitos filmes, com pessoas que faziam filmes e falavam deles como um ofício comum. Como outras pessoas trabalhavam a madeira, eles trabalhavam o cinema. Sem glamour. Foi bom poder conhecer o cinema como algo quotidiano e não distante. Quando comecei a fazer os meus filmes não tive de romper com tantas ideias pré-concebidas sobre o cinema.

O que significa ser um jovem realizador independente espanhol?

É difícil responder a essa pergunta de forma breve… Por um lado sinto que temos sorte por estar num país como Espanha, dentro da União Europeia, com um cinema que, apesar dos seus problemas e dificuldades, é um cinema rico e diverso. Posso comparar a minha situação com países onde não existe a possibilidade de fazer cinema, e admitir que tenho sorte. Mas, se comparo com os Estados Unidos, ou com França, tenho de ser mais crítico em relação à situação do meu país, pois existem poucos apoios ao cinema. Tradicionalmente o Estado espanhol não investe muito nesta área, nem na Cultura em geral. Não existe uma educação para o cinema, como em França, por exemplo.

É considerado uma arte marginal?

Não é considerado sequer uma arte. É uma sensação agridoce ser um cineasta espanhol. Não nos podemos queixar, mas temos, no entanto, de conquistar um lugar. Penso que Portugal é um caso semelhante. Existe um cinema admirável e grandes cineastas, mas falta uma escola de cinema forte, tanto em Espanha como em Portugal. É um cinema de personalidades, em oposição ao cinema russo, italiano, francês ou americano, no qual existe uma identidade cinematográfica própria.

Consideras esse rótulo positivo?

É bom que haja uma tradição, porque quando ela existe também podemos romper com ela. Existe um elo, um relacionamento que nos permitir dialogar. Um jovem cineasta francês tem o peso da tradição, mas também se pode rebelar contra ela. Em Espanha esse exercício não é tão óbvio. Eu considero que a minha tradição não é o cinema espanhol, mas sim o cinema europeu. A minha educação consistiu em ver filmes italianos, suíços, franceses, polacos, checo-eslovacos… E todos estes cinemas fazem parte da minha tradição.

Em filmes como Los Ilusos encontramos referências claramente francesas…

Em Espanha rotulam-me muitas vezes como um cineasta “afrancesado”. Parece-me fundamental dizer isto: os cineastas franceses são os mais conhecidos, mas a influência vem também de outros que não são tão conhecidos e que não são franceses. O cinema que faço é, para além disso, muito madrileno. Esse filme em específico fala de como é viver numa cidade como Madrid, e transmite essa identidade.

Que realizadores te influenciaram?

Em dado momento foram importantes cineastas checo-eslovacos como Milos Forman; cineastas franceses como François Truffaut, Eric Rohmer; um cineasta lituano que vive nos Estados Unidos – Jonas Mekas; a nova onda do cinema asiático, com Edward Yang, Hou Hsiao-Hsien… (que foram cineastas importantes quando descobri o cinema); o coreano Hong Sang-soo;  portugueses como João Nicolau; espanhóis com os quais me sinto irmanado, como Javier Rebollo, Fernando Franco García… Tenho sorte em fazer cinema hoje.

Segues alguns realizadores da América Latina?

Sim, conheço cineastas que são como irmãos para mim, como Matías Piñeiro (que é argentino e da minha geração). Gostei do filme que vi aqui na Mostra de Vladimir Durán [Adiós Entusiasmo], e também do de Luis Ospina [Todo Comenzó Por El Fin], o cinema de Ignacio Aguero (emociona-me por ser humano e verdadeiro), entre outros.

És escritor, realizador, já escreveste para teatro e escreves um blog no El Mondo… Que projetos tens de futuro?

Com esta quarta longa-metragem senti que encerrei um ciclo e que o meu trabalho será, de alguma maneira, diferente do que tenho vindo a fazer. Não podemos escapar de nós mesmos nem das nossas circunstâncias (e eu entendo o cinema assim – como um resultado das experiências que vivemos), mas, neste momento, estou a trabalhar um filme mais documental, no qual senti um impulso mais físico de pegar na câmara eu mesmo, estar sozinho com jovens, e isso implica uma mudança. Estou a escrever dois filmes que poderão ser diferentes…

A criatividade consiste nesse retomar às origens ou à “grande questão”?

Claro. Por isso mesmo foi bom ver este filme de Ignacio Aguero, que faz refletir sobre o que é o cinematográfico. A pergunta que ele faz: “O que é o cinematográfico hoje?”, é também aquilo que questiono a mim mesmo desde há cinco anos, quando fiz o meu primeiro filme. O peso estava noutras coisas – estava mais interessado em questões narrativas; enquanto que agora interessa-me mais o visual, a experiência. Interessa-me criar algo que esteja vivo.

E o filme La Reconquista demonstra bem isso…

Penso que sim. Fascina-me que o cinema esteja relacionado com algo que não tem um fim – que não se consiga alcançar finalmente. Ás vezes parece que conseguimos agarrar a vida ou que estamos perto, mas existe sempre o sentimento de não o conseguir. Essa sensação é inspiradora e é o motor para continuar.