Morreu o poeta brasileiro Ferreira Gullar

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Ferreira Gullar, poeta, escritor, dramaturgo, crítico de arte e tradutor faleceu aos 86 anos, na cidade do Rio de Janeiro.

Considerado um dos maiores autores brasileiros do século XX e vencedor do Prémio Camões de 2010, Gullar foi eleito para a Academia Brasileira das Letras em 2014 e proposto para o Nobel da Literatura em 2002. Premiado com o Jabuti de Melhor Livro de Ficção em 2007 e de Poesia em 2005, recebeu anteriormente o Prémio Molière pela tradução da peça “Cyrano de Bergerac” (1985).

Ferreira Gullar nasceu em 1930, em São Luís, Maranhão. Iniciou os estudos na cidade natal. Com 19 anos, publicou seu primeiro livro de poesias. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu jornalismo e participou do Centro Popular de Cultura da extinta União Nacional do Estudante.

Seguindo os princípios da poesia concreta, numa luta para construir uma expressão própria, o poeta afastou-se dos vanguardistas de São Paulo. Em 1954 escreveu a A Luta Corporal e em 1956 organizou e liderou o grupo “Neoconcreto”, no qual participaram Lígia Clark e Hélio Oiticica. Rompeu também com o concretismo, aproximando-se do populismo e do pensamento progressista da época. Em 1976, publicou o Poema Sujo, escrito em 1975, quando se encontrava exilado em Buenos Aires pela ditadura militar que o Brasil conheceu.


Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

Neste Leito de Ausência

Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.