Entrevista com Ricardo Cabaça: O mar e a selva invadem o palco em “Storni-Quiroga”

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Ricardo Cabaça apresenta na Casa da América Latina, no dia 21 de abril, pelas 21h30, a peça “Storni-Quiroga”, concebida para a Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017.
Inspirado na vida e universo literário de Alfonsina Storni (Argentina) e Horacio Quiroga (Uruguai), o espetáculo é “uma abordagem, colagem, viagem e poetização da vida e obra” deste dois escritores protagonistas do modernismo sul-americano.

Como surgiu a ideia de fazer uma peça inspirada na vida e obra de Alfonsina Storni e Horacio Quiroga?
Nós queríamos falar sobre a América Latina e simultaneamente sobre poetas sul-americanos, trabalhando um lado mais biográfico. A Alfonsina Storni é uma poetisa de que gostamos muito e que tem uma obra muito intensa, sendo a sua própria vida muito dramática e depressiva, tal como a do Horacio Quiroga, que é uma figura marcada pela tragédia. Os dois tiveram uma relação amorosa, que não é perfeitamente clara, porque nas biografias da Alfonsina Storni é sempre mencionado o Horacio Quiroga, mas o contrário não acontece. Por isso também, quisemos fazer uma espécie de justiça e ficcionar vários encontros, os momentos de amor, para devolver um pouco da Alfonsina às biografias do Quiroga.

Sabes qual é a razão da ausência desta história de amor dessas biografias?
Possivelmente a razão está no facto de ele se ter casado duas vezes. A Alfonsina teve um amante que foi o pai do seu filho, nunca casou oficialmente. Talvez por isso tenham desprezado um pouco essa presença da biografia oficial do Quiroga. Mas não posso afirmar com certeza que seja essa a razão.

Que tipo de documentos consultaste para resgatar a história destes dois protagonistas?
Houve vários momentos. Em primeiro lugar, pesquisei muito a obra da Alfonsina para perceber a sua psicologia, o pensamento dela. Porque na poesia encontra-se todo o seu pensamento, desde a questão amorosa, a sua postura em relação aos direitos das mulheres (era uma das poucas perante uma academia mais masculina, tendo um papel político e social nesse aspeto), e, por outro lado, também me baseei em biografias que fui lendo e na obra do Horacio Quiroga, em documentários, vídeos, filmes, estudos críticos e biográficos dos dois. Foi a base documental. Depois, no fundo, foi tentar perceber de que forma os podia cruzar, e, só a partir daí, escrever o texto.

E nessa fase surgiu o lado mais ficcional?
A peça tem uma orientação cronológica, um certo fio condutor, mas nem todos os dados são cronológicos neste espetáculo, e muitos deles partem desse lado ficcional, que assenta precisamente nestes encontros. O próprio encadear dos momentos anteriores à morte dos personagens é completamente ficcionado. O Horacio Quiroga escreveu uma última carta dirigida à Alfonsina antes de morrer, mas esta perdeu-se para sempre. A carta existiu mas nunca foi entregue e não se sabe o conteúdo. Eu escrevi uma carta baseada naquilo que fui lendo e naquilo que eu achei que teria coerência no espetáculo. O Horacio escreveu-a no hospital, quando estava já prestes a morrer, e pediu a um amigo para a entregar, mas acabou por se perder.

Que importância têm estes poetas na América Latina e no teu universo pessoal?
A Alfonsina Storni é uma poetisa muito respeitada na Argentina, estando certamente entre as maiores daquele país e o Horacio Quiroga até é considerado um dos percursores do conto moderno sul-americano, ou seja, são figuras demasiado grandiosas para o Uruguai, Argentina e toda a América Latina. Tive contacto com ambos na faculdade, porque licenciei-me em Estudos Portugueses, e acabei por tocar a obra dos dois, inserida em todo o lado fantasioso dos contos sul-americanos. A poesia da Alfonsina é muito ligada ao mar, e nós, em Portugal, estamos inevitavelmente muito ligados ao mar – então existe esse lado de proximidade às imagens poéticas que ela cria. Admiro-as bastante e revejo-me muito nelas.

São, no entanto, figuras pouco conhecidas em Portugal?
Conhecemos mal. A obra do Horacio Quiroga ainda é conhecida, porque foram publicados, se não me engano, quatro livros – ou seja, ainda temos acesso a essas traduções. No caso da Alfonsina, que eu tenha conhecimento, não foi feita nenhuma tradução, sendo um nome que muito pouca gente conhece cá.

O teu objetivo foi chamar a atenção para eles através de uma “homenagem”?
Por um lado, o objetivo era trazer a obra deles, as biografias, e tudo aquilo que os envolve para o universo português, e, claro, partindo desta premissa de fazer uma obra ficcionada em torno dos dois. Não pensei especificamente no objetivo de traze-los para perto do público, mas é, seguramente, uma forma de poder partilhar duas figuras que nós na companhia tanto apreciamos.

Que diferenças ou especificidades apontas a este espetáculo em relação a outros que já realizaste com a 33 Ânimos?
Fizemos um ciclo biográfico, que encerra com este espetáculo, no qual falamos do Otto Dix, o pintor alemão, da Dona Maria I, do Eadweard Muybridge, fotógrafo inglês e também percursor do cinema, e, agora, encerramos com o Horacio Quiroga e a Alfonsina Storni. Embora sejam todas biografias, foram abordadas de forma muito diferente, mais ou menos poética, mais ou menos cronológica. Neste em específico fizemos algo diferente, que foi agarrar mais a obra dos dois, sobretudo da Alfonsina Storni, que integramos na peça (nos outros casos a apropriação tinha sido feita de modo mais subtil). Aqui, quisemos colocar os poemas, não só porque fazia sentido tê-los dentro do espetáculo, que segue uma linha mais poética, mas, ao mesmo tempo, para que o público português que nunca ouviu poemas da Alfonsina Storni, poder ouvi-los pela primeira vez. De outro ponto de vista, este espetáculo também reflete mais o continuar da nossa linguagem, do que propriamente uma mudança.

O suicídio é um tema sensível presente nesta obra. O que te atraiu nessa temática, e de que forma é explorada?
Há uma parte do espetáculo centrado na questão da morte em Horacio Quiroga (o pai morreu num acidente de caça, o padrasto suicidou-se, a primeira mulher suicidou-se, e ele matou o melhor amigo num acidente num duelo. Mais tarde o Horacio Quiroga suicidou-se, a Alfonsina Storni suicidou-se um ano depois, e dois dos filhos dele suicidaram-se também após a sua morte). No momento em que são descritas as mortes ligadas à vida do Horacio escolhemos criar uma espécie de transe para falar sobre a elas, algo mais primitivo. Depois, o suicídio do par, é explorado de uma forma muito mais poética, porque não queríamos que se tornasse em algo trágico, negro, pesado. Colocámos os elementos de morte de cada um em cena: no caso do Quiroga – o veneno, e no caso da Storni – a água, e assistimos a um suicídio muito suave e, de certa forma, pacificador.

Acaba por retratar o suicídio numa forma de partilha…
Sim. Tanto que há diálogos em que eles mencionam isso mesmo – “vou ao teu encontro”, “espero por ti”, “damos um mergulho”, “tenho um último poema para ti”… Há este ponto que eles têm em comum, mas há outros. Tanto Alfonsina como Horacio tiveram cancro – ela cancro da mama, que lhe imobilizou o braço (depois de os médicos dizerem que ela já estava curada, o cancro reincidiu e ela decidiu acabar com a vida), e ele cancro no estômago (não se quis submeter à doença e morreu tranquilamente envenenado com cianeto).
A Alfonsina soube imediatamente da morte dele e escreveu o seu último poema, que também está aqui no espetáculo, tanto em espanhol como em português, no qual fala precisamente sobre isso – “morrer como tu Horacio, na tua lucidez”, ou seja, a morte dele partiu do desejo pessoal. É mais um ponto que os aproxima.

Os símbolos que referes (água e terra) são também identificáveis na própria obra dos escritores?
Completamente. A Alfonsina é sempre referenciada pelo mar, e, no caso do Quiroga, viveu grande parte da vida na selva argentina, em Misiones, e escreveu muito sobre a selva quando esta estava a ser explorada, obstruída pela civilização. Existem muitas referências a animais como a onça, a anaconda…
O verde no palco representa de certa forma uma floresta. Tentámos, com a luz, criar também um ambiente favorável a essa mescla: por um lado, o pôr do sol que se vê de uma praia, ou, o azul da noite, o negro de uma floresta, bem como o próprio céu de Buenos Aires, os cafés… todos esses elementos estão lá. E a música, a paisagem sonora, também vai resgatar muito desses elementos através de tangos re-trabalhados, de composição original do Rui Geada, mas que ele fez com base nessa desconstrução, colocando elementos como o som do mar, das gaivotas, e também vozes sul americanas que dizem os poemas que marcam o início e o fim do espetáculo (no caso, do Victor Yovani, que é luso-venezuelano, e da Laura Borsani, que é uruguaia).

Qual o papel da terceira personagem na peça?
A Daniela faz uma personagem que se chama Anaconda. E este é não só o nome da tertúlia que o Horacio Quiroga fundou com outros escritores, mas também o nome da víbora de estimação tinha na sua quinta. Ao mesmo tempo, a anaconda (animal) está sempre presente nos contos. No fundo, essa personagem é uma espécie de confidente, amiga, presença das tertúlias – isto de um ponto de vista mais superficial, porque, na verdade, ela representa uma voz interior, o alter-ego da Alfonsina, que separa o bem e o mal, o desejo de estar com o Quiroga e o perigoso que é segui-lo.

– RICARDO CABAÇA –
Cofundador da companhia de teatro 33 Ânimos, em conjunto com Daniela Rosado, é licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e mestre em Estudos de Teatro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Escreveu e encenou Sempre outra dor (2010), Gota d’Água (2012), Morte súbita (2013), Reality Xau (2014), Dix, a partir da vida e obra do pintor alemão Otto Dix (2014) e A princesa, a partir de D.H. Lawrence (2015). Apresentou-se em diversas salas e espaços alternativos em Portugal, encenou Morte súbita na Mostra Internacional de Teatro de Cangas de Morrazo e coencenou com Daniela Rosado Os palhaços de Timochenko Whebi na Porta4 em Barcelona. A peça A vida segunda da barata, a partir de Franz Kafka foi selecionada e encenada na Mostra de Peças em um Minuto dos Parlapatões, em Lisboa e em São Paulo. Participou no Seminário Internacional de Dramaturgia 2015 (Obrador d’Estiu) em Barcelona, na Sala Beckett, com Simon Stephens.