Arquiteto José Manuel Fernandes mostra 22 cidades ibero-americanas na Casa dos Mundos

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A Casa da América Latina visitou a exposição “22 Cidades Iberoamericanas e Lisboa: Um Diálogo Urbano-Arquitetónico”, que parte do registo fotográfico realizado ao longo de mais de três décadas por parte do arquiteto José Manuel Fernandes.

Nascido em Lisboa, em 1953, José Manuel Fernandes é um arquiteto licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa em 1977. Professor doutorado em 1993, Catedrático em História da Arquitetura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa (2010), é membro do Conselho Editorial da revista Monumentos desde 1994, tendo sido o primeiro Presidente do DOCOMOMO Ibérico, 1993-97. Foi ainda diretor do Instituto de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura em 2001/2003. 

Como chegou à escolha das imagens que compõem a exposição?

São fotografias da minha autoria de sítios que eu visitei e que pessoalmente conheço, com épocas históricas muito diferentes – tiradas ao longo dos últimos 40 anos. Viajei muito pelo mundo. Sendo a exposição feita a propósito da Capital Ibero-americana da Cultura 2017, escolhi só cidades ibero-americanas. Teria muitas outras cidades, mas estas pareceram-me as mais interessantes também no sentido de as comparar com Lisboa. E isto não é para afirmar Lisboa como uma “super cidade” – não existe por trás desta comparação nenhum complexo de superioridade ou de inferioridade, mas para demonstrar que Lisboa é uma cidade que participa do mundo e do urbanismo ibero-americano, e que se assemelha em vários aspetos a muitas cidades de Espanha ou de outros países ibero-americanos.

Este exercício de comparação é feito através das fotografias de, como disse anteriormente, um arquiteto, e não de um fotógrafo…

As fotografias não são pretensamente de autor. Algumas são boas, outras são más. Algumas têm problemas de luz (estava a chover torrencialmente em Buenos Aires [risos]), mas têm em comum o documental – têm sempre uma história associada que podemos recuperar. Por exemplo, esta da Praça de Maio [aponta], que evoca as mães da ditadura argentina, a luz da manhã – os pretextos que entendermos… Portanto, podemos chamá-las de fotografias documentais. Muitas foram já restauradas, algumas delas contam com mais de 30 anos.

O que deve a diversidade lisboeta à América Latina? O que deve a América Latina aos portugueses em termos de arquitetura e urbanismo?

Eu tentei que, no tal mundo ibero-americano ou latino-americano, equilibrar o lusófono e o castelhano/ hispânico. E portanto, temos aqui a representatividade quase equivalente. Procurei que fosse interessante para todas as pessoas que possam aqui vir. Há várias partes que podemos destacar – uma coisa são as Caraíbas, outra é o México ou o Brasil (quase continentes), outra os Andes (que aqui praticamente não entram), depois as cidades ibéricas, e respetivas ilhas… Quis demonstrar as diferenças que existem de região para região, sendo apesar de tudo todas ibero-americanas.

Quando olhamos, por exemplo, para a Colónia de Sacramento, que tem claramente uma influência portuguesa, que aspetos podemos identificar como elementos de similaridade com Lisboa?

Aqui o aspeto de comparação não se centra necessariamente nos monumentos. Isto é uma aldeiazinha (a cidade em si são 10 ruas/ 50 casas). O aspeto português que está mais patente na Calle de Portugal é a pequena escala, popular, doméstica, acolhedora… O mais interessante é circular pelas ruas, com esta calçada à portuguesa (agreste) e sentirmo-nos numa aldeia portuguesa. Tem um valor único, e é também por isso que é Património da Humanidade. Também achei graça, por outro lado, colocar na exposição cidades do século XX, apesar de a maior parte das cidades ter surgido com a expansão colonial. Há muita coisa aqui que já é das próprias nações.

E nesse sentido também existe a influência no sentido oposto, nomeadamente do Brasil para Portugal…

Sim. Quando o Carrilho da Graça desenhou o Pavilhão do Conhecimento, não tenho dúvidas em pensar que ele viu ali o Niemeyer. Aliás, estas praças maiores “à espanhola”, são praças inspiradas no México. Primeiro fizeram-as na América e só depois as “trouxeram” para cá. Eu não tenho muita paciência para os complexos coloniais ou pós-coloniais, porque são ideias pré-concebidas que atrapalham a compreensão das coisas. Acho mais interessante insistir nos dois lados, no valor e na força dos países e no diálogo entre eles, e insistir que Lisboa está aqui meramente como termo de comparação, só porque este ano é a Capital Ibero-americana e por ser uma cidade muito rica em contrastes, que dá para comparar com quase tudo neste universo da cultura ibero-americana (paredes de pedra, monumentos barrocos, grandes ruas e avenidas…).

Como arquiteto e formado em urbanismo tem necessariamente de ver a cidade desses pontos de vista. Durante os seus 30 anos de viagens e estudos que cidades o marcaram mais nesse sentido e porquê?

As duas maiores nações – o México e o Brasil. O Brasil, porque é impressionante pensar como uma “coisinha” do tamanho de Portugal conseguiu fabricar aquela imensidão, aquela quantidade de mundos que o país encerra. O México impressionou-me por ser um país asteca. Manteve a maneira de falar e a própria monumentalidade dos edifícios, que é fruto da influência espanhola mas também das pirâmides (que se pode ver, por exemplo, na Cidade Universitária). É um mundo antigo que existe ali e que não morreu só porque foram colonizados. Ao contrário da Colômbia, ou da Venezuela, ou mesmo do Peru, que talvez por serem culturas não urbanas, dos índios da floresta, ou por serem um bocadinho mais fracas, como é o caso dos Incas, foram-se abaixo. Hoje em dia é muito difícil ver mais do que arqueologia neste países. E de uma outra forma, Cuba também me agradou, por ser uma “gracinha”, quase do tamanho de Portugal, e com um povo alegre, apesar da pobreza (em contraste com o povo português, mais triste). A revolução cubana do Fidel não seria possível num outro sítio, com outras mentalidades, e a prova disso é não ter acontecido em mais lado nenhum.