Olvido García-Valdés: “Um poema é um lugar raro onde se guarda a vida”

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Olvido García-Valdés é licenciada em Filologia Românica e Filosofia. Entre outros prémios em 2007 foi agraciada com o Prémio Nacional de Poesia com o livro Y todos estábamos vivos (Tusquets, Barcelona, 2006, 2007). Em 2012 publicou Lo solo del animal (Tusquets, Barcelona, 2012). Em 2016 editou Esa polilla que delante de mí revolotea. Poesía reunida (1982-2008) (Galaxia Gutenberg, Barcelona, 2008, 2016). Os seus livros estão traduzidos em inglês, francês, italiano, sueco, alemão, português, romeno, polaco, árabe e chinês.

A sua base académica é em Filologia Românica e Filosofia, sente que estas áreas têm especial reflexo na sua obra?

Penso que não diretamente, mas sim do ponto de vista do processo de formação que nos vai construindo até chegar a ser quem somos; é um processo que nunca acaba, e para além das leituras e dos estudos, a experiência – ou seja, a vida refletida – é seguramente o fundamental. Eu estudei Filologia Românica em jovem, o que dá um considerável conhecimento “técnico” da língua, no entanto, tinha a sensação de que me faltavam raízes (o saber das línguas tem algo de arbóreo, parece-me, mas mais relativo às copas). Bastantes anos depois, para chegar à raiz, quis estudar – academicamente, um curso leva a outro – Filosofia; eu sempre li filosofia, porém não de forma metódica. E esse exercício de acatamento – “retroceder” a um estado que tinha já superado e refazer por completo o caminho percorrido – teve um resultado muito saudável e enriquecedor.

Como começou a escrever poesia? Quais foram as primeiras obras e escritores que a influenciaram?

Comecei a escrever quase desde criança, aos 12, 13 anos; soube depois que é muito frequente assim ser; nessa idade descobrimos que estamos sozinhos (ainda que rodeados de gente), e que assim será para sempre. Os cadernos de notas e os poemas, têm então uma função que, ainda que de outro modo, não deixarão de cumprir: abrir um espaço para falar com nós mesmos, num nível de intimidade que nenhum outro uso da língua permite.

Não saberia dizer se tiveram influência, mas muito jovem lia e lia Unamuno, Antonio Machado, Antonin Artaud, Alejandra Pizarnik, Virginia Woolf… Alguns destes nomes –Antonin Artaud, por exemplo – continuam a ser centrais na minha maneira de entender a escrita.

Sei que as artes plásticas têm um papel importante no seu percurso. De que forma esta e outras expressões artísticas inspiram a sua obra?

As artes plásticas – especificamente a pintura, mas não só – têm sido sobretudo uma companhia. Frequentemente sinto-me mais próxima do trabalho de um pintor do que dos poetas. A relação com Ambrogio Lorenzetti, Arshile Gorky, Piero della Francesca, Malévich, Vieira da Silva, Luis Fernández, Ana Mendieta… tinha algo de obsessão; obsessões temporárias, mas verdadeiras obsessões. E é comum aprender mais sobre problemas técnicos da poesia na pintura, na forma de enfrentar os problemas com que se deparam os artistas plásticos, do que na própria poesia.

É responsável pela tradução de várias obras, incluindo duas de Pier Paolo Pasolini. Existe uma identificação especial com estes autores?

Na poesia, traduzi La religión de mi tiempo, de Pasolini, e em colaboração, uma antologia muito ampla, El canto y la ceniza, de Ajmátova e Tsvietáieva, as duas extraordinárias poetas russas e El resto del viaje y otros poemas, do grande poeta francês Bernard Noël. Cada um destes livros foi um desafio. São poetas de uma grande intensidade e complexidade, e absolutamente diferentes entre si. Traduzir poesia, como lê-la, é a cada vez uma experiência irrepetível. O que se aprende com Pasolini é completamente distinto do que aprendes com Ajmátova…; contudo, existe uma base em todos eles, uma atitude de “dar tudo por tudo”, de arriscar a vida pela escrita, que é a dos verdadeiros poetas.

Qual é o seu método de escrita? Numa entrevista usou expressões “como entrar no que dói” e “uma luta contra sim mesma” para traduzir este processo. Quer aprofundar?

Sim, digo por vezes que um poema é um lugar raro onde se guarda a vida. O poema chega ao que realmente nos interessa (pode ser um sonho, umas palavras ouvidas, algo que acontece de repente, um momento de luz ou de campo…); frequentemente é o que nos magoa, o que nos causa estranheza e nos conduz a elementos que não tínhamos presentes. Tudo isto chega ao poema com uma linguagem específica e própria em cada caso, e isso é o mais interessante, averiguar que linguagem é essa, o que nos traz e onde nos leva; essa linguagem permite-nos entrar no que desconhecíamos até então. Quem escreve poesia não fala para ninguém; ou, em todo o caso, fala consigo mesmo; e dizer o que já sabe não tem o menor interesse.

Que poetas acompanha atualmente nos países ibero-americanos?

Há muitos poetas e livros extraordinários; interessa-me muito o que se fez e faz por lá. Dos que já faleceram enumeraria Juan L. Ortiz, Jaime Saenz, Lorenzo García Vega, Blanca Varela, Carlos Martínez Rivas, Arnaldo Calveyra, Marosa di Giorgio… E quanto aos atuais: Ida Vitale, Mirta Rosenberg, Mario Montalbetti, Eduardo Milán, Magdalena Chocano, Daniel Samoilovich, María Auxiliadora Álvarez, Liliana García Carril…

Que projetos literários guarda o futuro?

Escrevo sempre, pouco a pouco, e em algum momento, depois de alguns anos, estes poemas convertem-se num livro. Acredito que continue a ser assim durante o tempo em que aqui estou; publiquei o meu último livro, “Lo solo del animal”, em 2012; de momento ainda não existe outro. Porém, aparte estão os ensaios, as conferências, os seminários…