Balanço da ÉS CENA, 2ª edição da mostra latino-americana de teatro

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[Texto da autoria de Maria Xavier, Coordenadora de Programação Científica e Cultural da Casa da América Latina]

Não pretendo neste texto desenvolver um comentário crítico da 2ª edição da mostra latino-americana de teatro (2 a 19 de Setembro de 2015, no Teatro da Trindade, Teatro Miguel Franco e Teatro Municipal Amélia Rey Collaço), muito menos obra a obra, em face da quase impossível imparcialidade enquanto programadora. No entanto, partilho dez pontos que, em forma de balanço, merecem registo e reflexão:

1) Cumprimos o objectivo proposto de refletir a dinâmica das artes cénicas no que diz respeito à América Latina, segundo os três eixos fundamentais da programação: apresentámos companhias oriundas da região (Brasil e Colômbia), obras que surgiram na diáspora latino-americana (Portugal, Espanha e Itália) e obras que resultam de residências e/ou laboratórios de experimentação e criação artística entre latino-americanos e portugueses, contribuindo para a consolidação de uma rede de produção artística transatlântica;

2) Levámos aos teatros da Trindade, em Lisboa, Amélia Rey Colaço, em Oeiras, e Miguel Franco, em Leiria, um total de dez espectáculos, além de três conferências, uma instalação, um filme-teatro, uma apresentação de livro e um seminário para novos críticos de teatro. Esta 2ª edição, na primeira quinzena de setembro, teve um impacto positivo local em altura de rentrée: do Chiado, coração da capital, ao dinâmico largo do Intendente, passando por Leiria e finalmente Algés, onde durante o último dia combinámos reflexão e formação (em crítica de teatro) e a apresentação da última peça, “Novas Diretrizes em tempos de Paz”, no espaço acolhedor de António Terra, encenador e diretor da Companhia de Actores, na presença da vereadora da cultura da Câmara Municipal de Oeiras que reiterou o seu apoio à já próxima ÉS CENA;

3) A ÉS CENA mostrou novas formas de fazer teatro, expondo fronteiras ténues entre o teatro e outras disciplinas artísticas, como na relação com corpo (quase dança) e a palavra (da ausência ao excesso), em relação coordenada com os bastidores, num conjunto de pormenores em que todos e cada um contam para o resultado final;

4) Demos oportunidades de formação em teatro-dança, por Valentina Cayote na Companhia Olga Roriz; em crítica de teatro, sob a orientação de especialistas como Rita Martins e Jorge Louraço da Associação Portuguesa de Crítica de Teatro; em história do teatro, ao abordar o papel do teatro de arena na construção de “um teatro brasileiro”, com a apresentação do livro de Paula Autran e, ainda, ao estabelecer pontes entre academia e cultura, ao inserir a mostra como parte do curso de verão sobre América Latina que decorria no ISCTE-IUL;

5) Pudemos ouvir as diferentes pronúncias da língua espanhola, do Caribe ao sul da América, e também da língua portuguesa, entre Portugal e o nordeste do Brasil, espelho de múltiplas identidades que convivem num mesmo território;

6) Com o programa de conferências, contribuímos para a memória do teatro português na sua relação com a América Latina, tema de José Carlos Alvarez; para a compreensão do panorama actual e a diversidade do teatro latino-americano, de que falou Guillermo Heras, profundo conhecedor, homem de terreno e nosso consultor artístico e que também revelou, enquanto diretor do programa Iberescena, possibilidades de investimento e formação de redes, a última das suas conferências no salão nobre do Trindade;

7) E foi o salão nobre também objecto de criação/reflexão, ao ser ocupado pela instalação de Juliana Lima que, em residência artística em Lisboa a convite da CAL, pôde criar in situ “um espaço imaginário, atemporal”, num apelo à memória e exemplo de interdisciplinaridade. Na mesma linha, o teatro foi cinema, com a projecção, numa noite quente no intendente, da peça transformada em filme “El Funeral de Neruda”, comentada pelo autor e encenador Renzo Sicco para uma plateia interessada nos mistérios da morte do mítico poeta chileno;

8) Além do trabalho gratificante em equipa, fica a memória de um projecto que se construiu à medida das entidades a que a ele se foram somando: as embaixadas da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, República Dominicana, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Sociedade Portuguesa de Autores, Fundação Inatel, Teatro da Trindade, Museu Nacional do teatro e da Dança, Companhia Oga Roriz, Teatro Municipal Amélia Rey Colaço/Companhia de Actores, Câmara Municipal de Oeiras, Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, Largo Residências, Junta Freguesia de Arroios, Diário de Notícias, Companhia O Nariz-Teatro de Grupo e Teatro Miguel Franco e, finalmente, a Direcção Geral das Artes, que nele acreditou ao atribuir-nos o seu apoio;

9) Ainda não terminou: a mostra desdobrar-se-á, ainda, em dois projectos que anunciaremos em breve: a produção de uma exposição em parceria com o Museu Nacional do Teatro e da Dança e a edição bilingue da peça “Tentativas de matar o amor”, de Marta Figueiredo, a vencedora do Grande Prémio de Teatro Português SPAUTORES / Teatro Aberto 2015;

10) O último ponto é o reflexo dos anteriores, a realidade viva de quem na ÉS CENA participou e que se manifestou por escrito nos dias seguintes, numa corrente de energia e esperança de que para o ano haja mais (textos em língua original):

Para nós – Companhia de Actores – foi uma enorme satisfação receber, no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço, a ÉS CENA – 2ª Mostra Latino Americana de Teatro. Fazer parte deste encontro é, por si só, uma honra! Trata-se de uma oportunidade ímpar para assistir a criações artísticas provenientes da América-Latina, onde a tradição teatral tem uma força visceral, à qual ninguém consegue ficar indiferente. Em particular, reconhecemos o privilégio que foi a realização do acolhimento dos espetáculos provenientes da República Dominicana. Privar com actrizes como Elvira Taveras, Niurka Mota e Kenia Liranzo Nuñez (Ministra Conselheira da Embaixada da República Dominicana, mas também actriz que muito trabalha em prol do teatro) foi uma experiência enriquecera e que despoletou um entusiasmo incomensurável em toda a equipa envolvida neste acolhimento. Paralelamente ao privilégio de conhecer os trabalhos de colegas de outras culturas, outro continente, foi a participação nas atividades paralelas que, para os profissionais do espetáculo no nosso país, representou um momento de partilha de conhecimentos, de aprendizagens e um espaço para discussão de ideias sobre esta missão comum de continuar a fazer Teatro! Por fim, foi um orgulho poder apresentar na ÉS CENA o trabalho da Companhia de Actores, no caso o “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, chegando assim a novos públicos. Por tudo isto, esperamos poder continuar com este envolvimento no futuro, assegurando, desde já, que esta Mostra contará sempre com o entusiasmo e colaboração da nossa equipa.

– António Terra, encenador , director da Companhia de Actores

De mi parte agradezco por esta oportunidad de poder presentar el espectáculo sobre Evita Peron que mas que nada es una invitación a la responsabilidad que cada uno de nosotros tiene en esta sociedad. Esto lo que llevo a cabo con esta obra y por lo que he notado el mensaje ha llegado y de esto estoy muy satisfecha y feliz. Fue sorprendente para mi comprobar como comprenden nuestro idioma. Felicitaciones por esto. Es mi deseo que podamos volver a colaborar porque me he sentido muy bien en vuestro país. De verdad, muchas gracias
Un fuerte abrazo

– Sonia Belforte, actriz argentina, Assemblea Teatro, Torino

E’ stata un’esperienza positiva. I teatri li ho trovati di alta qualità e il personale è stato gentile e molto disponibile e ci ha messo nelle condizioni di lavorare bene. Molte grazie

– Andrea Castellini, ténico, Assemblea Teatro, Torino

De nuevo Colombia, la realidad de cada día y los sobresaltos políticos de un país muy agitado. Nuestro mundo real es el escenario, ahí trabajamos todos los días, persistiendo. Ahora mismo estamos trabajando en el montaje de LOS CINCO ENTIERROS DE PESSOA, empezamos en Julio y estrenaremos en Marzo, en el Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá, 2016. Visitar Lisboa fue renovar los vínculos profundos con el espíritu del poeta-personajes.
Estar en la muestra de teatro que ustedes organizan fue un placer y un honor, porque somos conscientes del esfuerzo que hacen para realizar un evento que da testimonio del teatro creado en este parte del mundo. Nos gusto participar y fue importante hacer contacto con la cultura portuguesa y con otros grupos. Están comenzando a manejar un tema nada fácil: las realidades de las experiencias escénicas de países diversos para un público que no está acostumbrado al teatro latinoamericano de lengua hispana. Tal vez Brasil siempre ha tenido un nexo umbilical con Portugal, pero los otros países casi no tenemos contacto cultural con ustedes. Es una construcción que se inicia con fuerza y seriedad y eso se percibe directamente. Muchas gracias.

Sería bueno elaborar posibilidades y generar circunstancias para que se den encuentros y expresiones recíprocas, entre la gente que hace teatro en Portugal y quienes lo hacemos en Latinoamérica. Talleres, seminarios, demostraciones de trabajo, puntos de contacto más deliberados para intercambiar formas de labor teatral y conceptos en torno a lo escénico, ese universo donde el pensamiento y los acontecimientos de la vida se tornan inherentes a la estética. También sería bueno tener la oportunidad de conocer los caminos de grupos y personas que son parte de la historia viva del teatro lusitano. Es algo que enriquece procesos. De hecho, ustedes lo plantean y desarrollan varias actividades de carácter reflexivo, pero estamos hablando de algo que suceda en el escenario, entre actores, actrices, directores, estudiosos, de diversas compañías, para compartir los universos paralelos que existen en el teatro contemporáneo, en el teatro de la tablas, el que investiga cuestiona, piensa y se retroalimenta de manera constante.
Un abrazo y felicitaciones por todo lo que hicieron.

– Clara Inés Ariza, Juan Carlos Moyano, actriz e encenador colombianos, Teatro Tierra, Bogotá

No dia 12 de Setembro apresentei, no Teatro da Trindade, em Lisboa, o Monólogo Cantante A PELEJA DA VOZ COM A LÍNGUA – A SAUDADE, dentro da programação da Segunda Mostra Latino-Americana de Teatro: És Cena. O convite honrou-me pelo reconhecimento desta forma híbrida de teatro e canto à qual me dedico há mais de vinte anos. Na pele de uma artista brasileira senti-me politicamente engajada e, em nome deste sentimento, quero parabenizar esta feliz iniciativa de pensar uma Mostra Teatral, em palcos portugueses, cujo foco ilumina uma gama significativa de artes teatrais produzidas na América Latina, este continente tão grande, com tantos países e tão rico pelas suas diversidades culturais. O Brasil, por sua vez, é um país de grandeza continental onde as diferentes regiões também apresentam culturas tão distintas entre si, quanto variações linguísticas da nossa língua portuguesa. As oficinas e as conferências, aliadas aos espetáculos, foram oportunidades oferecidas através das quais pudemos experimentar e refletir sobre a pluralidade das artes cênicas na América Latina dos nossos dias: o que contam da nossa história; o que nos fazem aprender com a tradição e com a sua ruptura; o que nos permitiu vislumbrar de nossa riqueza cultural através das diferenças entre nossas línguas, através das variações da mesma língua falada em países diferentes, ou em regiões diferentes do mesmo país. És Cena – Segunda Mostra Latino-Americana de Teatro contemplou todas essas variáveis e conseguiu fazer de cada coisa que nos separa uma via de aproximação.

– Numa Ciro, actriz brasileira, Campina Grande (Paraíba)