Natália, de Pablo Azócar pela voz da sua tradutora Maria Manuel Viana

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Só podia chamar-se Natália, decidiu Pablo Azócar, ao fim de dez anos de escrita e reescrita, quando o romance já tinha perto de 600 páginas, porque o nome de uma mulher – daquela mulher, Natalia – “não era um título e sim um destino”. E, de algum modo, o que o escritor pensou viria a tornar-se realidade, porque Natalia tornar-se-ia nos anos 90 um livro de culto, daqueles que passamos aos amigos, de que falamos em voz baixa e com um entusiasmo em tudo contrário ao momento político que se vivia, então, no Chile. Natalia era a protagonista, a destinatária do discurso amoroso do narrador cujo nome nunca sabemos, a jovem que um dia sonhou uma dupla e a trouxe para casa, a mulher que se multiplica em dezenas de outras, “loucas, inconstantes, pícaras, transitórias, sensuais, libidinosas” nos braços das quais o narrador julga perder-se até concluir, uma e outra e mais outra vez, que a função dele, o objectivo único de uma vida, num país em que todos os sonhos se tornaram pesadelos e se vive cada momento à beira do suicídio, entre amigos assassinados e outros que vão ser mortos ou se suicidarão ou morrerão de nada, (“morrera de nada, era assim, de nada”, como explicou o tanatólogo Hurtadito, desconcertado, de “cabeça perdida, descomposto, passando a mão pelo longo cabelo branco, caminhando em círculos e murmurando obscuras imprecações”), um país habitado por ditadores de óculos escuros e fantasmas e órfãos que deambulam pelas ruas de Santiago do Chile, era esperar por Natália, desejar o regresso de Natália, ficar sentado em casa à espera de que Natália voltasse, organizar o seu simulacro de vida entre os desaparecimentos e reaparecimentos de Natalia, amante e amada desesperadamente, paixão sem sentido porque já nada faz sentido num país que lhes foi roubado.

Traduzir Natalia foi mergulhar nos anos de chumbo do Chile, recordar aquele 11 de Setembro que nos deixou órfãos a todos quantos acreditámos em Salvador Allende e num país livre, democrático e socialista. Ao cenário lúgubre e triste a que tentei dar voz numa outra língua juntou-se, paradoxalmente, a grande alegria de conhecer o Pablo, o Pablo Azócar, o escritor e o jornalista que vivera em Lisboa depois de os militares tomarem o poder no Chile, primeiro através das várias leituras de Natalia, depois através das palavras da amabilíssima Ximena Ares, Consejera en la Embajada de Chile que me pôs em contacto com ele e das histórias que me contou o Carlos da Veiga Ferreira, que se cruzou com ele e o quis publicar, mais tarde sem intermediários a não ser o espaço virtual por onde circulavam os muitos emails que fomos trocando ao longo da tradução, sem recorrer ao skype nem ao telefone como, generosamente, o Pablo propusera desde a primeiríssima mensagem. Nunca uma questão ficou sem resposta, uma dúvida por esclarecer, e muitas vezes me espantei da prodigiosa memória que o Pablo guardava de um romance publicado há 27 anos – por ele e também pelo leitor mais jovem, decidimos, o Pablo Azócar e eu, acrescentar as notas necessárias (geralmente referências a outros escritores e músicos, letras de canções ou versos ou palavras de outros textos que permitem situar, mais do que a inexistente menção a um tempo concreto e datado, em tudo oposto ao presente sem esperança de futuro que as personagem vivem, esse tempo interminável das ditaduras) para homenagear, recordar, amar aqueles que a História tornou icónicos e heróis. E, porque este trabalho conjunto de tradução se pautou também por episódios divertidos e muita alegria, não resisto a contar um dos episódios mais hilariantes que diz muito sobre o Pablo e, sobretudo, sobre a minha doentia obsessão para que tudo faça sentido: ao encontrar, quase no final do livro, um Manolo Santillán que nada me dizia e não querendo abusar da já mais do que abusada paciência do Azócar, passei dois dias à procura do dito Santillán até que, por fim, o encontrei e cabia perfeitamente na galeria de personagens estranhas do romance – feliz por o ter descoberto, escrevi então um email, um dos últimos emails que trocámos sobre a tradução, em que lhe contava como fora complicado descobrir Manuel Santillán, mas que o excerto que lhe enviava me parecia o certo. “Existen muchas versiones sobre la existencia del famoso “León”(…), No se tiene prueba documentada de que siquiera haya existido Manuel Santillán (…) Historias cuentan que este personaje era un hincha de un equipo de futbol y fue asesinado por un ajuste de cuentas. También existe la teoría de que Manuel fue un bandido muy al estilo de Robin Hood, robaba a los ricos para darles a los pobres. Según esa teoría, Santillán era buscado por un comando especial de la policía, fue emboscado y asesinado. Lo único cierto en la historia de Manuel Santillán, es que vive en el imaginario cultural de todo América Latina. El “León” representa a todos los caídos en las dictaduras militares que surgieron durante los setentas y ochentas principalmente. Manuel Santillán, el “León”, es la gente.”.

Na resposta, Pablo dizia-me: “Según recuerdo, Manolo Santillán es simplemente un personaje fugaz de ficción, un nombre que simplemente se me ocurrió (si no me equivoco, en la novela era uno que tocaba la guitarra en los mercados o algo así, ¿no?), pero me encanta el perfil del Manolo Santillán que encontraste. Me gustó eso de que corrieran múltiples leyendas urbanas en torno a él, etc. En estricto rigor correspondería que no pusieras ninguna nota pues es solo un personaje de la novela, pero también podríamos jugar y lo ponemos con nota como el Manolo Santillán de la leyenda, a manera de divertimento. En fin, lo dejo a tu criterio.”. Evidentemente, a Manolo Santillán não corresponde nenhuma nota e, se conto esta história de (quase) traduttore-traditora, é por ter sido um dos muitos momentos divertidos e cúmplices que pautaram a nossa correspondência e que me enchem de alegria por saber que o Pablo Azócar estará, no dia 25, na Casa da América Latina, a falar de Natalia. E talvez, quem sabe?, nos conte um segredo que tem muito a ver connosco, habitantes de Lisboa, tal como ele o foi, um dia. Talvez, se insistirmos muito. Talvez, porque há segredos que desejamos partilhar, tal como há livros que queremos muito que os outros leiam. Como esta Natalia de Pablo Azócar.

Maria Manuel Viana