As cartas de amor de Francisco Gomes dão-nos a conhecer Benedetti em “O Estranho Caso do Bigode Irónico”

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Francisco Gomes é o encenador da peça “O Estranho Caso do Bigode Irónico – Investigação sentimental sobre a vida e obra de Mario Benedetti”, que vai estrear amanhã, dia 26 de maio, na Casa da América Latina (Av. da Índia, 110), pelas 21h30.

Este espetáculo, concebido no âmbito da Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017, é “uma viagem pessoal pela personagem real e fictícia” do escritor, poeta, ensaísta, jornalista e crítico uruguaio.

Como decidiu fazer este espetáculo, debruçado sobre a vida e obra de Mario Benedetti?

A ideia surgiu porque a Isabel Araújo Branco, que era quem estava a ajudar na programação dos eventos de poesia para o ano da Capital Ibero-americana da Cultura, me desafiou a fazer um espetáculo relacionado com poesia, com um autor ibero-americano. Fiquei entusiasmado, e quando me perguntou que autor poderia ser surgiu de imediato Mario Benedetti, porque o adoro, e, curiosamente, não é conhecido em Portugal. E se surgiu a oportunidade de o dar conhecer, escolhi contar também a história de como eu o conheci. Pretendi criar um espetáculo de partilha da sua obra e da experiência emocional que representa conhecer um poeta e a sua poesia, através de uma experiência muito pessoal, que vivi e decidi transpor para o espetáculo – inspirado em factos reais, mas com factos ficcionais para ajudar à narrativa. Porque o que mais interessa é dar a conhecer a sua obra, entrecruzada com a minha experiência pessoal: Aliás, a poesia é sempre pessoal, é algo de íntimo e único.

“Foi o amor que o levou a Benedetti”… O que nos pode dizer sobre essa experiência pessoal que o fez conhecer o escritor?

Isso é o que vou contar no espetáculo. E é a história da forma como o conheci. Nasceu de uma história de amor muito bonita que vivi com uma rapariga, quando tinha 20 anos. Essa experiência consistiu num amor à distância (porque ela era espanhola), e esteve assente numa troca de correspondência onde a poesia era constante. Juntos descobrimos a obra de Mario Benedetti. Foi ela quem me deu a conhecer o poeta. Trocámos muitas cartas sobre ele, e cruzámo-las com o nosso romance. É essa a história que eu quero contar: a minha descoberta de uma relação de amor e de um escritor.

E, de certa forma, quem vê agora o espetáculo, pode contar com uma descoberta conjunta, porque é uma experiência pessoal que se está a a envolver com a delas…

Exatamente. Isto não vai ser um exercício de psicanálise. Mais do que exorcizar fantasmas, trata-se de criar uma história em torno de uma experiência verídica, que evoluiu para um espetáculo. O que me interessa mais é contar a história do poeta e mostrar a sua obra, mas quis criar um pretexto para a cruzar com a minha história. Mais do que partilhar uma experiência pessoal ou um exercício de confessionário, é o exercício de partilha de uma obra que espero que seja universal. O objetivo é que durante o espetáculo consiga fazer vibrar as cordas emocionais que tocam a cada um de maneira diferente. Porque é uma daquelas histórias que tem um carácter universal, e, apesar de transmiti-la de uma forma pessoal, espero que chegue a toda a gente.

E por falar em cordas, o violino tocado por Maria do Mar acompanha a peça… Porque optou pelo violino? De que forma estas duas componentes se interligam?

Quando pensei no espetáculo, pensei que a poesia vive bem com música ao vivo, e quis incorporar um instrumento que fosse ele também ele fortemente emocional, que tocasse uma corda emocional forte cá dentro. Ora, um instrumento emocional forte por natureza é o violino – muito envolvente e que apela muito ao sentimento apurado. Mas eu não queria que fosse algo melodramático. Eu já conhecia a Maria do Mar como excelente violinista que é, e a sua componente clássica, mas também muito experimental. Achei que ela criaria uma ótima fusão entre o emocional, sentimental e experimental, depurando a parte mais “lamechas”, e conferindo uma forte nota emocional, mas com originalidade e modernidade.

A poesia está presente no espetáculo também como forma de dar a conhecer Benedetti?

Sim. Eu vou partilhar a obra dele. Vou recitar poemas e contos. Precisamente porque não ser conhecido e fazer todo o sentido nesta empreitada dar a conhecer a obra do autor, mostrá-la, encarná-la e dizê-la. Na peça existem muitos momentos de declamação de poemas dele, bem como contos que se vão encadeando na história do espetáculo.

O espetáculo é pautado por uma vertente cómica que lhe é característica, quer falar um pouco sobre esta opção?

O que me apaixonou por Mario Benedetti em primeiro lugar foi, não só a componente emocional, ternurenta e doce da sua obra, mas também o lado irónico e humorístico. O sentido de humor, que o Benedetti dizia ser a única coisa boa que os britânicos deixaram no Uruguai, é o que gostava de partilhar no espetáculo, que tem uma vertente cómica por via da obra dele, mas por outro lado, também pela minha via pessoal. É um registo no qual estou mais à vontade e que sai mais naturalmente.

Qual a relevância e simbologia do “bigode”, elemento central do espetáculo?

O bigode é algo que eu sempre considerei uma característica única na figura de Benedetti. Conheci a sua obra muito antes de conhecer a sua cara. Quando o vi fiquei muito espantado e achei muito curioso o seu bigode, e isso teve reflexo na minha história e na relação que tive. O objetivo era criar aqui um símbolo do que é o Benedetti para a sua obra. O bigode tem um papel importante na narrativa, e acaba por ser o mote da descoberta da sua obra.

O espetáculo é apresentado num registo de contador de história. É um monólogo que usa um registo de partilha. Já não é teatro no sentido da “quarta parede”, em que os atores estão separados do público, que por sua vez está a observar a ação que se passa numa redoma. Eu aqui estou a contar uma história ao público numa abordagem direta de partilha. O que não há de interação com outros atores em contracena (apesar de ter com a Maria do Mar uma interação e cumplicidade musical), tenho com a energia do público quando estou a falar-lhes. E é um registo de storytelling que tenho desenvolvido ao longo dos anos e que é muito gratificante.

O cenário é muito minimalista… Os objetos foram escolhidos por alguma razão específica?

Eu gosto sempre da simplicidade e minimalismo, principalmente no que toca aos espetáculos de contador de histórias. O que o personagem faz é dizer as coisas que se encontram na cabeça de quem ouve, e, nesse sentido, o cenário quase atrapalha. Está ali para não tornar demasiado concreto o que o contador de histórias quer fazer crescer na cabeça das pessoas. Aqui o propósito era criar referências mínimas de familiaridade com o universo do espetáculo. O público é quem constrói o espetáculo. O público é o grande criador das histórias que vê em palco.