Jorge Valdivia: O Realismo Mágico na pintura

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Jorge Valdivia Carrasco nasceu em Ayacucho no Peru e vive em Frankfurt (Alemanha) há mais de três décadas, onde diz ter mais tranquilidade e disciplina para trabalhar. Desde muito jovem que se interessa pela pintura, exercendo profissionalmente esta atividade artística. Evoluiu em busca permanente de uma expressão própria, tendo atingido um nível de qualidade e reconhecimento que lhe permitiu integrar a Associação Internacional de Artes Plásticas da Unesco em Paris.

A Casa da América Latina entrevistou-o numa visita que fez às instalações desta associação.

Perguntava-lhe há pouco se a sua obra é surrealista, e respondeu que se inspira Realismo Mágico…

Quando os escritores começaram a escrever no Realismo Mágico, ele já existia desde os tempos antigos, pré-hispânicos – é uma corrente baseada em crenças um pouco mais poéticas de ver o mundo. Ver o mundo como algo maravilhoso, importante. Cada coisa dá o seu contributo. O meio ambiente liga todos os aspetos da vida e tudo está relacionado. As cordas representadas nos meus quadros têm esse mesmo sentido.

Falou também na poesia como inspiração. Existe algum autor ou texto que o seja em especial?

Gabriel García Marquez, por exemplo, que é o escritor latino-americano mais famoso do Realismo Mágico. Depois está Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Juan Rulfo, temos muitíssimos… O Realismo Mágico começa por volta do século XX e vai evoluindo… Temos muitos escritores, no entanto, a vida em si, especialmente no Peru, de onde sou, vive-se de uma maneira mais “mágica” ou poética. Acredita-se que se aparece um colibri é para dizer algo, para comunicar connosco. Não é mitologia, mas simplesmente algo poético.

E consegue identificar qual a fonte de inspiração que provocou a composição de cada quadro?

Não necessariamente. Na vida, em todos os momentos, maravilhamo-nos com o ambiente: as aves, os peixes – no fundo, aquilo que comemos. Se vou ao mercado comprar um peixe, não o vejo apenas como sendo algo que serve à alimentação, mas também como algo belo – a sua cor, os seus olhos, as escamas, as barbatanas… ou um frango – com as patas, o bico, as penas… é algo muito bonito.

Existe a preocupação em representar esteticamente as coisas inevitavelmente ligadas ao humano?

Absolutamente. Existe uma ligação completa entre o ser humano e o meio ambiente, os animais, as plantas… E as cordas significam que tudo está unido, são um simbolismo desta união de tudo que se ameaça romper. Se esta ligação se desgasta, o meio ambiente também se começa a extinguir. Lamentavelmente, é o que se está a passar no mundo. Já não há respeito pelo meio ambiente e isso é perigosíssimo. É uma maneira de se suicidar – coletivamente [risos].

E aí encontra-se a atualidade e urgência dos quadros. Mas reparei também nas representações de figuras que parecem vindas do passado…

Utilizo figuras de grandes pintores do Renascimento, como Sandro Botticelli, Rogier van der Weyden… Com o avanço dos séculos, a pintura foi o mais maravilhoso que o ser humano criou. No século XXI ninguém pode pintar como os nossos génios renascentistas (Michelangelo, Leonardo da Vinci, Caravaggio…), uma série de pintores que tinha um domínio manual maravilhoso, que estamos a perder. A tecnologia também é essencial, mas, muito devido a ela, estamos a perder a destreza manual.

É uma homenagem a estes grandes mestres. Inicialmente foi apenas isto: uma vontade de resgatar esta técnica e este estilo de pintar. Nas exposições as pessoas perguntam-me «- Porque fizeste isto em 2016?». A maior parte delas já não sabe o que significa ter uma destreza manual, atribuem o poder de fazer as coisas à tecnologia. Que é maravilhosa! Mas também é maravilhoso conservar esta destreza.

Já expôs em Portugal várias vezes…

Exponho em Portugal há 12 anos. Para mim Lisboa é uma das cidades mais belas do mundo. Gosto muito dela, e o que se sente mais é a criatividade da gente jovem. É algo vital e fantástico em Portugal. Em outros países isso está a perder-se.